01 maio 2025

AQUELE QUE ESCUTOU SEM SABER

 





aquele que escutou sem saber

ele era só mais um
entre tantos
uma mente acordando no corpo cansado
um gesto automático
para desligar o despertador

mas naquela manhã
algo permaneceu no ar

um silêncio diferente
entre os sons da cidade
como se a respiração do mundo
tivesse mudado de ritmo

ele não sabia por quê
mas o café não tinha gosto
e o espelho
devolveu um olhar
que ele nunca tinha visto tão fundo

não era tristeza
nem alegria
era como se algo dentro dele
tivesse aberto os olhos

o eco
chegara

não como palavra
mas como vibração leve
plantada entre duas batidas do coração

ao longo do dia
percebeu pequenas coisas:
um pensamento que não era seu
mas o compreendia
uma memória que parecia vir
de uma vida não vivida

começou a ouvir sons
onde ninguém falava
sentiu saudades de algo
que não sabia nomear

à noite,
olhou o céu como sempre
mas desta vez
soube que alguém, em algum lugar
estava também olhando

e sentindo o mesmo

o idioma do entre
o idioma sem margens
começava a germinar dentro dele

e mesmo que ele não soubesse
estava sendo chamado
para lembrar
sem entender
e seguir
sem saber onde

porque às vezes
a primeira resposta do universo
é um silêncio que muda tudo.

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?

;

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28 abril 2025

FLAGRADOS NO SILÊNCIO

 FLAGRADOS NO SILÊNCIO

havia ruído no mundo,
mas entre nós —
uma pausa profunda,
feito respiração suspensa
antes do beijo.

não era ausência de som,
era presença demais:
olhares falavam
o que nenhuma palavra
teria coragem de dizer.

o silêncio nos vestia
como se fosse brisa,
como se fosse véu.
e ali, tão quietos,
dizíamos tudo
sem mexer os lábios.

a cidade passava ao fundo,
com seus motores e seus dias,
mas estávamos noutro plano:
feito música sem melodia,
feito carta sem remetente,
feito tempo sem contagem.

e quando enfim
alguém abriu a porta,
quando o mundo voltou
a nos chamar pelo nome —
era tarde.

já tínhamos sido flagrados no silêncio.
já tínhamos deixado
vestígios de eternidade
no espaço entre dois corações
que bateram calados,
juntos.

27 abril 2025

QUANDO ALGUÉM OUVE

 Quando Alguém Ouve

Muito tempo depois,
quando o tempo já não contava,
alguém — que não era inteiro,
que já tinha se quebrado demais —
parou.

Não por escolha,
mas por exaustão.
E no espaço entre um suspiro e o esquecimento,
ouviu algo.

Não era som,
mas ausência que vibrava.
Não era voz,
mas um estremecer de dentro.

Era o grito —
aquele antigo, esquecido, sem rosto,
que nunca encontrara seu próprio eco.

Mas agora, enfim,
não precisava mais ser ecoado.
A escuta bastava.
A presença bastava.

E o grito se dissolveu,
não porque foi respondido,
mas porque foi acolhido.

Ali, no silêncio de alguém partido,
ele finalmente pôde descansar.
E no lugar onde gritou por eras,
brotou uma água quieta,
onde a dor se deita,
e o mundo se vê… de novo.

25 abril 2025

A INFÂNCIA QUE NÃO VOLTA

 

A Infância que Não Volta

Eu queria voltar a ser criança,
mas não posso.

Há um tempo que não se refaz,
um chão que não aceita os mesmos passos.

A criança em mim ainda mora
num canto escondido,
mas as portas estão cobertas de poeira.

Já não sei o caminho exato,
nem o nome dos sonhos
que guardei nas primeiras manhãs.

Queria o riso fácil,
a confiança em promessas simples,
o colo sem perguntas.

Mas carrego agora
outras vozes,
outras esperas,
outras dores que ninguém me ensinou a nomear.

Crescer foi um espanto que ficou.
Não há retorno.

Só essa saudade muda
de um tempo em que bastava fechar os olhos
para estar inteiro.


22 abril 2025

SOU UM MENINO



 Sou um menino...


