15 janeiro 2024

QUERO

 



QUERO

Quero a vontade de extirpar o medo,
De gritar, se necessário,
De experimentar a vida,
De perceber que a hora urge
E que por isso é bem desejada.

Quero esquecer corações
E ânsias de vez
E acordar dos sonos infinitos
Que limitam as ações.

Quero descansar de mim
Calar-me a boca,
Que de qualquer maneira
Nunca fala, mesmo.

Quero morrer e reconstruir,
Ouvir e rebelar
Mesmo sem construir
A verdade,
A vontade.

Quero não sofrer
Até ter encontrado
A felicidade.



31 dezembro 2023

Sob camadas de pedra, areia, e tempo

 Sob camadas de pedra, areia, e tempo

Sob camadas de pedra,
há um grito engasgado,
fóssil de uma palavra
que quis nascer mundo.

Areia sussurra segredos
de pegadas que não voltam —
são mapas sem bússola,
são promessas ao vento.

O tempo,
esse escultor invisível,
lixa as margens do que fomos
até restar só o eco.

E no fundo,
onde a luz quase não toca,
repousa um gesto intacto,
como se esperasse recomeço.

Ali, entre ruínas e raízes,
bate um coração antigo,
feito do barro dos dias
e da esperança dos séculos.


19 dezembro 2023

ANTROPOLOGIA URBANA

 

ANTROPOLOGIA URBANA

ela não anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética

é pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada

quem a viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro

nuvem de perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.

03 dezembro 2023

A PORTA ENTRE OS MUNDOS

  

A Porta Entre os Mundos

Eis que estou —
à porta que respira entre o tempo e o agora,
onde os relógios se calam
e os muros falam em línguas esquecidas.

Bato.
Mas não com punhos,
com o som do trovão parado no céu,
com o vento que passa pelas frestas
carregando o nome que só tu sabes.

Se ouvires —
não será com os ouvidos da carne,
mas com a pele da alma,
com o fogo que mora atrás dos olhos.

A maçaneta arde em ouro vivo,
há estrelas girando na fechadura,
e do outro lado,
meu manto é feito de manhãs eternas
e meus pés não tocam o chão.

Abre.
E tua casa se tornará templo,
teu chão será mar de vidro,
teu teto, véu rasgado.

Entrarei como luz atravessa vidro,
sem romper, sem forçar —
mas transformando.

E cearemos.
Na mesa onde os frutos não apodrecem,
onde o cálice não esvazia,
onde tua solidão será apenas
uma lembrança que esquecerá de si.

15 novembro 2023

LIVRE PARA CRIAR

 "Livre para Criar"

É livre o gesto,
na palma da ideia —
onde a palavra espera
e o mundo inteiro cabe.

Não há cerca no sonho,
nem muro no verso
que nasce de dentro,
no tempo disperso.

Podes criar:
um céu de marfim,
um rio sem nome,
um segredo de jardim.

Aqui, o verbo é caminho,
e a escuta, alvorada.
A poesia não teme
nem mesmo o nada.

Apenas há limites
para o que fere ou destrói —
mas o que acende e abraça,
ah, isso é só teu e só dói
de tão belo.



06 novembro 2023

O RETORNO DAS PALAVRAS

 

O Retorno das Palavras

E o que eu dizia
voltava para mim.

não como resposta,
não como castigo,
mas como espelho.

cada palavra lançada
desenhava um contorno novo
em minha própria pele.

o que eu julgava,
me julgava.
o que eu amava,
me amava.
o que eu temia,
me temia.

e assim aprendi:
falar era também ouvir,
gritar era também confessar,
calar era também renunciar.

o que eu dizia
não se perdia no vento —
ele fazia caminho,
dava meia-volta,
e batia na porta do meu peito.

e eu, sem ter para onde fugir,
aprendi a dizer
com mais verdade,
com mais cuidado,
com mais alma.



15 outubro 2023

CADERNO ABERTO

 

  Caderno Aberto

Um caderno aberto
não pergunta por quê.
A folha aceita o que vier:
silêncio, rabisco,
vento de mulher.

