"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
15 outubro 2023
08 outubro 2023
HORIZONTE DE ESPERANÇA
Horizonte de Esperança
no fim do
olhar cansado
uma luz se acende
sutil, insistente
promessa de manhã
é linha
tênue
entre o hoje e o amanhã
onde o sonho se encontra
com a coragem de ser
não é
fuga, nem ilusão
mas passo firme
sobre a areia movediça
dos dias difíceis
o
horizonte sorri
mesmo quando escurece
e revela que sempre há
um motivo para seguir
pois onde
há esperança
floresce a vida
e nasce um novo dia
19 setembro 2023
GEOGRAFIA DO DESEJO
GEOGRAFIA DO DESEJO
há uma
topografia secreta
no modo como teus lábios
cartografam minha pele
não é
pressa —
é percurso.
as mãos,
bússolas febris
desenham trilhas
onde antes só havia espera
teu
hálito,
vento quente de monções
move cortinas internas
abre portos esquecidos
os
músculos se lembram
da língua como seta
da saliva como selo
não há
nome para o que se dá
sem pedir,
sem recuar —
mas sabemos.
os
corpos, rios que se encontram,
perdem-se em curvas
em fundos não mapeados
em sinuosidades novas
onde o prazer não é fim
mas fenda,
criação,
caminho aberto.
15 setembro 2023
FINALMENTE, O SILÊNCIO ABSOLUTO
Finalmente, o Silêncio Absoluto
E finalmente, o silêncio absoluto, não o silêncio que esconde, mas o que revela.
Não é ausência de som, mas a ausência de todo o ruído interno,
das perguntas incessantes, das expectativas que pesam.
É a dissolução da própria mente em sua busca incessante,
um ponto de quietude que transcende a percepção.
É o fim das oscilações, das dualidades,
o espaço onde a paz não é oposta à inquietação,
mas a única verdade que existe.
Nesse silêncio intocado, tudo se harmoniza,
e o vazio que se auto-preenche encontra sua expressão mais pura,
uma calmaria sem ecos, sem reflexos, apenas ser.
CHEIRO DE TINTA
Cheiro de Tinta
Liberdade tem cheiro
de tinta fresca na manhã,
quando o papel respira
e a mão ainda hesita.
É o som do grafite
riscando devagar,
feito um segredo
que começa a cantar.
Tem gosto de fruta cortada,
cor escorrendo no céu,
textura de palavra molhada
em saliva e papel.
Criar é sentir —
com todos os poros,
como quem toca o mundo
e volta com olhos novos.
01 setembro 2023
PLENITUDE NA VASTIDÃO DO NADA
Plenitude na Vastidão do Nada
E a plenitude na vastidão do nada, o ápice do paradoxo,
onde o vazio não é falta, mas presença absoluta.
Não é um espaço oco à espera de preenchimento,
mas o próprio infinito que se revela em sua essência.
É a liberdade de não ter contornos, de não ter limites,
a paz de ser tudo e nada ao mesmo tempo.
Nesse "não-lugar", a mente se aquieta,
e a existência transcende a forma, o nome, o peso.
É a perfeição do ser desprovido,
onde a completude nasce da ausência de tudo,
e o silêncio se torna a sinfonia mais rica.
31 agosto 2023
O VAZIO QUE SE AUTO-PREENCHE
O Vazio Que Se Auto-Preenche
E o vazio que se auto-preenche, um paradoxo
que desfaz a lógica do que é ausência.
Não é um nada que espera ser completo,
mas uma plenitude que surge de si,
uma existência que se basta sem ter.
É como a vastidão do céu noturno,
que parece vazio, mas é infinito em estrelas invisíveis,
uma profundidade que se revela em sua própria essência.
Não há necessidade de adição, de preenchimento externo,
pois a essência já está ali, em cada não-coisa.
Nesse espaço, a paz é a própria matéria,
o silêncio, a voz mais alta que se pode ouvir.
É a libertação do conceito de falta,
a descoberta de que o vazio não é carência,
mas a forma mais pura de ser, a totalidade em sua vastidão.
15 agosto 2023
A PAZ ALÉM DO DESCANSO
A Paz Além do Descanso
E a paz além do descanso, um estado que transcende
o simples alívio de um peso que se vai.
Não é a quietude que sucede a tempestade,
mas uma ausência de necessidade,
onde o anseio e a busca se dissolvem.
É a serenidade que não depende de sono,
nem de pausas, nem do fim de uma jornada.
É o ponto onde a consciência se aquieta,
livre dos ecos do passado, das promessas do futuro.
Uma leveza indescritível,
que não é a ausência de peso, mas a ausência de esforço.
