12 maio 2019

INFLAÇÃO - MONSTRO VORAZ

Inflação - Monstro Voraz

O pão na prateleira

Olha pra mim

Com um preço que era de ontem

Mas hoje

É o dobro

Ou mais.

O carrinho do mercado

Encolhe.

As marcas preferidas

Viraram luxo.

A gente faz conta

No corredor

Com a calculadora do celular

E a esperança minguando.

O salário?

Ah, o salário...

Um papel que derrete

Nas mãos.

Compra menos,

Vale menos,

A cada dia que passa.

O futuro fica turvo.

Os planos,

Aqueles pequenos sonhos

De uma viagem,

De uma reforma,

De um conforto a mais,

Adormecem.

Ou fogem.

A gente aperta o cinto.

De novo.

E de novo.

Até sentir o osso.

O dinheiro que não dá

É a conversa da esquina,

Do almoço,

Do fim do dia.

Inflação alta.

Não é só um número

Na notícia.

É a vida que encolhe

No prato,

No bolso,

Na alma da gente.


MONSTRO VORAZ

(Soneto sem fim)

O preço sobe em rampa sem ter fim,

E o troco some, vira pó no ar,

O que era certo, hoje é incerto assim,

O quilo do queijo, triste de pagar.


A feira murcha antes de chegar em casa,

O sonho de ter algo vai morrendo,

A cada novo dia, a vida escassa,

O bolso chora, a gente vai sofrendo.


A conta chega cruel, sem ter piedade,

O plano de poupar, vira miragem,

E o futuro incerto, sem claridade,


A vida aperta em cada nova passagem.

Assim a inflação, monstro voraz,

Consome a esperança, rouba a paz.

09 maio 2019

CENSORED

 Censored

porque meus lábios prenunciaram
tanta batalha de ser contrário ao cérebro,
que insistia em afirmar:
não,
que o momento não se fazia preparado.
quedaram-se, então,
lábios e pensamentos
apressados em ânsias
de tanto se entregar
à procura dos arrepios,
dos movimentos desconexos,
dos prazeres da pele
— e do corpo mais profundo.
refeitos do susto causado
pelo encontro com o instante
de encantamento
e de louvor ao prazer,
quem passou a dar ordens
ao cérebro, antes tímido,
foram, a um só tempo,
lábios e mãos
que, despudorados,
não se permitiam censuras.

01 maio 2019

FIO PARTIDO

 

Fio Partido

Eu me lembro dela, um pouco mais jovem, um sorriso que desarmava. Nossos olhares se encontraram e, de repente, o mundo fez sentido. Éramos jovens, eu sei, com a vida se abrindo em possibilidades infinitas. Trocávamos juras, falávamos de tudo, das estrelas ao mais simples dos medos. A gente parecia feito um para o outro, um encaixe perfeito, sabe? Não havia o que não pudéssemos compartilhar. Os dias passavam, leves e cheios de um amor que parecia inquebrável.

 

Mas então, algo mudou. Não sei dizer como, nem quando. O que antes era fluído, começou a endurecer. Aquela sintonia, que parecia eterna, foi se perdendo, como a areia que escorre entre os dedos. Sem uma explicação, sem um adeus formal, nossos caminhos se desviaram. Ela para um lado, eu para outro. A vida nos empurrou para braços que não eram os nossos, e eu me casei. Ela também.

 

Morávamos na mesma cidade, mas quase nunca nos víamos. A vida seguia, numa calmaria que parecia inabalável, sem grandes sobressaltos. Até que as redes sociais nos conectaram novamente. Conversas esparsas, sobre amenidades, sempre evitando o passado. Parecia um acordo tácito, um silêncio respeitoso sobre o que um dia fomos.

 

Mas essa semana, algo se rompeu. Uma conversa, um mergulho no que ficou para trás. Falamos dos nossos caminhos que se cruzaram e se separaram, e a conclusão nos atingiu como um raio: fizemos uma grande besteira. Éramos jovens, sim, inexperientes talvez, mas isso não apaga a dor de ter deixado ir quem a gente amava.

 

Agora, olhamos para trás e vemos o erro, a idiotice de ter nos separado. Não há como voltar, o tempo não volta. Nós professamos a fé em Cristo, e o adultério não é uma opção. Então, o que nos resta é a tristeza, a infelicidade, e a constatação amarga de que, isoladamente, não fomos felizes. Apenas a dor do que poderia ter sido, a melancolia de um amor perdido por escolhas que hoje parecem tão equivocadas.