Não exige forma,
não impõe juízo.
Aceita o risco
de um céu partido,
de um riso indeciso.

Quem escreve, voa.
E quem voa, vê
que a criação
é ponte de luz
sobre o talvez.


08 outubro 2023

HORIZONTE DE ESPERANÇA

 

Horizonte de Esperança

no fim do olhar cansado
uma luz se acende
sutil, insistente
promessa de manhã

é linha tênue
entre o hoje e o amanhã
onde o sonho se encontra
com a coragem de ser

não é fuga, nem ilusão
mas passo firme
sobre a areia movediça
dos dias difíceis

o horizonte sorri
mesmo quando escurece
e revela que sempre há
um motivo para seguir

pois onde há esperança
floresce a vida
e nasce um novo dia

19 setembro 2023

GEOGRAFIA DO DESEJO

 

GEOGRAFIA DO DESEJO

há uma topografia secreta
no modo como teus lábios
cartografam minha pele

não é pressa —
é percurso.

as mãos, bússolas febris
desenham trilhas
onde antes só havia espera

teu hálito,
vento quente de monções
move cortinas internas
abre portos esquecidos

os músculos se lembram
da língua como seta
da saliva como selo

não há nome para o que se dá
sem pedir,
sem recuar —
mas sabemos.

os corpos, rios que se encontram,
perdem-se em curvas
em fundos não mapeados
em sinuosidades novas
onde o prazer não é fim
mas fenda,
criação,
caminho aberto.

15 setembro 2023

FINALMENTE, O SILÊNCIO ABSOLUTO

 Finalmente, o Silêncio Absoluto

 

E finalmente, o silêncio absoluto, não o silêncio que esconde, mas o que revela.

Não é ausência de som, mas a ausência de todo o ruído interno,

das perguntas incessantes, das expectativas que pesam.

É a dissolução da própria mente em sua busca incessante,

um ponto de quietude que transcende a percepção.

 

É o fim das oscilações, das dualidades,

o espaço onde a paz não é oposta à inquietação,

mas a única verdade que existe.

Nesse silêncio intocado, tudo se harmoniza,

e o vazio que se auto-preenche encontra sua expressão mais pura,

uma calmaria sem ecos, sem reflexos, apenas ser.

 

 

CHEIRO DE TINTA

 

 Cheiro de Tinta

Liberdade tem cheiro
de tinta fresca na manhã,
quando o papel respira
e a mão ainda hesita.

É o som do grafite
riscando devagar,
feito um segredo
que começa a cantar.

Tem gosto de fruta cortada,
cor escorrendo no céu,
textura de palavra molhada
em saliva e papel.

Criar é sentir —
com todos os poros,
como quem toca o mundo
e volta com olhos novos.




01 setembro 2023

PLENITUDE NA VASTIDÃO DO NADA

 

 Plenitude na Vastidão do Nada

 

E a plenitude na vastidão do nada, o ápice do paradoxo,

onde o vazio não é falta, mas presença absoluta.

Não é um espaço oco à espera de preenchimento,

mas o próprio infinito que se revela em sua essência.

 

É a liberdade de não ter contornos, de não ter limites,

a paz de ser tudo e nada ao mesmo tempo.

Nesse "não-lugar", a mente se aquieta,

e a existência transcende a forma, o nome, o peso.

É a perfeição do ser desprovido,

onde a completude nasce da ausência de tudo,

e o silêncio se torna a sinfonia mais rica.

 

 


31 agosto 2023

O VAZIO QUE SE AUTO-PREENCHE

 

O Vazio Que Se Auto-Preenche

 

E o vazio que se auto-preenche, um paradoxo

que desfaz a lógica do que é ausência.

Não é um nada que espera ser completo,

mas uma plenitude que surge de si,

uma existência que se basta sem ter.

 

É como a vastidão do céu noturno,

que parece vazio, mas é infinito em estrelas invisíveis,

uma profundidade que se revela em sua própria essência.

Não há necessidade de adição, de preenchimento externo,

pois a essência já está ali, em cada não-coisa.