Nesse lugar, a existência apenas é,
sem a urgência do tempo, sem a pressão do desejo.
É a dissolução da própria busca,
a descoberta de que a paz não é um destino,
mas o próprio vazio preenchido de si mesmo.
01 agosto 2023
A PROMESSA DO VAZIO
A Promessa do Vazio
E a promessa do vazio, uma melodia suave
que sussurra alívio onde antes só havia caos.
Não é uma ameaça, mas um convite,
a certeza de que, ao fim, tudo se dissolve,
e a pressão cessa, e o ruído se cala.
É o vislumbre de um descanso absoluto,
onde as perguntas se apagam sem respostas,
e os problemas se desfazem em nada.
O vazio, então, não é mais um abismo a ser temido,
mas um horizonte sereno,
onde a paz finalmente se instala,
uma calmaria sem fim para a alma exausta.
31 julho 2023
A ÂNSIA DO VAZIO
A Ânsia do Vazio
E a ânsia do vazio, uma sede estranha
por aquilo que não tem forma, não tem som.
Não é medo do nada, é o acolhimento que se busca,
a promessa de um espaço onde a dor não ecoa,
onde a intensidade se dilui em silêncio puro.
É o chamado da ausência,
um convite para desaparecer,
para que o fio se desfaça de vez,
e a pressão ceda, e o peso se esvai.
O vazio, então, não é mais ameaça,
mas um refúgio, um ponto de fuga,
onde a existência se apaga
e finalmente se encontra a paz que a vida nega.
04 julho 2023
ANTROPOLOGIA URBANA
ANTROPOLOGIA URBANA
Ela não anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética
é pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada
quem a viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro
nuvem de perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.
06 junho 2023
BANQUETE ESCONDIDO
Banquete Escondido
No emaranhado dos dias,
Tentei decifrar o amanhã,
um novelo de possibilidades
e incertezas.
O que seriam aqueles
contornos?
E como moldaria o nada
que se anunciava?
Mas o medo,
um gigante silencioso,
espreitava em cada sombra.
Roubava suspiros,
pequenas porções de ar
puro
que eu engolia em segredo.
No jogo de esconde-esconde
comigo mesmo,
as mãos apertavam o vazio,
os olhos fixos no que não
via.
Comia o próprio fôlego,
tentando preencher o
abismo
com a coragem que me
faltava.
E o banquete,
preparado apenas para
os meus olhos,
era feito de assombros e pressentimentos.
Um festim de suspiros
roubados,
enquanto a vida,
(lá fora),
esperava ser vivida.
01 junho 2023
ISSO É NORMAL
ISSO É NORMAL
vez por outra estou às voltas com
a pieguice suprema de
precisar de lucidez
e beber o meu único instante lúcido.
de sentir-me cabeça que pensa
de ser coração que corresponde
aos corações
de precisar criar coisas como todo mundo
(coisas que sirvam de base de troca.
coisas que possam ser vistas como algo bom).
eu queria que outras pessoas
além de mim mesmo
pudessem ler o que escrevo
e conversar comigo
com voz amiga
e sentimento materno
e falassem com clareza
que agora já sou lúcido
24 maio 2023
PALAVRA PRESA
Palavra Presa
Esse nó na garganta,
apertado e cruel,
Sufoca a voz, a fala, o
pensamento.
Um peso imenso, que se faz
implacável,
Em silêncio rouba a paz e
o contentamento.
A palavra presa, em vão
tenta escapar,
Mas a angústia a prende,
em sua teia escura.
Um turbilhão de emoções,
que se amontoam,
E a alma se debate, em
sofrimento puro.
Lágrimas contidas, um
oceano calado,
Que inunda o peito, com
sua dor profunda.
A solidão se instala, em
seu reino sagrado,
E a esperança se esvai,
como fumaça efêmera e muda.
Só resta a espera,
paciente e sem alívio,
23 maio 2023
NOJO
Nojo
Eu tenho
nojo da fome
que grita no estômago das crianças
e é calada
pela indiferença.
nojo da
corrupção
que veste terno
e come o pão
de quem não tem nome.
tenho
nojo da desumanidade
que transforma gente
em estatística,
da violência cotidiana
que vira trilha sonora
de quem já nem reage.
tenho
nojo —
mas não me calo.
o nojo é o grito
antes da ação,
é o enjoo de um mundo
que precisa nascer de novo.
meu nojo
não é repulsa
à dor do outro.
é repulsa
de viver num sistema
que a produz
e a lucra.
há um
tipo de nojo
que desperta:
ele queima por dentro,
até virar verbo,
até virar
luta.
