Um Pingo é uma Gota?
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Vicente
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026


Início dos Cacos
Estou bem no início dos
meus cacos.
Não a poeira, nem o fim da
queda,
mas o momento exato do
estilhaço.
Onde a forma antiga se
desfaz,
e a nova ainda não tem
nome.
Aqui, o corte é fresco,
a dor, pontiaguda,
e o mapa do estrago
se desenha em cada lasca.
Não há como esconder,
ou fingir que não quebrou.
É o instante cru,
a verdade desnudada
de que algo se partiu.
Mas também é a promessa,
quase imperceptível,
de que a reconstrução
começa bem aqui,
na primeira farpa,
no primeiro brilho
de um pedaço
que ainda pode ser.
Passos na
Calçada
Cada
passo é um verso
escrito no asfalto quente
histórias invisíveis
que se perdem no movimento
há passos
apressados
que fogem do tempo
e passos lentos
que saboreiam a cidade
calçadas
guardam segredos
de encontros e partidas
de risos esquecidos
e lágrimas sem nome
cada
pegada no chão
é um traço de vida
um convite silencioso
para ouvir o que ficou
e mesmo
na multidão,
sou único nesse caminhar
feito passos na calçada
que querem se encontrar
Camisa de Força da
Obrigação
Não te veste, mas te
prende.
Um tecido invisível, fio a
fio,
Tecido com os
"deverias", os "tens que",
Amarrando o corpo,
roubando o ar, o pio.
Sufoca o grito que quer
ser canção,
Apaga a cor que o desejo
pintou.
Cada nó, um
"não" à intenção,
À liberdade que um dia
sonhou.
É o peso do amanhã, o
temor do "se",
A sombra que se estende
sobre o agora.
E a alma, apertada, tenta
mover-se,
Prisioneira em sua própria
demora.
Mas sinto a fibra ceder,
frágil,
A cada "não" que
o coração permite.
Rasgando a trama, um gesto
ágil,
Buscando o espaço que a
vida me remite.
Sob o sol negro de um éon olvidado,
onde a grama espectral sussurra lamentos antigos,
os Desprovidos, almas errantes sem o farol celeste,
irão provar o fel da noite eterna.
Lágrimas de obsidiana, não de contrição,
mas de angústia cósmica,
verterão dos seus olhos vazios,
poças de sombra na terra desolada.
O ar rarefeito vibrará com um único som:
o gemido gutural da perda primordial,
ressoando pelas ruínas de mundos extintos.
Ódio, serpente de escamas fuliginosas,
erguerá a cabeça hedionda, e sua voz,
um raspar de pedras tumulares,
será a única canção na vastidão sombria.
Dor, espectro de mil pontas geladas,
dançará em torno dos Desprovidos,
tecendo um sudário de agonia infinita
na escuridão que os engolirá por completo.
Não haverá aurora, nem sussurro de perdão,
apenas o reino espectral da Noite sem deuses,
sem Deus,
onde o sofrimento é a moeda corrente ,
e o eco dos gemidos, a única litania.
Haverá um dia, prenhe de um silêncio carregado, em que aqueles que percorrem os caminhos da existência alheios à presença divina sentirão o peso da ausência como um manto de chumbo. As lágrimas, antes represadas pela ilusão da autossuficiência, jorrarão como fontes amargas, inundando a alma com a percepção tardia de um vazio insondável. A luz se extinguirá para eles, e a escuridão, outrora ignorada, se fará morada constante, fria e opressora.
Naquele tempo sombrio, a melodia da vida se transformará em um coro de gemidos lancinantes. O riso emudecerá, substituído pelo eco doloroso da constatação. O ódio, cultivado nos recantos sombrios do espírito, e a dor, sua fiel companheira, romperão as barreiras do silêncio, propagando-se em ondas de aflição. A escuridão não será apenas a ausência de luz, mas a própria manifestação do sofrimento, um lugar onde a alma se debate em vão, prisioneira das consequências de um caminho percorrido sem a bússola da fé.
Amigo, o fim se achega. Não como um trovão distante, mas um passo na areia.
E a velha palavra insiste: Jesus,
ele vem.
Não amanhã,
nem depois da curva do tempo.
Agora.
Este rasgar de presente.
O tempo sangra urgência.
É hoje, amigo.
A mão aberta,
o gesto puro.
Dar.
A Ele,
silencioso na vastidão,
a pupila da espera.
Teu coração.
Essa matéria bruta,
esse tremor de vida.
A entrega.
Sem laços, sem nós.
Só o ser exposto.
Amigo, sinto o vento dos fins se aproximando, como um sussurro na folhagem densa da tarde. O livro antigo, com suas páginas amareladas pelo tempo, ecoa uma promessa: Jesus virá. Não em um futuro distante, envolto em névoas de eras, mas agora, neste instante efêmero que nos veste. O tempo urge, amigo, pulsa em nossas veias como a melodia insistente de um chamado. É hoje o dia de desabrochar a flor mais íntima, aquela que reside no jardim secreto do peito. É hoje o momento de ofertar, sem reservas, o relicário frágil e precioso do teu coração a Ele, que na quietude da eternidade, espera. A espera não é ansiosa, mas compassiva, como a do jardineiro que aguarda o tempo certo para a colheita. Entrega, amigo, essa morada de sentimentos, com suas alegrias e sombras, suas canções e silêncios. Ele acolherá, com a ternura do sol que beija a terra, a singularidade da tua essência.