 

Nesse espaço, a paz é a própria matéria,

o silêncio, a voz mais alta que se pode ouvir.

É a libertação do conceito de falta,

a descoberta de que o vazio não é carência,

mas a forma mais pura de ser, a totalidade em sua vastidão.

 

 

15 agosto 2023

A PAZ ALÉM DO DESCANSO

 

 A Paz Além do Descanso

 

E a paz além do descanso, um estado que transcende

o simples alívio de um peso que se vai.

Não é a quietude que sucede a tempestade,

mas uma ausência de necessidade,

onde o anseio e a busca se dissolvem.

 

É a serenidade que não depende de sono,

nem de pausas, nem do fim de uma jornada.

É o ponto onde a consciência se aquieta,

livre dos ecos do passado, das promessas do futuro.

Uma leveza indescritível,

que não é a ausência de peso, mas a ausência de esforço.

 

Nesse lugar, a existência apenas é,

sem a urgência do tempo, sem a pressão do desejo.

É a dissolução da própria busca,

a descoberta de que a paz não é um destino,

mas o próprio vazio preenchido de si mesmo.

 

 

01 agosto 2023

A PROMESSA DO VAZIO

 A Promessa do Vazio

 

E a promessa do vazio, uma melodia suave

que sussurra alívio onde antes só havia caos.

Não é uma ameaça, mas um convite,

a certeza de que, ao fim, tudo se dissolve,

e a pressão cessa, e o ruído se cala.

 

É o vislumbre de um descanso absoluto,

onde as perguntas se apagam sem respostas,

e os problemas se desfazem em nada.

O vazio, então, não é mais um abismo a ser temido,

mas um horizonte sereno,

onde a paz finalmente se instala,

uma calmaria sem fim para a alma exausta.

 

 

31 julho 2023

A ÂNSIA DO VAZIO

 

 A Ânsia do Vazio

 

E a ânsia do vazio, uma sede estranha

por aquilo que não tem forma, não tem som.

Não é medo do nada, é o acolhimento que se busca,

a promessa de um espaço onde a dor não ecoa,

onde a intensidade se dilui em silêncio puro.

 

É o chamado da ausência,

um convite para desaparecer,

para que o fio se desfaça de vez,

e a pressão ceda, e o peso se esvai.

O vazio, então, não é mais ameaça,

mas um refúgio, um ponto de fuga,

onde a existência se apaga

e finalmente se encontra a paz que a vida nega.

 

 

04 julho 2023

ANTROPOLOGIA URBANA

 

ANTROPOLOGIA URBANA

Ela não anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética

é pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada

quem a viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro

nuvem de perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.




06 junho 2023

BANQUETE ESCONDIDO

 

Banquete Escondido

 

No emaranhado dos dias,

Tentei decifrar o amanhã,

um novelo de possibilidades

e incertezas.

O que seriam aqueles contornos?

E como moldaria o nada

que se anunciava?

 

Mas o medo,

um gigante silencioso,

espreitava em cada sombra.

Roubava suspiros,

pequenas porções de ar puro

que eu engolia em segredo.

 

No jogo de esconde-esconde comigo mesmo,

as mãos apertavam o vazio,

os olhos fixos no que não via.

Comia o próprio fôlego,

tentando preencher o abismo

com a coragem que me faltava.

 

E o banquete,

preparado apenas para

os meus olhos,

 era feito de assombros e pressentimentos.

Um festim de suspiros roubados,

enquanto a vida,

(lá fora),

esperava ser vivida.

01 junho 2023

ISSO É NORMAL

 

ISSO É NORMAL

 

vez por outra estou às voltas com

a pieguice suprema de

precisar de lucidez

e beber o meu único instante lúcido.

de sentir-me cabeça que pensa

de ser coração que corresponde

aos corações

de precisar criar coisas como todo mundo

(coisas que sirvam de base de troca.

coisas que possam ser vistas como algo bom).

eu queria que outras pessoas

além de mim mesmo

pudessem ler o que escrevo

e conversar comigo

com voz amiga

e sentimento materno

e falassem com clareza

que agora já sou lúcido