O Que Não Morre, Mas Não Vive
(versão narrativa)
Quando eu olho para trás, vejo dois jovens que se amaram com tudo o que tinham — e talvez com o que ainda nem sabiam que tinham. A gente se encontrava no corpo e no espírito como se fosse natural, como se o mundo tivesse sido criado só para que aquilo existisse. Conversávamos sobre tudo e sobre todos. Não havia pressa, nem conflito, nem medo. Parecíamos um par perfeito.
Mas alguma coisa, que até hoje não sei nomear, envelheceu aquele tempo. Não foi uma traição, nem uma briga. Foi algo mais sutil e silencioso: o convívio começou a esmorecer, como uma vela que vai apagando sozinha. E então nos separamos.
Cada um seguiu para um lado da vida. Ela voltou para um amor antigo. Eu encontrei outra pessoa. Casamo-nos. Tivemos vidas boas o suficiente. E por muitos anos, fomos apenas memórias um do outro. Vivíamos na mesma cidade, quase sem nos ver, como duas linhas paralelas que já se tocaram um dia e depois esqueceram como era.
O tempo passou. E com ele veio a era das redes sociais — esse espelho virtual onde os rostos antigos voltam a aparecer. Foi ali que nos reencontramos. Começamos com conversas banais, como quem pisa devagar numa terra queimada. Evitávamos o passado, até que, enfim, ele veio. E quando veio, foi como um silêncio que grita.
Falamos do que fomos. E, com a maturidade que antes não tínhamos, dissemos um ao outro o que nunca dissemos: que fizemos uma grande besteira. Que deixamos o amor partir. Que não entendíamos a vida como ela realmente era.
E que agora, mesmo sabendo disso, não podemos fazer nada. Porque acreditamos. Porque professamos uma fé. Porque sabemos que trair nossos compromissos seria trair a Deus, a nós mesmos, à paz dos que hoje caminham ao nosso lado.
Não há espaço para retorno. Não há chance de reparo. Há apenas esse reconhecimento amargo e, de certa forma, sereno: fomos idiotas. Mas idiotas que amaram de verdade. E isso não é pouca coisa.
Hoje, não somos felizes de forma plena. Tampouco infelizes o tempo todo. Vivemos, cada um no seu canto, com a companhia constante de uma ausência que não desaparece. Um amor que não morreu — mas também não pode mais viver.
E isso, talvez, seja o destino de alguns: amar na hora errada. Sentir o que era para durar, mas sem saber como guardar. E então seguir. Com fé. Com arrependimento. Com ternura. E com a certeza de que algumas perdas são para sempre.
Mesmo que o amor permaneça intacto, no fundo de uma memória que ainda pulsa.
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
25 janeiro 2022
O QUE NÃO MORRE, MAS NÃO VIVE (Versão narrativa)
19 janeiro 2022
RECOMEÇO EM TRÂNSITO
RECOMEÇO EM TRÂNSITO
fiquei
ali
entre o motor desligado
e a vontade de desaparecer
a cidade
não me esperava
as pessoas
atravessavam a rua como se soubessem
pra onde iam
eu, não.
havia uma
pausa em mim
um semáforo interno piscando amarelo
há dias
me pedindo cautela
me impedindo o passo
pensei em
você
e no tempo que pediu
como quem pede troco
e vai embora antes de receber
quis
voltar pra casa
mas onde é isso
se a casa era você?
meus
olhos seguiram a pressa dos outros
mas meus ombros afundaram no banco
como quem sabe
que certas dores
só aliviam quando
alguém volta.
e você
não voltou.
01 janeiro 2022
VERÍDICO
VERÍDICO
O corpo dói, os olhos pesam
A cama é fria, o pensamento, cinzento.
O relógio insiste e o dedo desliza no controle da TV.
São tantas as horas
Que neblinam as vidraças cerradas
Insistindo em não valorizar o desperdício
Do sono que não vem.
Na cabeceira o telefone estrídulo
Me remete ao mundo do real e
Realizo a façanha de adivinhar
Quem acabou de ligar.
Grito seu nome em vez de dizer “alô”.
