30 maio 2011

CREPÚSCULO DO EU DESPEDAÇADO

 

Crepúsculo do eu despedaçado

No crepúsculo do eu despedaçado,
a luz se parte em tons indecisos,
meus cacos brilham como espelhos gastos
de um tempo que já não me reconhece.

Há algo de sagrado na ruína —
um cansaço que se curva em silêncio,
um adeus que não sabe do fim,
mas ainda insiste em acenar.

Cada fragmento do que fui
se deita sobre a sombra longa
de um dia que não quis terminar,
como se a noite pedisse perdão
por chegar tão tarde.

No crepúsculo do eu despedaçado,
descubro que sangrar também é forma
de ver beleza onde ninguém vê —
e que a dor, quando se põe,
deixa um fio dourado
entre o que sobrou
e o que virá.

27 maio 2011

UNIVERSO SILENCIOSO

 Universo Silencioso

Dentro de mim,
um universo de palavras sufocadas
gira em silêncio.

Não explode,
não reclama,
mas pulsa —
como estrela que ninguém vê.

Há frases inteiras
presas na garganta,
com o peso de constelações.

Segredos antigos,
nomes que nunca chamei,
despedidas que não couberam no tempo.

Tudo orbitando
no espaço estreito
entre o que sinto
e o que deixo escapar.

Às vezes,
me sento no centro do peito
e escuto.

As palavras querem nascer,
mas temem o ar,
a forma,
o depois.

Então ficam.
E esse ficar
vai me tornando
galáxia calada,
coração com céu demais

20 maio 2011

SE TIVER, EU PREFIRO

 

Se Tiver, Eu Prefiro

 

Músicas que dançam no ar,
A leveza de um dia sem planos,
A brisa suave acariciando a pele.

Se tiver, eu prefiro.


O HÓSPEDE DOS CANTOS ESCUROS

 

O Hóspede dos Cantos Escuros

Mora em mim um arquiteto clandestino. Não usa palavras, não pede licença, apenas respira o ar rarefeito das minhas hesitações.

Enquanto a razão desenha mapas lineares, ele prefere o labirinto. Ignora os avisos de perigo, as placas que eu mesmo fixei com sangue e memória, e me conduz, pela mão, de volta ao incêndio.

Há um magnetismo inverso na dor. Uma gravidade que a lógica desconhece, ligação invisível, cordão de cinzas que me amarra ao que já me reduziu a pó.

Eu assisto à minha própria queda, estrangeiro de mim mesmo, sabendo que o passo é em falso, mas incapaz de desobedecer ao sopro calado que comanda os meus pés.


Vicente Siqueira

01 maio 2011

A RESSONÂNCIA DO AUSENTE

 

A Ressonância do Ausente

Quando a noite se debruça

sobre o peso das horas tardias

e o silêncio deixa de ser ausência

para virar confidente do peito.

 

Lá fora, o mundo é uma moldura estática.

O jardim parece uma fotografia

onde nem a mais leve pétala

ousa desmentir o absoluto imobilismo

dos canteiros.

 

É nesse vácuo de vento

que a alma inventa o movimento.

Uma brisa que não desarruma o cabelo,

mas desloca o tempo,

trazendo o timbre de uma doçura

que o passado insistiu em preservar.

 

Não é o ar que sopra;

é o eco de um verbo antigo

que ainda vibra no corredor da memória:

aquelas sílabas de querer

que, de tanto serem ditas,

acabaram por morar no silêncio.

02 fevereiro 2011

RECONHECIMENTO

 Reconhecimento

 

Reconheci algo familiar no espelho.

Não o traço exato de ontem,

nem a promessa de amanhã.

Mas um brilho no fundo do olhar,

uma ruga que contava uma história

que só eu conhecia.

 

Não era a perfeição que se busca,

nem o estranho que a vida nos impõe.

Era a essência que resiste,

o fragmento de um eu antigo

que teima em permanecer.

 

Naquele reflexo,

o tempo e as transformações se fundiam.

E ali, entre o novo e o que sempre foi,

encontrei a paz de saber

que, apesar de tudo,

ainda sou eu,

com as marcas e os mistérios,

mas com a mesma alma

que sempre me habitou.

31 janeiro 2011

INCRUSTAÇÕES

 

Incrustações

Tuas ausências
ficaram incrustadas em mim —
não como cicatriz,
mas como mineral raro,
silencioso,
duro.

não sangram,
mas pesam.
não gritam,
mas moldam o tom
com que digo o teu nome
(ou não digo).