INSÔNIAS 

 

INSÔNIAS

Escancarou-se a boca da noite,
a engolir-me em seus
deprimentes silêncios,
estilhaçando cristais.

Seus tentáculos sustentados
em minha garganta,
tirando-me a calma
e a alma.

Lá, não-sei-onde,
o badalar de não-sei-quantas
horas a avisar-me
que se avizinhava a manhã,
doentia,
grávida de sol.

Não é o tempo que não passa,
são os cães que não ladram,
as corujas que não piam,
o aquário que não borbulha,
(e os scotchs que não são mais
os mesmos,
definitivamente não são).

A cama se faz imensa,

mas o abandono me reclama,
enquanto o buscar solitário
da saciedade
ainda se refestela em mim,
em gotas que,
cristalinas,
despencam do chuveiro
reparador.


02 janeiro 2019

PERDAS E DANOS


PERDAS E DANOS


Ali há o sofá.
a sala é de espera
e o médico não chega.

sentados.

e você me olha

nos olhos

e meus olhos não querem perder
o seu olhar.

você me pergunta
qualquer coisa.
ou não?
e eu não identifico a pergunta
e peço que repita.
então desvio-me das suas retinas
e espero uma boa conversa,
um papo amigo.

mas:

“perdeu alguém parecida comigo?”.
.
.
.
Vicente Siqueira
.
.
.
"Só os poetas podem condensar a experiência humana, e isso não passa pelo intelectual.
(Fayga Ostrower)

07 dezembro 2018

RECONSTRUÇÃO TRANSPARENTE

 

Reconstrução Transparente

 

Fui reconstruído com vidro e vento.

Sem tijolo, sem argamassa.

Apenas a transparência frágil

do que vê e do que passa.

 

O vidro me deu a memória das rachaduras,

o brilho dos cortes,

a luz que atravessa

e não esconde.

E o vento, ah, o vento me ensinou

a ser flexível, a curvar sem quebrar,

a carregar sussurros e ir embora.

 

Não sou de concreto,

nem de madeira antiga.

Minha estrutura é um sopro,

uma silhueta contra o céu.

Permito que o mundo me veja por dentro,

e que o ar me leve um pouco.

 

E nessa nova forma, leve e etérea,

aprendi que a solidez não está

no que se acumula,

mas no que se permite ser

moldado e levado,

um fragmento de luz,

um suspiro em movimento.

22 setembro 2018

AGORA EU SEI...

 Agora eu sei que a vida é curta demais

Agora eu sei, a vida é breve,
passa depressa, voa tão leve.
Entre um suspiro e outro olhar,
há tanto sonho pra se alcançar.

Agora eu vejo, sem mais demora,
que cada instante é feito de aurora,
e cada riso, cada canção,
é chama acesa no coração.

Não vale a pena guardar tristeza,
nem adiar a simples beleza
de um abraço dado sem porquê,
de um “eu te amo” sem esconder.

Agora eu sei que o tempo é vento,
e que viver é puro momento.
Então eu danço, eu canto e vou,
pois só o agora é o que ficou.

01 julho 2018

CAIXA MÁGICA




Caixa mágica

a vontade é louca
várias pequenas e
poucas grandes vontades
correr descalço
pular amarelinha
subir na goiabeira
que agora não tem goiabas
o pneu ainda está pendurado
balanço perfeito.

no álbum impera o sépia.
alguns descascados
até mancha que parece de vinho
a caixa ainda está amarrada
com a fita carmesim.

quem deu o presente?
quem deu o futuro?
quem destruiu o passado?

vontades de voltar.
posso?

29 junho 2018

UM PINGO É UMA GOTA?

 


Um Pingo é uma Gota?


gostoso sair na chuva

gosto de sair na chuva
de encontrar pingos
amigos
cinemas
depois eu volto de táxi.

quero me contar
sem me conter
nas emoções
sentir o ar na vidraça
o vidro suado do vapor
a janela aberta
o frio penetrando.

ao longe o latido
sons que me chegam
sem compromisso de ficar.

juntos assistimos cores
variadas flores
sentimos
dores
as particulares e as outras.

mas nem todas.

qual o filme?
falava de destinos
corações
apaixonados
havia esperanças
suspiros
alguns apertos
momentos desconexos.

tudo na pressa
mas eu gosto.

gostava.

.
.
.

