ELAS
Chamam-se Maria.
Cidade à noite
Pra elas
É dia.
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
Sob camadas de pedra, areia, e tempo
Sob camadas de pedra,
há um grito engasgado,
fóssil de uma palavra
que quis nascer mundo.
Areia sussurra segredos
de pegadas que não voltam —
são mapas sem bússola,
são promessas ao vento.
O tempo,
esse escultor invisível,
lixa as margens do que fomos
até restar só o eco.
E no fundo,
onde a luz quase não toca,
repousa um gesto intacto,
como se esperasse recomeço.
Ali, entre ruínas e raízes,
bate um coração antigo,
feito do barro dos dias
e da esperança dos séculos.
ela não
anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética
é
pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada
quem a
viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro
nuvem de
perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.
A Porta Entre os Mundos
Eis que estou —
à porta que respira entre o tempo e o agora,
onde os relógios se calam
e os muros falam em línguas esquecidas.
Bato.
Mas não com punhos,
com o som do trovão parado no céu,
com o vento que passa pelas frestas
carregando o nome que só tu sabes.
Se ouvires —
não será com os ouvidos da carne,
mas com a pele da alma,
com o fogo que mora atrás dos olhos.
A maçaneta arde em ouro vivo,
há estrelas girando na fechadura,
e do outro lado,
meu manto é feito de manhãs eternas
e meus pés não tocam o chão.
Abre.
E tua casa se tornará templo,
teu chão será mar de vidro,
teu teto, véu rasgado.
Entrarei como luz atravessa vidro,
sem romper, sem forçar —
mas transformando.
E cearemos.
Na mesa onde os frutos não apodrecem,
onde o cálice não esvazia,
onde tua solidão será apenas
uma lembrança que esquecerá de si.
A Chegada do Visitante - Capítulo VI
Quando a noite se desfez em tons de âmbar,
Liraëlen sentiu que o ar havia mudado.
As paredes da torre pareciam respirar,
e cada vela se curvava em reverência a algo invisível.
Foi então que ele apareceu —
não pelas portas, mas pelas dobras do tempo.
Vestia o silêncio das constelações
e os olhos ardiam como espelhos de águas profundas.
Ele não falava com voz,
mas com presença,
e Liraëlen ouviu, dentro de si,
as palavras que moldavam mundos:
**“Eis que estou à porta entre os mundos.
Bato — não com força, mas com sentido.
Se ouvires, abrirás não uma casa,
mas o véu entre teu ser e o Reino escondido.
Entrarei, e tua mesa será altar.
Cearemos, e teu espírito cantará.
Pois onde se abre em fé,
lá o Eterno se senta.”**
Quando ele se foi,
ficou apenas o perfume de um vinho antigo
e uma chama que ardeu por dentro do peito.
Na dobra da noite, quando o tempo se desfazia em névoa,
as estrelas silenciaram, e até os anjos pararam o voo.
Na porta que nunca havia sido notada,
alguém bateu — com o som do próprio coração do mundo.
A madeira não gemeu.
O vento não se mexeu.
Mas a alma que habitava ali
soube: Ele chegou.
Então, sem forma que os olhos pudessem conter,
Cristo se revelou —
vestido de luz trêmula e ternura antiga.
E sua voz não era som,
era revelação.
**“Eis que estou à porta e bato.
Não à de tua casa, mas à de teu ser.
Se me ouvires — não com os ouvidos do corpo,
mas com a sede da alma —
abrirei os céus dentro de ti.
Entrarei, não como hóspede,
mas como o Dono que esperou tua permissão.
E cearemos —
com o pão da eternidade,
com o vinho que não envelhece,
à mesa que nenhuma sombra alcança.
Pois aquele que me recebe,
se torna templo do invisível,
espelho do Reino.”**
E ao dizer isso, a presença se fez vento,
e o vento se fez fogo,
e o fogo, descanso.
Ainda havia brasas no chão
onde os pés de Cristo haviam passado.
E no ar pairava uma melodia antiga,
como se os céus entoassem uma nota
que a Terra havia esquecido.
Então a voz retornou —
não de fora,
mas de dentro,
ecoando no templo secreto do espírito:
**“Ao que vencer…
darei não um prêmio de ouro,
mas um lugar ao meu lado.
Assentar-se comigo —
não como servo,
mas como filho que voltou.
Assim como venci as trevas do mundo
e me assentei com meu Pai
acima dos véus do tempo,
também tu vencerás,
e te darei assento no trono das alturas.”**
Aos pés da colina suspensa no ar,
uma escada feita de promessas surgiu,
e cada degrau era uma lembrança vencida,
cada passo, um pedaço do ego que se rendia.