às vezes me movo
e ouço o som
delas dentro de mim,
como se a memória
fosse feita de cacos
reverberando em ossos.

teu não-gesto,
tua não-presença,
se fizeram matéria.
e hoje carrego
teu vazio
como quem carrega
um medalhão
sem retrato.

26 dezembro 2010

ECO FIEL

 

O Eco Fiel

 

Eu sou um reflexo de mim,

parecido com o original.

Não a cópia exata, sem alma,

mas a sombra que dança,

o espelho que me devolve

com uma nuance sutil.

 

Há algo de familiar no meu traço,

na curva do meu olhar,

como se eu fosse a memória viva

de quem um dia eu fui.

Mas também há um brilho novo,

uma leveza que a idade traz,

ou a dor que a gente aprende

a carregar sem peso.

 

Sou a versão reeditada,

o mesmo livro com outra capa.

Reconheço o autor,

e a história segue a mesma.

Mas a cada página virada,

a tinta parece mais minha,

e a voz, mesmo que eco,

ganha uma melodia

que só o tempo ensina.

08 agosto 2010

MONTANHA RUSSA EMOCIONAL

Montanha Russa Emocional


O trilho não avisa
quando desaba,
nem o coração avisa
quando é tarde demais.

desci sem querer,
sem cinto,
sem mãos pro alto —
só a garganta presa
e o estômago no meio da alma.

não aguentei
me ver
em pleno luto,
entre o café da manhã
e a notificação ignorada.

me vi no espelho:
desfocado,
com olhos de gente que já chorou
e se esqueceu como para.

o mundo lá fora gritava
coisas como “reage”
ou “vai passar” —
mas quem grita de fora
não ouve o que implode por dentro.

em tempos assim
nem dói mais
como dor.
é só um silêncio contínuo
vestido de corpo.

mas ainda me reconheço
no fio tênue entre o abismo
e um poema.

e às vezes
isso basta.


29 julho 2010

EXISTE VIDA APÓS O PONTO FINAL?

 

Existe Vida Após o Ponto Final?

 

Não a vida que se respira,

nem a que se toca.

Mas uma persistência.

 

A palavra dita,

mesmo encerrada,

vibra no ar.

 

É a memória do que foi lido,

o rastro deixado na mente,

o eco de uma ideia.

 

O ponto final não é um túmulo,

mas um portal.

Ele lança a frase

para a eternidade do pensamento.

 

Ali, no silêncio que se segue,

a vida da frase se expande.

Ela se torna parte do leitor,

se mistura às suas próprias verdades,

se transforma em semente.

 

Então sim,

existe uma vida.

Não na tinta, nem no papel,

mas na ressonância.

 

Uma vida que não se apaga,

que se propaga,

infinitamente,

além do que o olho vê

e o ouvido escuta.

 

Meu espelho agora começou a me observar quando eu o encaro.

Seus olhos de vidro, antes inertes,

parecem absorver minha imagem,

refratar minha alma.

Não há reflexo, mas um registro.

Uma tela viva

onde o que foi,

e o que se torna,

permanece.

E a vida, então,

não é apenas o que se move,

mas o que se reflete e se guarda,

em cada instante,

após o ponto final.

29 maio 2010

BOA NOITE

 

Boa Noite

a noite não apaga,
ela acalma.
é quando o escuro deixa de ser medo
e vira abrigo.

silêncios ganham voz,
pensamentos repousam em travesseiros invisíveis,
e o coração, se escuta com atenção,
fala baixo — mas fala verdade.

não te apresses em entender tudo hoje.
o céu também leva a noite inteira
pra mostrar suas estrelas.

boa noite,
mesmo que a mente ainda insista em ficar acesa.
boa noite,
porque descansar também é um jeito de seguir em frente.


BOA TARDE

 

Boa Tarde

a tarde chega sem pedir licença,
meio caminho entre o cansaço e o recomeço.
é quando o tempo convida à pausa,
mas o mundo ainda exige presença.

entre uma respiração e outra,
há espaço para um novo olhar,
para entender que nem tudo precisa ser pressa,
e que a vida também mora na demora.

confia:
até o sol se inclina devagar,
e a luz que sobra no fim da sala
ainda pode aquecer.

boa tarde,
mesmo que o dia esteja incerto.
boa tarde,
porque ainda há tempo de florescer.

