31 dezembro 2025

GRAVIDADE PESSOAL

 Gravidade Pessoal

 

Eu sou o fardo.

Não o que carrego,

mas o que pesa

em cada passo,

em cada pensamento.

 

Neste mundo,

onde a leveza é buscada,

sou a âncora,

o peso intrínseco

da minha própria existência.

 

Não é culpa,

nem castigo.

É a constituição de ser,

a matéria densa que me compõe,

o arrasto invisível

em meu próprio caminho.

 

Sou a paisagem e o caminhante,

o ar e a resistência que ele impõe.

O eco da minha própria presença,

a gravidade que me mantém

aqui,

neste meu mundo.


Vicente Siqueira

30 dezembro 2025

JÁ VI ESSE FILME

Já Vi Esse Filme



Ele se impacientara com o toque do telefone, pois não julgara que fosse tão tarde. O vibra-call do celular, logo acompanhado por aquela luz amarelada indicando chamada, insistia em trazê-lo para a realidade do aqui e do agora. Uma realidade de reações descabidas e emoções póstumas.
Não fosse tão tarde e ele até a chamaria para fazer-lhe companhia. Talvez não. Talvez mudasse de imediato os planos, como já fizera tantas vezes.
O cinema não estava lotado e isso mostrava o quanto o filme não era bom. Era até meio sonolento. Nada de “E o Vento Levou”, mas, também, nada tinha de “O Senhor dos Anéis”. Tratava-se de um desses filminhos feitos às pressas e sem maiores intenções, mas ainda assim ele queria assisti-lo até o final.
De dentro da sua solidão ele espiava seu passado remoto, e se perguntou: até onde houve uso de mão e contra-mão?
Encarava de frente também o seu passado mais recente. Pediu desculpas pela tanta falta de notícias, por ele ter reclamado ao telefone. Seus monstros interiores, adornados de pedrarias de mau gosto e lágrimas, sorriram às pressas para ele com aquele sorriso ácido e decrépito.
Não havia sedução na chamada. Nem na reclamação. A negativa também não escondia outras intenções. Tratava-se apenas de um diálogo. Diálogo pobre de palavras, de efeitos, de resultados.
Algum choro preso, algumas palavras que não podem ser e não foram ditas, e em seguida o silêncio avassalador de linhas interrompidas (não por ter caído, mas por ter sido desligado o aparelho).
Vontades das delicadezas que se encerram como um filme qualquer (afinal, até os bons filmes terminam)

Vicente....
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"Alegria compartilhada é dupla alegria, dor compartilhada é meia dor.
(Tiedge)
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29 dezembro 2025

O LIMIAR DA PRATA

 

O Limiar da Prata

O silêncio é uma arquitetura de madeira e sombra onde o corpo se ancora, mas o pensamento deságua. As costas largas, anteparo entre o ontem e o agora, carregam o peso de quem sabe esperar enquanto a cidade, lá fora, é um organismo que respira luzes elétricas.
O vidro, essa pele fria e embaçada, separa o calor do linho amassado — memória de um toque ou de um cansaço — do hálito vasto da noite. No copo, o uísque é um âmbar estático, uma pequena fogueira líquida capturando o último átomo de ordem.
Então, a lua rompe a geometria do teto. Não é luz, é um chamado cinzelado em prata que atravessa a vidraça e marca o chão, como se o universo estivesse, enfim, apresentando suas credenciais.
O recolhimento é uma casca que começa a trincar. A explosão não vem com estrondo, mas com a percepção de que a moldura da janela é pequena demais para conter o que pulsa. Há um convite mudo na poeira iluminada: a liberdade não é o destino, é o exato momento em que a mão toca o trinco.


Vicente Siqueira

28 dezembro 2025

O ARQUITETO DO AMANHÃ

 

O Arquiteto do Amanhã

 As cicatrizes são mapas de onde eu já estive.

 Erros cometidos, palavras perdidas no vento, 

e escolhas que o tempo já selou com cera quente.