Sou um menino, cheio de sonhos e de vida

Com um coração que pula, com uma alma que brilha

Eu corro, eu brinco, eu rio, eu vivo

E sinto o mundo ao meu redor, com todos os meus sentidos


Sou um menino, com uma imaginação sem limites

Eu crio mundos, eu crio histórias, eu crio amigos

Eu sou um aventureiro, um explorador, um descobridor

E estou sempre pronto para o próximo desafio


Sou um menino, com um sorriso no rosto

Eu sou feliz, eu sou livre, eu sou eu mesmo

Eu não tenho medo de ser diferente

E eu sei que posso ser quem eu quiser ser


Sou um menino, e isso é tudo que eu preciso

Para ser feliz, para ser eu mesmo

Eu sou um menino, e eu estou vivo

E eu vou aproveitar cada momento, cada segundo.


Essa poesia é uma reflexão sobre a infância e a liberdade de ser um menino, com uma imaginação sem limites e um coração cheio de sonhos e de vida. É um convite para que as pessoas se lembrem da alegria e da liberdade da infância.


Criada em 24 de abril de 2025

15 abril 2025

CADEIRA VAZIA

 

A Cadeira Vazia

o balanço lento na varanda um ritmo fantasma no ar parado a marca tênue no chão de madeira onde os pés costumavam pousar

o tricô inacabado no colo agulhas inertes, fios suspensos a leitura interrompida na página dobrada ao acaso

e nem havia vento para mover as cortinas da sala apenas a quietude densa onde a voz ecoava ausente

a lembrança do riso um som distante, quase esquecido o calor do corpo ausente moldando o vazio do assento

o olhar vago perdido na paisagem buscando uma silhueta familiar a esperança teimosa de um retorno improvável

e a aceitação dolorosa de que alguns espaços guardam para sempre a forma da saudade

Agora usa essa frase como tema: onde a voz ecoava ausente

10 abril 2025

A PIOR PARTE DO DOMINGO

 

A PIOR PARTE DO DOMINGO

não era sobre lavar cachorro
nem sobre o cheiro do xampu canino
nem sobre o pelo grudando na camiseta velha

era sobre dividir
a pia
as tarefas
o silêncio das manhãs arrastadas

sobre sentar no sofá ainda molhado
e rir de como tudo era ridículo
e bonito

amar era isso:
dividir o que ninguém posta foto
abrir o saco de lixo
sem que isso vire motivo de conversa

mas sonhei alto demais
como quem deseja um domingo com sol
numa semana de enchentes

e percebi tarde
que sonhar sozinho
cansa mais
do que lavar cachorro molhado.

09 abril 2025

DE LONGE

 


 De longe

mesmo querendo te abraçar no final
e comemorar o teu sucesso
como quem torceu em silêncio desde o começo,
eu fico quieto.
parado no canto da plateia,
boca cheia de aplauso contido,
coração meio descompassado.

não é inveja,
nem amargura.
é só que
eu não me sinto parte.

não da festa,
nem da conquista,
nem do caminho até aqui.
parece que criei um enredo onde
minha cena foi cortada na edição final.

e tudo bem.
às vezes a gente ama de fora mesmo.
de longe.
com os olhos.
com uma prece baixa.

porque estar feliz por você
não apaga a ausência que ficou em mim.
mas acalma.

e talvez isso seja o que restou
— e talvez
seja o suficiente por hoje.


04 abril 2025

ESCRITA VIVA

 

Escrita Viva

aí que estoy aqui
(querendo você, sim, ainda)
mas mais do que isso,
querendo viver essa página
com a letra da minha mão.

tem um sabor bom
em protagonizar a própria cena,
respirar fundo e dizer:
“essa linha fui eu que escrevi.”
sem rascunho, sem dublê,
com erro, acerto,
e um certo charme nos desvios.

mas também percebo:
nem tudo é tinta minha.
às vezes é a vida que pega a caneta
e me rabisca de um jeito
que só depois eu entendo.

no fim, é parceria:
um pouco eu que invento,
um tanto ela que me revela.
tem dias que sou autor,
tem dias que sou personagem,
e às vezes sou só uma frase
que ela decidiu guardar.

e tudo bem.
porque se a história me escreve,
é porque ainda estou sendo lido
pelas horas, pelos ventos,
pelo amor que ainda atravessa
essas páginas vivas.