BOM DIA

 

Bom Dia

nos dias mais duros,
quando o mundo pesa nos ombros
como se o céu tivesse esquecido de ser azul,
é aí que a alma escuta.

não é o silêncio que ensina —
é a resistência em meio ao barulho,
a fé que nasce entre os cacos,
o passo que insiste, mesmo sem chão.

acredita:
o tempo não esquece de curar,
e o sol, mesmo tímido,
sempre volta pela fresta.

bom dia,
mesmo que o coração ainda não tenha acordado.
bom dia,
porque seguir é um ato de coragem.

PONTO PRAS MENINAS

Ponto Pras Meninas


não quis falar
nem sequer pensei no que havia
pra te dizer
porque ainda não sabia como
nem o que dizer.
tenho isso comigo
é meu jeito
é meu modo de ser
de intercalar tagarelices
com longos silêncios.


ouvi de mim os segredos que ousara sonhar
na mais crescente confusão de sentidos
como em qualquer outro momento
mas não compartilhei as idéias
só as sedes e fomes dos amores
das irisadas ilusões mais ousadas
(que não ousara revelar)
por isso me calei
por isso me retirei.


e minhas idéias quedaram-se como estradas
de uma via só
de ida sem vinda
como vontades sorrateiras
que preferi ocultar
como monólogo recitado
no mais completo ermo
para não se espalhar.

agora aplaudo minha decisão
de voltar
porque te conheci
tão cálida
tão sentida a beijos e doces
igualzinha ao que eras
mas
muito
muito melhor.
.
.
.
Vicente
.
.
"Às vezes as pessoas tomam algumas atitudes e não tem noção do que isso pode gerar nas outras, as consequências podem ser desastrosas, geram dor e tristeza ..."
.

Deia
.
.

22 maio 2010

Se Tiver, Eu Prefiro

 

Se Tiver, Eu Prefiro

 

Um abraço apertado, sem pressa,
O sol se espreguiçando entre as árvores,
A risada de uma criança brincando.

FRAGMENTOS DE UM AMANHÃ

 

Fragmentos de um Amanhã

No horizonte, a luz se despedaça,
pinceladas de esperança no céu,
cada raio é uma promessa,
um convite para recomeçar.

Os pássaros cantam sinfonias de liberdade,
desafiando a gravidade dos medos,
enquanto o vento leva consigo
os ecos do passado que já não servem.

Caminho por ruas ainda adormecidas,
onde os sonhos se misturam à neblina,
cada passo é um ato de coragem,
uma declaração de que vale a pena existir.

As flores brotam entre as fendas do concreto,
insistentes em colorir a dureza da vida,
e eu me pergunto:
o que será de nós amanhã?

Fragmentos de um futuro incerto,
mas repletos de possibilidades,
onde cada escolha é um tijolo na construção
de um mundo que ainda está por vir.

E assim sigo, entre esperanças e dúvidas,
abraçando o agora com gratidão,
pois mesmo nos fragmentos mais pequenos*,
há a beleza do que está por vir.

*((Eu sei que "mais pequenos" deveria ser substituído por "menores") rsrs)

UMA ORQUÍDEA

 UMA ORQUÍDEA

Nos braços da árvore, um abraço sutil,
Orquídeas dançam, em amarelo febril.
Oncidium radiante, estrela a brilhar,
Na floresta verde, vem nos encantar.

Com pétalas de sol, em festa a vibrar,
Sussurros de vida no ar a flutuar.
Texturas que falam, a casca a contar,
Histórias de tempo, de amor a brotar.

Luz natural que acaricia o ser,
Em cada florzinha, um mundo a renascer.
Natureza em harmonia, esplendor sem fim,
Um poema vivo que pulsa em mim.

14 março 2010

A NOVA CALIGRAFIA

 

A Nova Caligrafia

 

Eu vinha escrevendo um livro, página por página,

Com um roteiro já meio desenhado,

Uma trama previsível, cores desbotadas.

O destino, pensei, era uma linha reta,

Sem curvas, sem reviravoltas.

 

Até que você chegou.

E com seu sorriso, um furacão delicado,

Rasgou as páginas antigas,

Embaralhou as letras, jogou tinta fresca no papel.

Não foi com força bruta, mas com a leveza

De quem sabe exatamente onde tocar.

 

Você redesenhou o meu mapa.

O norte que eu conhecia, mudou de lugar.

As paisagens que eu esperava, sumiram,

Dando espaço a montanhas e rios que eu nunca sonhei.

Cada traço seu, uma nova direção,

Um caminho que eu não ousei imaginar.

 

Eu era uma estrada antiga, já batida,

E você me transformou em um labirinto de descobertas,

Com atalhos inesperados e vistas de tirar o fôlego.

Não foi uma correção, foi uma revolução.

Você não me indicou outro rumo,

Você se tornou o novo rumo.