Mas o "agora" é um martelo e o "amanhã" é o mármore. 

O que eu fui é apenas a base do pedestal, não a estátua final que o mundo verá.

O ontem é imutável.

Mas o amanhã é uma tela que eu mesmo preparo.

 Serei a soma do que aprendi, e a subtração do que decidi deixar para trás.





27 dezembro 2025

SILÊNCIO QUE CUTUCA


 SILÊNCIO QUE CUTUCA

 

E havia em mim o eco da ausência

que  se espreguiçava na tarde,

como um toque suave de nada,

um quase um sussurro.

Nada de palavras,

nem melodia,

só a leveza

de um tempo que ainda hoje

se recusa a ser preenchido.

 

E o silêncio me cutuca,

como uma sombra que,

amiga,

insiste em dançar

nos vãos do meu pensamento.

Isso não é vazio,

é um espaço para a respiração da alma,

onde as cores se aquietam

e o mundo se dissolve

em calmaria.

 

A verdade me foi revelada

nesse não-som

onde todas as verdades

se revelam.

O ruído das certezas não são impostas,

mas a melancolia doce de existir,

e a dança invisível do tempo,

em mim não para.


Vicente Siqueira

SE TIVER, EU PREFIRO

 

Se tiver, eu prefiro

 

Prefiro a música baixa no rádio enquanto lavo a louça,

e de repente, uma canção antiga

que me leva para outro tempo, um sorriso leve.

Se tiver, eu prefiro.



Vicente Siqueira


25 dezembro 2025

SEM VOLTA

 

SEM VOLTA

 

nenhum recado

nada de e-mail

ou carta

ou bilhete.

nada que preencha espaços

com letras

ou palavras

ou sinais de fumaça

ou de tambores.

ou repiques agudos

de tarol

ou caixa-de-guerra

nada mesmo

que faça lembrar

as tantas promessas

que surpreendiam

pelas ousadias.

 

que viesse ao menos

um mísero pombo-correio

com uma pequena mensagem

ainda que passageira

ainda que ilusória

ainda que transitória

uma única palavra

que externasse

a vontade de mostrar

a mim

que eu poderia ter esperança

porque todos aqueles momentos

passados

esquecidos

amarelecidos

poderiam

ser revividos.


Vicente Siqueira

24 dezembro 2025

O ALFABETO DO INVISÍVEL

 

O Alfabeto do Invisível

Existem palavras que moram no escuro,
entre o fôlego curto e o verso mudo.
Eu as sinto antes de lhes dar o nome:
são bicho faminto que nunca consome,
são fogo que o dedo tenta tatear,
mas fogem de mim se eu tento explicar.
Às vezes, sou mestre de um reino em silêncio,
onde o que não digo é o meu maior vício.
As letras tilintam, ciranda de vidro,
num baile secreto que habita o meu ouvido.
Sou homem de posses, mas nada me pertence,
se a palavra é onda e a alma não vence.
Escrevo o segredo da onda gigante,
sabendo que o sal é o destino constante.
Mas se o mar me engole e o verbo se perde,
meu peito, no escuro, ainda floresce verde.
Pois depois da espuma, do medo e do rol,
o que resta gravado... é o brilho do Sol.


O ESPELHO RETROVISOR DO VERBO

O Espelho Retrovisor do Verbo


Mergulho a caneta no escuro
não para descrever o que vejo, 
mas para descobrir o que sinto. 
Palavras se organizam na página. 
São ossos lançados ao chão 
por um xamã, 
desenhando geografias 
que meus pés ainda não percorreram 
conscientemente. 


Sou estrangeiro na minha própria frase. 

Mão avançando, 
febril, 
sob um comando que não nasce no córtex, 
nem na lógica, e sim num estrondo mudo
 que vibra no peito. 
A razão senta-se na última fila do teatro, 
e observa, 
atônita, 
o espetáculo das verdades 
que eu não sabia que
possuía. 


Então quando o ponto final repousa, 
pesado como uma âncora no papel, 
é que me volto para a leitura. 