No alto, não havia trono de ouro,
mas um assento de luz viva —
onde os que vencem não dominam,
mas servem com glória.
Cristo estendeu a mão,
e aquele que ouvira a voz
sentiu o peso leve da eternidade.
Quando Cristo cessou sua fala,
o silêncio era tão denso
que o tempo parou para escutar.
Então veio o Espírito —
não como figura visível,
mas como brisa que atravessa dimensões,
como som que só o coração reconhece.
As folhas das árvores de cristal tilintaram.
Os rios falaram em suas correntezas.
E toda criatura sensível estremeceu.
**“Quem tem ouvidos… ouça.
Ouça além do som,
além da letra,
além da mente.
O que digo não é sussurro humano,
mas sopro do Eterno.
As igrejas são candeias,
e eu ando entre elas.
As almas são taças,
e eu as encho com vinho novo.
Desperta, ó terra adormecida!
Pois os céus estão falando,
e os que ouvem viverão.”**
Um clarão cruzou o firmamento,
e cada estrela respondeu ao chamado com luz mais viva.
Naquele instante,
toda a Criação parecia aguardar —
não com medo,
mas com esperança contida.
Pois a Palavra havia sido liberada,
e quem tivesse ouvidos…
jamais seria o mesmo.
"Livre para Criar"
É livre o gesto,
na palma da ideia —
onde a palavra espera
e o mundo inteiro cabe.
Não há cerca no sonho,
nem muro no verso
que nasce de dentro,
no tempo disperso.
Podes criar:
um céu de marfim,
um rio sem nome,
um segredo de jardim.
Aqui, o verbo é caminho,
e a escuta, alvorada.
A poesia não teme
nem mesmo o nada.
Apenas há limites
para o que fere ou destrói —
mas o que acende e abraça,
ah, isso é só teu e só dói
de tão belo.
E o que eu dizia
voltava para mim.
não como resposta,
não como castigo,
mas como espelho.
cada palavra lançada
desenhava um contorno novo
em minha própria pele.
o que eu julgava,
me julgava.
o que eu amava,
me amava.
o que eu temia,
me temia.
e assim aprendi:
falar era também ouvir,
gritar era também confessar,
calar era também renunciar.
o que eu dizia
não se perdia no vento —
ele fazia caminho,
dava meia-volta,
e batia na porta do meu peito.
e eu, sem ter para onde fugir,
aprendi a dizer
com mais verdade,
com mais cuidado,
com mais alma.
no fim do
olhar cansado
uma luz se acende
sutil, insistente
promessa de manhã
é linha
tênue
entre o hoje e o amanhã
onde o sonho se encontra
com a coragem de ser
não é
fuga, nem ilusão
mas passo firme
sobre a areia movediça
dos dias difíceis
o
horizonte sorri
mesmo quando escurece
e revela que sempre há
um motivo para seguir
pois onde
há esperança
floresce a vida
e nasce um novo dia
há uma
topografia secreta
no modo como teus lábios
cartografam minha pele
não é
pressa —
é percurso.
as mãos,
bússolas febris
desenham trilhas
onde antes só havia espera
teu
hálito,
vento quente de monções
move cortinas internas
abre portos esquecidos
os
músculos se lembram
da língua como seta
da saliva como selo
não há
nome para o que se dá
sem pedir,
sem recuar —
mas sabemos.
os
corpos, rios que se encontram,
perdem-se em curvas
em fundos não mapeados
em sinuosidades novas
onde o prazer não é fim
mas fenda,
criação,
caminho aberto.
Finalmente, o Silêncio Absoluto
E finalmente, o silêncio absoluto, não o silêncio que esconde, mas o que revela.
Não é ausência de som, mas a ausência de todo o ruído interno,
das perguntas incessantes, das expectativas que pesam.
É a dissolução da própria mente em sua busca incessante,
um ponto de quietude que transcende a percepção.
É o fim das oscilações, das dualidades,
o espaço onde a paz não é oposta à inquietação,
mas a única verdade que existe.
Nesse silêncio intocado, tudo se harmoniza,
e o vazio que se auto-preenche encontra sua expressão mais pura,
uma calmaria sem ecos, sem reflexos, apenas ser.
Liberdade tem cheiro
de tinta fresca na manhã,
quando o papel respira
e a mão ainda hesita.
É o som do grafite
riscando devagar,
feito um segredo
que começa a cantar.
Tem gosto de fruta cortada,
cor escorrendo no céu,
textura de palavra molhada
em saliva e papel.
Criar é sentir —
com todos os poros,
como quem toca o mundo
e volta com olhos novos.