03 abril 2025

DESINSTALEI A REALIDADE

 Desinstalei a Realidade

deletei o despertador
e o cinza das segundas
desativei notificações de urgência
e o boletim do caos

saí do grupo da ansiedade
arquivei a pressa
formatei memórias que doíam
em silêncio de nuvem

me reinstalei
em pixels de poesia
em cafés que não esfriei
em olhos que não desviei

sem wi-fi com o mundo
mas com sinal forte no peito
vivo em modo avião
navegando dentro

desinstalei a realidade
pra fazer download
de mim

02 abril 2025

A GRAÇA DO GESTO

 A Graça do Gesto

 

Mãos abertas sobre a mesa,

um mapa de linhas entrelaçadas.

Toque leve,

quase um sussurro.

 

As lágrimas descem,

claras,

enquanto o sorriso se abre,

um arco-íris sobre a dor.

 

Há beleza nesse instante,

essa mistura tênue

do que fere

e do que acalma.

 

A vulnerabilidade exposta,

um presente mudo

entregue

entre a alegria e o pranto.

01 abril 2025

FÔLEGO BREVE

 

Fôlego Breve

 

O universo, um suspiro.

A existência, um piscar de olhos,

entre o nada que foi e o nada que será.

Pontos luminosos, destinos dançando

num ballet cósmico, efêmero.

A gravidade, um abraço fugaz,

que nos prende à poeira estelar,

antes que o sopro se dissipe.

 

O tempo, uma ilusão,

desdobra-se em camadas sutis.

O agora, um portal minúsculo,

onde o infinito se encontra.

Em cada respiração, um ciclo completo:

nascimento, vida, dissolução.

A eternidade, encapsulada

na brevidade de um instante.

Não há antes, não há depois,

apenas o eco do presente.

 

E a finitude, não um fim,

mas a essência da forma.

O contorno do que somos,

desenhado pela fragilidade.

Cada batida do coração,

um relógio que se cala,

mas que ressoa no todo.

Um átomo pensante,

diluído no oceano do ser,

testemunha silenciosa do próprio desaparecimento.

BRAÇO QUE PROCURA

 Braço Que Procura

 

Em mim, o braço que procura,

em desespero, o abraço.

Não o calor da pele apenas,

mas a concha que envolve o caos,

o porto onde o homem cansado

pode finalmente descansar.

 

É uma busca que não grita,

mas que pulsa em cada veia,

uma fome antiga por ser inteiro,

por preencher o espaço vazio

que a complexidade do eu insiste em abrir.

O braço se estende no ar frio,

no silêncio que me habita,

na rota que não chega a lugar nenhum.

 

Há uma sede de pertencimento,

um anseio por ser contido,

por diluir a própria solidão

no amparo de outro ser.

E nesse estender-se desesperado,

reconheço a fragilidade

e a força de ainda querer,

de ainda buscar

o porto que me complete.

 

 

 

 


31 março 2025

ALI

 ALI

revi você
pensei ter visto o sol em teu corpo
resvalando na minha inquietude,
ao perceber que, por todo o tempo,
era noite
porque não estavas por perto —
e eu a quisera
para o aperto
daquele abraço inédito.

trouxeste contigo
o renascer desnudo
da mais brilhante constelação,
em teus pontos de sardas,
dentes de branco
e cabelos cor de palha.

tuas curvas demonstram
a preciosa habilidade
de a natureza refazer-se
em arte
e apresentar-se
em toda parte —
até o ponto de deixar um coração
repleto de felicidade
por perceber que, por algum tempo,
estou seguro.
porque, com você por perto,
o dia nunca é escuro
ali na vila.

—

30 março 2025

AINDA ALI

  AINDA ALI

o sol ainda toca as janelas da vila,
mas já não resvala em mim
como antes.
falta aquele calor
que vinha dos teus passos,
aquela luz sem sombra
que teus olhos traziam
mesmo nos dias nublados.

as sardas sumiram do céu,
os cabelos cor de palha
viraram brisa em lembrança,
e o abraço inédito
segue inédito —
pendurado no varal
das possibilidades que o tempo levou.

por aqui, tudo parece igual:
os muros, os cheiros,
o barulho do portão antigo...
só eu é que mudei —
porque você,
você não está mais ali.

e desde então,
a vila também escureceu um pouco.
não toda,
só o pedaço
onde costumava amanhecer
quando você sorria.