E ali, 
no rastro da tinta ainda fresca, 
reconheço a tempestade que me atravessa. 

O poema não é o relato do que passou; 
é o mapa do agora, 
revelado ao mestre pelo próprio servo que, 
enfim, 
despertou. 


Vicente Siqueira

22 dezembro 2025

O GOSTO DO DESFEITO

 




O Gosto do Desfeito

 

O sabor do que se desfez.

Não é amargo, nem doce.

É a memória nas papilas,

um eco químico na língua da alma.

O resíduo do abraço que se soltou,

do riso que escorreu como areia fina.

 

Uma impressão, um resto,

no fundo da boca do tempo.

Não um gosto que se nomeia fácil,

mas a textura do vazio que sobrou.

Do que foi denso, cheio, presente,

e agora é apenas um rastro,

uma diluição no paladar do que não é mais.

 

É o café que esfriou,

o cheiro da chuva que passou.

A ausência tangível,

um paladar da perda

que não pede lágrimas,

apenas o reconhecimento

de que algo se foi.

E o gosto, ah, o gosto,

permanece.

Um sabor sutil e persistente,

do que se desfez em nós.

21 dezembro 2025

POR ONDE FORES

 



Por Onde Fores

Anda, ainda que a estrada
se esconda entre névoas e dor.
Não temas a sombra ou a dúvida:
contigo caminha o Senhor.

O mundo é vasto e incerto,
mas teu passo é firmado em luz.
Sê forte, sê corajoso —
quem te guia é quem te conduz.

Há mãos que não se veem,
mas sustentam teu caminhar.
Há voz que sussurra firme:
“Não pares, eu vou te guardar.”

Então vai, alma valente,
com esperança no olhar.
Pois por onde fores, sempre,
Deus contigo há de estar.



20 dezembro 2025

O ELO DA TRAVESSIA

 


O Elo da Travessia

 

Faça-se em mim o elo, a ponte viva
Que une o que foi ao que ainda virá.
Não a ruptura, mas a trama que se tece,
Onde o antigo e o novo se encontram e se abraçam.
 
Que em minhas mãos se preserve a sabedoria dos séculos,
O pólen das memórias, a força dos que me antecederam.
E que em meu olhar desponte a aurora do porvir,
A ânsia da descoberta, o voo para o inédito.
 
Sou o tempo presente, o ponto de encontro,
Onde a história se curva e o futuro se inicia.
Que em cada batida do meu peito,
O passado encontre eco e o amanhã, sua melodia.
 
Faça-se em mim a fusão, a alquimia do ser, A tradição que inova, a raiz que se projeta. Que o velho me dê substância e o novo, direção, Para que eu seja a travessia, o constante renascer.

17 dezembro 2025

O OUTRO: ESPELHO INSUPORTÁVEL

 O Outro: Espelho Insuportável

Ela estava ali, sentada à minha frente, na mesa oposta, ou talvez na mesma mesa, separada por um espaço que era um abismo. Uma mulher. Com a inevitabilidade de quem simplesmente existe. Não havia nada de extraordinário nela, nada que saltasse aos olhos para prender o olhar mais do que a passagem fugaz de um transeunte. Mas o que observa em mim, aquele que se assombra com a vida, fixou-se nela com uma intensidade quase dolorosa.

 

Não era a beleza, ou a feiura. Era a existência dela. O simples fato de que ali estava outro ser, uma consciência. E essa consciência, eu sabia, continha universos inteiros, labirintos tão complexos quanto os meus, talvez mais. Ela respirava o mesmo ar rarefeito, sentia a mesma gravidade, mas em seu rosto, nos movimentos sutis de seus olhos que desviavam o olhar, havia um segredo. Um segredo que não era para mim.

 

A epifania não veio como um raio, mas como um sussurro frio. Aquele outro era um espelho. Não um espelho que refletia a minha imagem, mas um que me mostrava a impossibilidade de eu ser ela, e a impossibilidade de ela ser eu. A minha solidão não era a ausência de alguém, mas a presença irrefutável do outro em sua totalidade inatingível.