Plenitude na Vastidão do Nada
E a plenitude na vastidão do nada, o ápice do paradoxo,
onde o vazio não é falta, mas presença absoluta.
Não é um espaço oco à espera de preenchimento,
mas o próprio infinito que se revela em sua essência.
É a liberdade de não ter contornos, de não ter limites,
a paz de ser tudo e nada ao mesmo tempo.
Nesse "não-lugar", a mente se aquieta,
e a existência transcende a forma, o nome, o peso.
É a perfeição do ser desprovido,
onde a completude nasce da ausência de tudo,
e o silêncio se torna a sinfonia mais rica.
O Vazio Que Se Auto-Preenche
E o vazio que se auto-preenche, um paradoxo
que desfaz a lógica do que é ausência.
Não é um nada que espera ser completo,
mas uma plenitude que surge de si,
uma existência que se basta sem ter.
É como a vastidão do céu noturno,
que parece vazio, mas é infinito em estrelas invisíveis,
uma profundidade que se revela em sua própria essência.
Não há necessidade de adição, de preenchimento externo,
pois a essência já está ali, em cada não-coisa.
Nesse espaço, a paz é a própria matéria,
o silêncio, a voz mais alta que se pode ouvir.
É a libertação do conceito de falta,
a descoberta de que o vazio não é carência,
mas a forma mais pura de ser, a totalidade em sua vastidão.
A Paz Além do Descanso
E a paz além do descanso, um estado que transcende
o simples alívio de um peso que se vai.
Não é a quietude que sucede a tempestade,
mas uma ausência de necessidade,
onde o anseio e a busca se dissolvem.
É a serenidade que não depende de sono,
nem de pausas, nem do fim de uma jornada.
É o ponto onde a consciência se aquieta,
livre dos ecos do passado, das promessas do futuro.
Uma leveza indescritível,
que não é a ausência de peso, mas a ausência de esforço.
Nesse lugar, a existência apenas é,
sem a urgência do tempo, sem a pressão do desejo.
É a dissolução da própria busca,
a descoberta de que a paz não é um destino,
mas o próprio vazio preenchido de si mesmo.
A Promessa do Vazio
E a promessa do vazio, uma melodia suave
que sussurra alívio onde antes só havia caos.
Não é uma ameaça, mas um convite,
a certeza de que, ao fim, tudo se dissolve,
e a pressão cessa, e o ruído se cala.
É o vislumbre de um descanso absoluto,
onde as perguntas se apagam sem respostas,
e os problemas se desfazem em nada.
O vazio, então, não é mais um abismo a ser temido,
mas um horizonte sereno,
onde a paz finalmente se instala,
uma calmaria sem fim para a alma exausta.
A Ânsia do Vazio
E a ânsia do vazio, uma sede estranha
por aquilo que não tem forma, não tem som.
Não é medo do nada, é o acolhimento que se busca,
a promessa de um espaço onde a dor não ecoa,
onde a intensidade se dilui em silêncio puro.
É o chamado da ausência,
um convite para desaparecer,
para que o fio se desfaça de vez,
e a pressão ceda, e o peso se esvai.
O vazio, então, não é mais ameaça,
mas um refúgio, um ponto de fuga,
onde a existência se apaga
e finalmente se encontra a paz que a vida nega.
Ela não anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética
é pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada
quem a viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro
nuvem de perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.
Banquete Escondido
No emaranhado dos dias,
Tentei decifrar o amanhã,
um novelo de possibilidades
e incertezas.
O que seriam aqueles
contornos?
E como moldaria o nada
que se anunciava?
Mas o medo,
um gigante silencioso,
espreitava em cada sombra.
Roubava suspiros,
pequenas porções de ar
puro
que eu engolia em segredo.
No jogo de esconde-esconde
comigo mesmo,
as mãos apertavam o vazio,
os olhos fixos no que não
via.
Comia o próprio fôlego,
tentando preencher o
abismo
com a coragem que me
faltava.
E o banquete,
preparado apenas para
os meus olhos,
era feito de assombros e pressentimentos.
Um festim de suspiros
roubados,
enquanto a vida,
(lá fora),
esperava ser vivida.
vez por outra estou às voltas com
a pieguice suprema de
precisar de lucidez
e beber o meu único instante lúcido.
de sentir-me cabeça que pensa
de ser coração que corresponde
aos corações
de precisar criar coisas como todo mundo
(coisas que sirvam de base de troca.
coisas que possam ser vistas como algo bom).
eu queria que outras pessoas
além de mim mesmo
pudessem ler o que escrevo
e conversar comigo
com voz amiga
e sentimento materno
e falassem com clareza
que agora já sou lúcido