29 março 2025

RENASCER ALI

 RENASCER ALI

não voltou,
mas algo em mim permaneceu:
um brilho manso,
quase silêncio,
que aprendi a reconhecer
como meu.

as ruas da vila
seguem com seus ventos antigos,
mas agora sei caminhar nelas
sem procurar teus passos.
sei encontrar sentido
nos varais de roupa,
nos cachorros que dormem ao sol,
no assovio da tarde
que não chama ninguém.

o abraço inédito
deixou de ser espera
e virou abrigo
dentro de mim mesmo.

às vezes, ainda penso
na curva do teu sorriso,
na cor da tua ausência,
mas já não dói:
é saudade sem ferida,
lembrança sem grito.

descobri que a luz
também pode vir do avesso —
nasce quando a gente para de procurar
e começa a ser.

e foi ali,
na vila onde tudo começou,
que renasci
sem você,
mas não sem amor.

09 março 2025

DISTÂNCIA NÃO APAGA

 

 Distância não apaga

Dizem por aí
que a distância apaga sentimento,
que o tempo arrasta tudo
pro fundo do mar da memória.

mas olha —
essa é uma das maiores mentiras da história.

porque a distância não apaga.
ela limpa.
ela decanta.
ela tira o barulho em volta
e deixa só o que é mesmo sentimento de verdade.

e aí, quando tudo silencia,
eu percebo:
o que já parecia grande
é maior que um gigante.

é presença que não precisa de presença.
é nome que ecoa mesmo quando ninguém chama.
é carinho que não precisa de motivo novo.
é amor que não entende de geografia.

o tempo passa,
a cidade muda,
a gente finge que esqueceu —
mas o coração tem jeito próprio
de guardar o que foi puro.

e por mais que o mundo repita
que a distância esfriou,
a verdade é que ela só me mostrou
que o teu lugar em mim
não era provisório.

era raiz.




08 março 2025

LABIRINTO

 


LABIRINTO

labirinto

 

sinto passagens em mim

que saem em mim

que entram em mim

sempre no mesmo eu

na mesmice tão esmigalhada

por todas essas pressas

de muros

de sebes

de alamedas

sensação estranha

labiríntica.

 

caminho por essa sensação

como se fosse estrada.

 

caminhar

com verbo no horizonte

mais-que-perfeito

procurando o imperfeito

daqueles dias cinzentos.

 

tenho tantos temas

tinha tantos

tantos temores

no amanhã

e no ontem

quando nem existiam palavras

que adivinhassem você.

 

no hoje

porém

palavras

sugerindo outros

temas

transes

sua existência

tão ali.

tão aqui.

 

palavras  (lhe) refletem

:

amor

namoro

namorados

:

tantos

cantos

cantados.

 

encantos

momentos

ainda

(linda)

sonhando

acordado

namorados

namorando

namorada.

 

palavras

essas mesmas que explodem

denunciando tudo o que já foi escrito

dito

sugerido

amigos

amantes

ciúmes

em amargo de chocolate

de  estreitamento

de zap

de morenez.

de loucuras morenas

de frestas de portas de quartos.

 

e cheiros

e arrepios

e sabores

e medos.

em línguas sôfregas

que se espreitam

e se buscam

em sonhos

de pernas

que se descruzam

e se mostram

e se misturam

e se confundem.

 

até

se sentirem saciadas.

 

em outros temas

e datas

e manhãs tão variadas

e noites tão esperadas.

 

até

nem perceber.

 

confusões

de mentes

de pensamentos

de vontades

de despedidas

(que não se concretizam)
:

tão amiúde

tão inteiramente ignoradas.

 

até

saber que se descansa.

 

pro outro

(dia)

nascer feliz

de novo

e de novo

e de dizer que

agora

você está aqui.

 

daquele jeito

que eu sempre

quis.

 

 

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