Gritos Sem Rosto
Há um grito em mim que não
reconheço.
Não tem voz, não tem
rosto,
eco em paredes que não
existem.
É um desespero surdo,
uma urgência que não se explica.
Ele nasce, cresce,
mas não encontra caminho
para fora,
ou para dentro, onde eu o
pudesse nomear.
É um emaranhado de nó,
um mapa sem legenda,
e eu, o explorador perdido
na própria geografia da
alma.
Nem eu entendo meus
gritos.
São idiomas de dor
que minha mente não
traduz.
Apenas a reverberação de
um tremor
que me habita, secreto,
e me deixa à deriva
no oceano do que não sei
sobre mim.
Eis que
estou —
não longe, não oculto —
mas à porta.
Onde o silêncio ecoa
e a alma se conforta.
Bato sem
pressa,
sem arrombar os dias,
com a mansidão
de quem conhece
as chaves do coração.
Se
ouvires a minha voz
no vento da tarde,
no lampejo da dúvida,
no sussurro da verdade —
abre.
Não trago
fardos,
trago mesa.
Trago vinho,
trago pão,
trago a luz que acende
tua própria direção.
Entrarei
sem exigir,
cearei sem cobrar,
e a solidão que te cerca
irá me acompanhar —
e sumir,
como névoa diante
do olhar.
A porta rangeu, um lamento breve No silêncio da casa antiga. Os móveis cobertos por lençóis brancos Pareciam espectros imóveis.
E Nem Havia o calor de um abraço, Apenas a frieza do ar parado. A poeira dançava em raios de sol tímidos, Iluminando o vazio eloquente.
A Saudade era um peso no peito, Uma melodia triste e repetida. Onde a voz ecoava ausente, Restava apenas o sussurro do vento.
Na memória, as palavras pairavam, Fragmentos de conversas perdidas. Onde a voz ecoava ausente, O silêncio gritava verdades nuas.
E Ninguém para preencher a lacuna, O espaço deixado por uma partida. Onde a voz ecoava ausente, A alma buscava um eco em vão.
Vicente Siqueira
Misto
Permaneço mistério e
presença.
Não sou decifrável,
nem me desfaço ao toque.
Há um véu invisível
que me veste,
mesmo quando estou nu.
Minha face se revela em
sombras,
minha voz, em sussurros.
Sou o enigma que pulsa,
o rastro que ninguém segue
até o fim.
E nessa dualidade,
onde o conhecido se funde
ao indizível,
eu habito.
Sou o que você vê e o que
não vê,
o que você sente
sem nunca compreender
totalmente.
Um segredo vivo,
sempre aqui,
sempre além.
Quando a
luz se esconde
as sombras despertam
não para assustar
mas para envolver
elas são
braços longos
que acolhem o cansaço
e embalam o silêncio
com ternura escura
não há
medo aqui
só o toque suave
de quem sabe esperar
e abraçar sem julgar
as
sombras que abraçam
são refúgios secretos
onde o peito encontra
descanso e abrigo
e na
penumbra gentil
renasce a esperança
de um novo dia
O Peso do Amanhã
O amanhã, invisível e
vasto,
Um fardo que a mente carrega,
Antes mesmo que o dia se
faça,
A ansiedade tece sua teia.
É a lista que não termina,
As contas que precisam ser
pagas,
O "e se" que a
mente destina,
Feridas que ainda nem são
chagas.
Prende os pés no presente,
Embarga o riso que quer
sair.
Faz do hoje um tempo
ausente,
Um futuro que insiste em
vir.
Mas o amanhã é um campo
aberto,
Um papel em branco à
espera.
A cor que eu pinto, o
caminho incerto,
A chance de ser, na nova
era.
E se o fardo virar leveza?
Se o passo for livre, e o
olhar,
Buscar no agora a certeza,
Promessas Reconstruídas
Eu reinvento promessas
quebradas.
Não as esqueço,
nem as jogo fora.
Pego os cacos, as pontas
soltas,
e com a argila do agora,
modelos novos começos.
Não é negação do que se
foi,
mas um teimar do que pode
ser.
No lugar da rachadura,
uma nova costura,
um desenho que antes não
havia.
Há quem diga que é ilusão,
que promessa morta não
ressuscita.
Mas em mim,
onde a fé é teimosa,
transformo o "nunca
mais"
numa chance que ainda
habita.
E assim, cada estilhaço
vira semente,
cada falha, um novo
caminho.
Porque em meu jardim
particular,
o que murchou pode sempre
florescer, de outro jeito,
mas com a mesma essência
de um amanhã que ainda
pulsa.
Promessas Reconstruídas
Eu reinvento promessas quebradas.
Não as esqueço,
nem as jogo fora.
Pego os cacos, as pontas soltas,
e com a argila do agora,
modelo novos começos.
Não é negação do que se foi,
mas um teimar do que pode ser.
No lugar da rachadura,
uma nova costura,
um desenho que antes não havia.
Há quem diga que é ilusão,
que promessa morta não ressuscita.
Mas em mim,
onde a fé é teimosa,
transformo o "nunca mais"
numa chance que ainda habita.
E assim, cada estilhaço vira semente,
cada falha, um novo caminho.
Porque em meu jardim particular,
o que murchou pode sempre
florescer, de outro jeito,
mas com a mesma essência
de um amanhã que ainda pulsa.