 

Ela moveu a mão para a xícara, e em seu gesto banal, vi a vastidão da sua própria vida, as dores que não conheço, as alegrias que nunca foram minhas, os pensamentos que jamais me pertencerão. E nesse reconhecimento da sua irredutível alteridade, senti um assombro. Não era medo dela, mas um pavor da fronteira, da impossibilidade de atravessar e fundir-me nela.

 

O "eu" encontrava-se com o "outro" e, nesse encontro, não havia união, mas a reafirmação de um abismo insuperável. A mulher à minha frente era a prova viva de que minha consciência, por mais que se expandisse, jamais poderia conter a dela. E essa limitação, antes um murmúrio, tornou-se um grito silencioso. O outro era a minha própria fronteira. E isso era, ao mesmo tempo, um mistério terrível e a mais pura verdade.´

16 dezembro 2025

ABISMO INSACIÁVEL

 Abismo Insaciável

A mulher à minha frente, ou o homem, ou a criança – pouco importava o contorno. O que importava era a verdade nua de que ali, naquele ser que respirava e se movia, existia um continente de alma que eu jamais pisaria. E essa era a reafirmação de um abismo insuperável. Não era um desfiladeiro para ser transposto com pontes ou cordas; era a própria essência da diferença.

 

O que observa em mim, o que busca o cerne de todas as coisas, via ali a impossibilidade de a minha consciência se fundir na dela, de um eu se diluir em outro. Era um pavor que não vinha da ameaça, mas da constatação gelada da autonomia do outro. Por mais que eu tentasse, por mais que as palavras flutuassem entre nós como bolhas de sabão, jamais poderíamos ser um só. Nunca a minha dor seria exatamente a dela, nunca a minha alegria se encaixaria perfeitamente na sua.

 

Esse abismo não era um vazio a ser preenchido, mas uma plenitude de não-pertencimento. Ele existia não por falta de amor ou de compreensão, mas pela própria natureza da existência individual. A mulher movia os lábios, e sons saíam, sílabas que eu compreendia, mas por trás delas, um universo de significados, de intenções, de histórias vividas que eram dela e somente dela. E o que observava sentia o peso dessa verdade: a mais profunda solidão não é a ausência de companhia, mas a presença do outro como um limite intransponível.

 

E nesse abismo, tão vasto quanto o universo que eu carregava em mim, residia a beleza terrível da individualidade. A beleza de não poder ser invadido, de não poder invadir. De permanecer ilha, por mais que as ondas do desejo e da afeição batessem em suas margens. O abismo não era apenas o que nos separava; era, paradoxalmente, o que nos definia. E essa definição, tão dura e tão real, era a epifania final: o outro é o meu próprio limite, e eu sou o limite dele. E nesse limite, nessa borda intransponível, é que a vida acontece.

15 dezembro 2025

O SEGREDO DA MAÇÃ

 O Segredo da Maçã

Ela estava ali, sobre a mesa de madeira, ou talvez sobre um prato de cerâmica branca que se disfarçava de si mesmo. Uma maçã. Nem vermelha gritante, nem verde ácida. Um tom entre, um desbotar de vitalidade, um ligeiro amarelado aqui e ali. E em seu centro, no seu umbigo seco, o resto de um galho que um dia a unira à árvore, a um grande e silencioso útero de onde veio.

 

A que observa em mim, a mesma de antes, a que não julga mas se assombra, fixou nela o olhar. Não era uma maçã para ser comida, não nesse momento. Era uma maçã para ser sentida. E, pelo sentir, quase tocada em sua mais íntima substância, aquela que a tornava maçã e nada mais.

 

Via-se a curva suave de sua pele, uma tensão que era a promessa de uma polpa que ainda não se revelava. A textura, lisa sob a luz, parecia gritar uma aspereza invisível, um segredo de sua casca que se recusava a ser meramente superficial. Havia nela uma quietude. Uma quietude de quem possui um vasto interior que não se expõe, de quem sabe sem precisar saber. Uma auto-suficiência que a fazia completa em si mesma, sem precisar de nome, sem precisar de função.