Vicente

SEXTO SENTIDO

 

SEXTO SENTIDO


Existe um sexto sentido que precisa ser vivido
dito
sem palavras
sem trapaças
sem textos
sem pretextos.

então:

que esse sentido exploda
e atinja o óbvio do alvo
e se afaste das camuflagens
e perceba as descobertas
e se sinta inquieto
e se encarregue do transformar.

que seja doce ainda que efêmero
e se confunda
com o coito das noites
penetrando as madrugadas
parindo dias
ressuscitando cores
ressurgindo em raios
de todas as luzes.

que todas as palavras
explodam
ressoem
maquiem as notícias
e se lancem
em busca do inédito
e deem crédito
a esse sexto sentido
que se chama
amor.
.
.
Vicente
.
.

25 junho 2018

LABIRINTO

labirinto

sinto passagens em mim
que saem em mim
que entram em mim
sempre no mesmo eu
na mesmice tão esmigalhada
por todas essas pressas
de muros
de sebes
de alamedas
sensação estranha
labiríntica.

caminho por essa sensação
como se fosse estrada.

caminhar
com verbo no horizonte
mais-que-perfeito
procurando o imperfeito
daqueles dias cinzentos.

tenho tantos temas
tinha tantos
tantos temores
no amanhã
e no ontem
quando nem existiam palavras
que adivinhassem você.

no hoje
porém
palavras
sugerindo outros
temas
transes
sua existência
tão ali.
tão aqui.

palavras  (lhe) refletem
:
amor
namoro
namorados
:
tantos
cantos
cantados.

encantos
momentos
ainda
(linda)
sonhando
acordado
namorados
namorando
namorada.

palavras
essas mesmas que explodem
denunciando tudo o que já foi escrito
dito
sugerido
amigos
amantes
ciúmes
em amargo de chocolate
de  estreitamento
de zap
de morenez.
de loucuras morenas
de frestas de portas de quartos.

e cheiros
e arrepios
e sabores
e medos.
em línguas sôfregas
que se espreitam
e se buscam
em sonhos
de pernas
que se descruzam
e se mostram
e se misturam
e se confundem.

até
se sentirem saciadas.

em outros temas
e datas
e manhãs tão variadas
e noites tão esperadas.

até
nem perceber.

confusões
de mentes
de pensamentos
de vontades
de despedidas
(que não se concretizam)
:
tão amiúde
tão inteiramente ignoradas.

até
saber que se descansa.

pro outro
(dia)
nascer feliz
de novo
e de novo
e de dizer que
agora
você está aqui.

daquele jeito
que eu sempre
quis.


.

27 maio 2018

INÍCIO DOS CACOS

 

Início dos Cacos

 

Estou bem no início dos meus cacos.

Não a poeira, nem o fim da queda,

mas o momento exato do estilhaço.

Onde a forma antiga se desfaz,

e a nova ainda não tem nome.

 

Aqui, o corte é fresco,

a dor, pontiaguda,

e o mapa do estrago

se desenha em cada lasca.

Não há como esconder,

ou fingir que não quebrou.

 

É o instante cru,

a verdade desnudada

de que algo se partiu.

Mas também é a promessa,

quase imperceptível,

de que a reconstrução

começa bem aqui,

na primeira farpa,

no primeiro brilho

de um pedaço

que ainda pode ser.

 

 

23 maio 2018

PASSOS NA CALÇADA

 

Passos na Calçada

Cada passo é um verso
escrito no asfalto quente
histórias invisíveis
que se perdem no movimento

há passos apressados
que fogem do tempo
e passos lentos
que saboreiam a cidade

calçadas guardam segredos
de encontros e partidas
de risos esquecidos
e lágrimas sem nome

cada pegada no chão
é um traço de vida
um convite silencioso
para ouvir o que ficou

e mesmo na multidão,
sou único nesse caminhar
feito passos na calçada
que querem se encontrar

16 maio 2018

CAMISA DE FORÇA DA OBRIGAÇÃO

 

Camisa de Força da Obrigação

 

Não te veste, mas te prende.

Um tecido invisível, fio a fio,

Tecido com os "deverias", os "tens que",

Amarrando o corpo, roubando o ar, o pio.

 

Sufoca o grito que quer ser canção,

Apaga a cor que o desejo pintou.

Cada nó, um "não" à intenção,

À liberdade que um dia sonhou.

 

É o peso do amanhã, o temor do "se",

A sombra que se estende sobre o agora.

E a alma, apertada, tenta mover-se,

Prisioneira em sua própria demora.

 

Mas sinto a fibra ceder, frágil,

A cada "não" que o coração permite.

Rasgando a trama, um gesto ágil,

Buscando o espaço que a vida me remite.