 

Agora, meu destino é uma obra-prima em progresso,

Com cores vibrantes e um enredo que me surpreende a cada dia.

Você não só mudou o final da história,

Você mudou a caligrafia da minha alma,

Fazendo cada palavra, cada momento,

Ser escrito com uma beleza que só você pôde me mostrar.

Você redesenhou o meu destino,

E eu sou grato por cada nova linha.

NÃO ME FAZES FALTA?



percebo
decepcionado
passarem em mim
esses cinco mil e tantos anos
de falta de sono
ou melhor
desse excesso de sono
que não é sono que se dorme
que é só sono que se sente
desse sentir acordado.

exaustos
os olhos não se pregam
mas rastreiam as areias
nas marejadas pálpebras
e ainda me dizes
que não me fazes
falta?
.
.
.
Vicente
.
.
.

10 março 2010

RECOMEÇA A SEMANA ( Tributo a Marilu )




(Tributo a Marilu)

era tudo muito jovem e ainda éramos todos muito jovens.
eu me admirava com a serenidade que emanava da beleza dela
era começo de abril
se bem me lembro
quando se fizera o conhecimento das verdades
que a vida me mostraria.

não sei se havia flores-de-maio.
naqueles tempos
eu ainda aguardava a chegada dos doze anos.
uma dúzia de aniversários
e meia dúzia de sonhos.
e tinha na professorinha recém-chegada aos dezenove
o meu melhor presente.

não se cogitava em futuro.
as coisas aconteciam no agora
a vida urgia no presente
naquele presente

a vida na roça tem a vantagem das escondidas
por entre os emaranhados
do canavial
do milho verde
do laranjal.

o açude não era propriamente perto
e em seu caminho sempre se encontra uma curva a mais
uma moita a mais
uma vontade a mais...

eu me embriagava com a sua vontade
de me mostrar os caminhos.
seis ou sete anos mais velha
mas ainda assim jovem.
a terra vibrava por sob nossos corpos
e não havia meios de nos fazer parar

não se percebe
ainda
a presença da virilidade
e a infância ainda se arrisca nos estilingues
e bolinhas de gude
mas o pensamento é de homem feito
de quem já tem cabelo no peito
calor no beijo
e amor com jeito.

começa a semana e sente-se a vontade
de verter-lhe nos lábios o olhar
um olhar na boca entreaberta perfeita
nas pernas lisas e claras de menina rica
e a perfeita sincronia das virilhas e do umbigo.

sincronia
também
entre dentes e língua
e bocas que se procuram
em toques esbaforidos
braços
com medo das amplidões
e dos descampados

começo dos vôos
em territórios inexplorados
beijos e pescoços
e seios
e nucas.

cabelos de ouro
escorrendo pela aura
pelos ombros
pela grama.

e a vontade
de adivinhar-lhe a alfazema
rescendida debaixo do diáfano vestido de algodãozinho?

sem maiores detalhes
a não ser seu próprio corpo
tão detalhado.
aí as cores enfeitavam os céus
o açude era mais refrescante
e os frutos sazonados
mais abundantes.

e quando a semana
já se sentia tão catastroficamente confusa
a ponto de perceber-se
que todo sábado ela precisava voltar para
a casa dos pais
na cidade?

todos os eixos
saíam de seus encaixes
e era como se de repente
se morresse por dois ou três dias.
morria-se.
milhares de mortes.
sem que ninguém à volta entendesse.
até que outra semana começasse.

e as estações se sucediam.
novos ventos
e posições
pelos medos
e pelas imposições da situação que chega
com a chegança da puberdade.

ainda segredo
como sempre.
nada de mistério
mas segredo
guardado
a ferro e cadeado.

aos dezesseis a mudança
a ida
a partida
a alma ferida
até o ponto do choro
e lágrimas mais sentidas
por dias
e dias
a cabeça completamente perdida.

centenas de vezes
imortalizada na carne
e no pensamento
no coração
e no fogo das paixões mais desejadas.

alguma incursão esporádica
com a chegada do quartel e da farda
mas nada que pudesse desmanchar
seu matrimônio
que viria perfeito
feito de inteligência
repressões
e conveniência.

estou me despedindo de você
“Maria”.
onde quer que você chegue
Deus há de lhe fazer companhia.

chegue primeiro
novamente
busque mais além
(nas estrelas)
o lânguido bafejar da satisfação
por ter-nos feito
interpretados e entendidos
e creia:
onde quer que você chegar
a semana haverá de recomeçar.
.
.
.
Vicente
.
.
.