 

E a epifania surgiu: a maçã era a mais pura tradução do seu próprio mistério. Ela não se explicava. Simplesmente era. E nesse ser, sem esforço, sem a angústia da existência que nos devora, ela trazia à tona a nudez de uma verdade: que o mundo é feito de coisas que são, e a gente é feito de coisas que tentam ser. E o terror não era o de não entender a maçã, mas o de entender que a maçã, em sua completa e muda existência, compreendia mais sobre o ser do que eu jamais conseguiria. Ela era o início e o fim. E a sua silenciosa presença sobre a mesa era um grito. Um grito de pura e insondável existência.



14 dezembro 2025

FINAL DA MÁSCARA

  

Final da Máscara

Final da máscara, início da pele —
onde a mentira escorrega
e a verdade começa a arder.
Ali, eu andei descalço,
num estreito de mim mesmo,
sem margem,
sem muro,
sem véu.

Meus pés tocaram o frio do chão
como quem reencontra um altar antigo,
e cada passo
era uma confissão sussurrada
ao silêncio que não julga.

Entre o que escondi por anos
e o que restou quando caiu o pano,
eu encontrei um nome
que ainda sabia dizer.

Andei descalço,
sobre pedras que lembravam
o quanto doeu ser outro,
o quanto custou voltar.

No estreito, não havia fuga.
Mas havia passagem.
E do outro lado —
pele viva,
cicatriz sem vergonha,
alma porosa,
e a coragem tênue
de ser.


                "Andei descalço, sobre pedras que lembravam

                o quanto doeu ser outro, o quanto custou voltar."

                                                            Vicente Siqueira

13 dezembro 2025

O SEGREDO DA MAÇÃ REVISITADO

 O Segredo da Maçã Revisitado

 

A maçã, em sua aparente singeleza, torna-se um espelho para a própria existência. Ela não precisa de discursos, nem de explicações. Apenas é. E essa pura existência, tão alheia às nossas buscas e angústias, nos confronta com a complexidade de tentarmos ser. É um encontro com o mistério que reside em tudo, mas que raramente paramos para verdadeiramente sentir.

12 dezembro 2025

FLAGRADOS

 


 Flagrados

não podia estar lá

quando queria estar aqui,

nesse jogo de abraços

que anseia pernas tocadas,

no risco de sermos descobertos.

 

não ousara dizer não ao momento,

ao encantamento,

ao toque de Midas

que transforma

o cinza da frente fria

em dourado

de calor generoso.

 

são bocas sabendo a graça

de se esconderem

uma na outra,

uma pra outra,

na exploração

que não conhece fadiga

e não suporta a tirania

dos ponteiros

dos relógios.

 

por isso, o escorregão

no atraso

denunciou os cheiros

e as perguntas

sem respostas,

sem explicações.

10 dezembro 2025

A FORMA DO INVISÍVEL

 

A Forma do Invisível

Nem tudo tem contorno.
Às vezes, o poema
é só vento que pensa,
é mar sem costura.

Mas a forma chega
como quem molda o ar,
um gesto que curva
o que se quer tocar.

É o corpo do som,
a linha do espaço,
o peso da pausa
no fim de um abraço.

Criar é inventar contornos
praquilo que escapa,
dar forma ao silêncio
sem que ele se quebre.

Porque o invisível,
quando ouvido com cuidado,
tem um rosto possível.



08 dezembro 2025

AS COISAS QUE NÃO TERMINAM

 

 As coisas que não terminam

Tem gente que vai embora
como se fosse simples —
fechar a porta, virar o rosto,
levar a xícara preferida.

Mas esquece um rastro.
Esquece o nome no espelho
e um verso que ninguém escreveu.

Fica o passo na madeira.
O cheiro preso no armário.
O riso guardado num talher.

Fica até a briga mal resolvida,
pendurada na maçaneta
feito lenço que ninguém recolhe.