E sua voz macia do outro lado
Diz simplesmente:
“perdoa?”
Espera a resposta e diz:
“então abra a porta
estou aqui embaixo”
Ruínas Íntimas
Pontes desabam sob meus pés,
como cadafalsos da alma.
A travessia interrompida,
o abismo escancarado,
onde a esperança se espatifa
em destroços e silêncio.
Cada passo tentado,
uma nova ruína a surgir.
Os pilares da fé, corroídos,
cedem ao peso invisível
da angústia e da incerteza.
O corpo cambaleia na borda,
o olhar perdido no vão.
As promessas de outrora,
agora fantasmas pálidos,
pairam sobre a cratera.
E no lugar da passagem segura,
apenas a memória da travessia,
um eco distante de um tempo
em que os caminhos se abriam
sem a ameaça constante da queda,
sem a fria constatação
de que o chão pode sumir
sob o peso dos próprios passos.
12 novembro 2021
A MÁQUINA DA ESPERA
A Máquina da Espera
Já não se
trata mais de "se",
mas de "como".
O tempo, que sempre foi prisão e mistério,
agora se oferece como trilha —
invisível, mas mapeada
pelas equações de quem ousa sonhar com o impossível.
Michio
Kaku, com seus olhos de futuro,
diz que não é mais ficção:
é engenharia.
A mesma que nos levou ao céu,
que pousou o homem na lua,
agora sussurra ao ouvido dos séculos:
"prepara-te, relógio, tua prisão vai ruir."
Buracos
de minhoca, campos quânticos,
curvas da relatividade —
são os novos ventos nas velas de um barco
que navega não no mar,
mas na própria estrutura do espaço.
Falta-nos
energia, dizem.
Mas quando foi que a falta
impediu o voo?
Quando foi que o medo
venceu o fogo da invenção?
A viagem
no tempo talvez ainda more
nos laboratórios do pensamento,
mas o tempo —
o próprio tempo —
já se pergunta
quanto falta
para ser atravessado
não por sonhos,
mas por passos.
19 outubro 2021
AMIGO DO REI
Amigo do Rei
O protocolo me sufoca, a
seda, um peso na pele.
Sorrisos calculados, ecos
vazios naquela sala de espelhos.
Eles falam de poder, de
guerras e de fortunas,
enquanto eu observo a
poeira dançar nos raios de sol furtivos.
Eu também sou amigo do
rei, dizem. Mas a amizade se resume
a um aperto de mão frio, a
um nó na garganta,
a uma palavra seca, solta
no labirinto de seus desejos.
Meu reino é a sombra que
se estende além dos muros,
a solidão que floresce no
jardim negligenciado.
A amizade que ofereço é a
da escuta atenta,
o silêncio que acolhe o
peso de uma coroa.
Não preciso de banquetes,
nem de joias cintilantes.
Minha lealdade reside no
olhar que desvenda a máscara,
na compreensão que não
julga, na palavra não dita
que ecoa mais forte que os
cânones e os hinos reais.
Eu sou o amigo invisível,
o reflexo no espelho quebrado,
a lembrança silenciosa da
humanidade que se esconde
sob o brilho opressor do
ouro e do cetro.
Eu também sou amigo do
rei, em minha própria maneira,
e isso, talvez, seja a
verdadeira realeza.
08 setembro 2021
DEPOIS DA EUFORIA
Depois da Euforia
O eco dos tambores ainda paira,
mesmo quando a praça já dorme.
Pisaram os confetes com pressa,
mas o vazio ficou de mãos dadas comigo.
As ruas gritavam cor, mas meus olhos,
abafados por tanta promessa,
viam apenas o chão —
molhado, brilhante de sobras.
Dancei com a multidão sem ser notado,
fui mais máscara do que rosto,
mais silêncio do que canto,
mais ausência do que desejo.
No rastro das serpentinas, busquei sentido,
mas só encontrei retalhos de mim mesmo
perdidos entre trios, brilhos e o som
de algo que prometia ser alegria.
E quando veio a quarta-feira,
não houve cinzas —
houve um espelho.
E nele, o meu cansaço vestido de festa.