22 maio 2023
FRAGMENTOS DE ESPELHO
Fragmentos de Espelho
Eu me
olho
e não me vejo inteiro
apenas partes —
reflexos partidos
em molduras sem vidro
há um
pedaço de mim
no riso que invento
outro
na dor que escondo
o espelho
nunca mostra
a alma em voz alta
só fragmentos
como se a verdade
não coubesse de uma vez
sou um
quebra-luz
feito de cacos que brilham
mais do que se fossem lisos
e às
vezes entendo:
não preciso ser inteiro
pra ser sincero
nem simétrico
pra ser belo
sou feito
de estilhaços
mas cada um deles
carrega um céu
19 maio 2023
SÓLIDA SOLIDÃO
SÓLIDA SOLIDÃO
meu
quarto inerte me deixa só
e o frio (estúpido) se desprende da
vidraça fechada atrás das cortinas
de cetim amarelo-doentio
em meu
peito meus braços me dizem
que já não suportam o vazio
que deixas quando não vejo nem toco
teus lábios
quisera
poder sugá-los
por todos os ângulos
em todos os lugares:
em minha cama
no cinema
no drive-in
em qualquer parque onde brotam
as vincas
na rua
na dura realidade do dia-a-dia
até sentir que não
morrerei
na (não nessa) solidão
Revisão alternativa (mesma base, mais crua):
meu
quarto é uma caixa de ausência
o frio atravessa a cortina
como se o cetim não bastasse
meus
braços, cansados,
me imploram pele
em vez do eco
teus
lábios:
onde ficam quando o mundo me pesa?
quisera lambê-los de volta à existência
no escuro,
no riso,
no lugar onde brotam vincas e vontades
na rua
na cama
entre a pipoca e o pânico cotidiano
só assim,
talvez,
a solidão parasse
de virar rocha dentro de mim.
O VÔO II
O VÔO II
cheguei
sem saber se era certo
sem saber se ainda era hora
meu corpo
um corpo ausente de certezas
andava sozinho por esteiras e corredores
como se obedecesse a outra mente
(ou outro coração)
você não
estava —
mas eu reconheci seu cheiro
nas árvores baixas da saída
e na moça do balcão
que me disse “bem-vindo”
com um sorriso parecido com o teu
por um
instante
achei que te veria correr
com o cabelo amarrado
e uma mochila torta
dizendo “eu sabia que você vinha”
mas não
veio
então
esperei mais um pouco
como quem espera o amor
na segunda chamada de um vôo cancelado
e fui
embora
sem mala
sem pressa
com o eco de tua voz em meu nome
Viny
só você me chama assim
e isso ainda dói.
16 maio 2023
LÍNGUAS DE PEDRA
Línguas de Pedra
A terra respira. Não com pulmões de carne, mas com o lento inchaço de montanhas erguidas sobre milênios.
Sua voz não é som, não é palavra gritada no vento. É o peso da rocha, a ruga no flanco da colina, o granito calado na base do tempo.
A língua da pedra. Gravada em estratos, em fósseis que foram vida, em minerais que guardam a memória de fogos primordiais.
É a textura áspera sob a mão, o frio ancestral que emana do coração da montanha. Cada fissura, cada veia quartzo, uma sílaba esquecida, um verso petrificado.
E o silêncio. Ah, o silêncio da terra! Não o vazio, mas a plenitude que não precisa de som. O vasto deserto sob o sol impiedoso. A floresta densa antes do amanhecer. As cavernas escuras e profundas.
É o silêncio que precede a tempestade, o silêncio que guarda segredos de Eras Glaciais, de mares que secaram, de seres que andaram por aqui e se tornaram pó.
A terra fala em línguas de pedra, com a solidez imemorial que desafia nossa brevidade.
Fala em silêncio, com a quietude profunda que nos convida a ouvir além do barulho.
Basta parar. Sentir o chão sob os pés. Ver a montanha ao longe. Estar no vasto. E a terra, então, começa a contar sua história antiga, em sua própria e silenciosa linguagem.
09 maio 2023
CAMPONESA
CAMPONESA
entro em
seu delírio
como se buscasse o significado
de seu corpo,
áspero pelas asperezas
que a terra lhe deixa
quando revolve a terra
em busca das tantas
fertilidades.
são
tantos os caules
que cultiva,
são folhas,
são tubérculos
e outros frutos
que Gaia nos dá
após alimentá-los
em seus úberes.
entro em
seu delírio,
e a memória me remete
aos banhos
no lago,
que nos refresca para o início
do momento que se
faz presente.
e não
revelo quem é
nem o que cultiva,
para que tudo dure
até que o passado
se confunda
e se perca nas vontades
do futuro.