E eu?
Eu vou juntando os fragmentos,
fingindo que são cacos de um vaso antigo
e não do meu coração.

Fico ensaiando despedidas 

pra quando não doer mais.

Mas meu peito vira enredo

toda vez que o silêncio respira teu nome.





                                                         "  Tem gente que vai embora como se fosse simples —
                                                            fechar a porta, virar o rosto, levar a xícara preferida."
                                                                                                                    Vicente Siqueira

CONFISSÕES SILENCIOSAS

 


 


 

 Confissões Silenciosas

 

Há um cofre,

não de metal ou madeira,

mas de ar e pulsação,

onde repousam os segredos

que guardei em mim.

 

Não são tesouros de pirata,

nem mapas de ilhas perdidas.

São sussurros calados,

reflexos em espelhos embaçados,

aquelas verdades que o tempo

lapidou em silêncio.

 

Muitos nasceram

em madrugadas estreladas,

outros em tardes de chuva,

alguns, em olhares fugazes.

Cada um com seu próprio peso,

sua cor, sua melodia muda.

 

Eles não me pesam.

São parte da terra

que sustenta minhas raízes.

Memórias tecidas em linho invisível,

pontos de luz em um céu particular.

Meus segredos.

Apenas meus.

Eles habitam,

respiram em meu peito,

e me contam,

em um idioma só nosso,

quem eu sou.



Muitos nasceram

em madrugadas estreladas,

outros em tardes de chuva,

alguns, em olhares fugazes.

                              Vicente Siqueira   -   DocesPoesias

07 dezembro 2025

DESENHANDO UM SORRISO

 

Desenhando um sorriso 

(e uma desculpa qualquer)


Desenhei um sorriso —
leve, mas torto,
como quem aprendeu a moldar silêncios
com um lápis de cor gasto demais.

Inventei uma desculpa qualquer,
vestida de vento,
que saiu da minha boca sem pedir licença:
“Foi só o tempo, entende?”

Mas quem entende?
Se o que ficou não foi o motivo,
foi o gesto mal costurado
no meio da minha frase.

Desenhei um sorriso —
meio tarde, meio cedo,
na esperança de que a curva nos meus lábios
enganasse o que minha alma ainda carrega.

E a desculpa qualquer,
que nasceu sem raiz,
ficou plantada no chão da minha memória,
como flor que ninguém rega mais.

Mas eu sorri.
Como quem treina o perdão no espelho
e tenta, todo dia,
fingir que não doeu tanto assim.



 

06 dezembro 2025

E NEM PRECISA DE RIMA

 

E Nem Precisa de Rima

Fragmentos de conversas perdidas pairam no espaço da lembrança. São imagens desconexas de um filme inacabado.

Um gesto da mão, um olhar de soslaio, o murmúrio de um segredo qualquer. A mente tenta reconstruir o diálogo, mas as peças não se encaixam bem.

Eram projetos acalentados, palavras lançadas ao vento. Eram opiniões trocadas, a busca por um entendimento.

O tempo esgarçou as bordas, desbotou as cores daquele instante. Sobraram apenas pedaços soltos, uma vaga sensação distante.

A voz que preenchia os dias agora reside no silêncio. Em cada objeto, uma sombra, de um encontro que não se fez eterno.



05 dezembro 2025

LOOP INFINITO

 

 

Loop Infinito

 

Nada novo, de novo.

O dia mimetiza o ontem,

o café na mesma caneca.

O mesmo tédio, o mesmo estorvo,

e a alma que se encolhe, seca.

 

O ponteiro gira, a vida não.

Replay do que já foi, exaustivo.

A rotina um nó, sem solução,

o presente um passado cativo.

 

A tela acende, o mesmo feed,

notícias velhas, sonhos gastos.

O pulso fraco, sem o que pedir,

em meio a tantos, tantos rastros.

 

E o grito preso, que não sai,

de um desejo por algo inusitado.

Mas o ar é denso, e me distrai,

nesse ciclo vicioso e cansado.