Carnaval e o Sentido
O eco dos tambores atravessava os séculos,
como se a alegria pudesse justificar o tempo.
Mas eu, partícula hesitante da massa,
perguntava: quem sou entre mil rostos?
As serpentinas cortavam o céu como perguntas,
sutilezas coloridas num mundo que afunda.
O samba, tão vibrante, deslizava no asfalto,
mas em mim era abismo que não sabia dançar.
Entre máscaras sorridentes e passos precisos,
fui o intervalo, o sem-nome, o intervalo.
Porque quem grita com todos
é também quem escuta a si mesmo com medo.
A euforia dos outros me atravessou
sem jamais me pertencer.
O sentido escorregava como serpentina molhada
entre os dedos da consciência desperta.
E quando a quarta-feira chegou,
não foi fim, nem recomeço.
Foi só mais uma pergunta,
silenciosa e eterna:
vale mesmo a pena fugir de si
em nome de um instante brilhante?
Carnaval e o Sentido (continuação)
As ruas, tão cheias de passos e batuques,
ficaram desertas quando o som cessou.
Mas o vazio — esse não partiu.
Ele sentou-se ao meu lado, sem pedir licença.
Vi sorrisos sendo desfeitos no espelho do metrô,
fantasias esquecidas nos cantos da calçada,
e pensei: será que também eu fui inventado?
Será que minha alegria era só reflexo?
No fundo do peito, uma vontade de crer,
de que algo, talvez pequeno,
tivesse sido real naquela dança.
Mas o real é duro, e nem sempre dança.
E se a festa é um disfarce coletivo,
será a solidão o único nome sincero?
Ou será que no meio da multidão
a alma apenas cochila, à espera de um toque?
Porque o corpo pode pular, girar, cantar,
mas há perguntas que pulsam em silêncio:
Por que o riso exige tanto esforço?
E por que o silêncio é tão pesado depois?
.
09 julho 2021
SE TIVER... EU PREFIRO
SE TIVER... EU PREFIRO
Se tiver poentes alaranjados
mostrando os namoros enlaçados
do vermelho com o amarelo,
raios de sol colorindo o fim do dia ,
viagem nos segredos das noites logo após o entardecer,
eu prefiro.
Se tiver momentos de ver o sol
desaparecendo nas águas do mar,
ainda que eu não more por perto,
de perceber promessas, e adivinhar saudades,
e evocar prazeres por sentir que isso é bom,
também.
Se tiver macarronada com sabor de domingo,
com pedaços de queijo parmesão e molho,
e puder ser família
e recolher todos os cacos de sonhos em mim,
desses que sempre quis ter, tive, mas não retive,
por quebradiços que foram,
eu prefiro.
Se tiver condições de espalhar pelas estantes
os DVDs de shows que quisera assistir ao vivo,
e assisti-los ao lado do meu filho,
e batucar ao som de Maria Rita,
e isso me encher de orgulho desmedido,
também.
Se tiver amor que exija minha dedicação
e respeito ao próprio amor,
que é pra ser respeitado
para construir parceria de amizade
e amor com carinho
e sentir gosto pelo inusitado momento de descobrir-se,
eu prefiro.
Se tiver silêncios que permitam ouvir Paul Mauriat
em vinil na antiga vitrola,
e correr o risco de tornar-me saudoso despretensioso,
e até cair na pieguice das manias de depressão,
também.
Se tiver momentos de pensar e ler
e fazer poesias inocentes sem preocupação com as rimas,
momentos de ouvir melodias de Caetano em Quarteto em Cy,
e pensar na alma das melodias a traduzirem pensamentos
e situações, e sonhos, e lembranças, e desejos e projetos,
eu prefiro.
Se tiver olhares de promessas
e bocas de se calarem para se fazerem ouvir,
e perceber nos olhos os sorrisos,
os segredos, os mistérios,
e confiar nos convites,
nos arrepios e nas carícias que se fizerem acompanhar do afeto,
também.
Se tiver amigo de hoje com jeito dos amigos de ontem,
por serem sinceros,
e tê-los ao meu lado,
sabendo-os, todos, poetas apaixonados de longa data
a dividirem comigo as alegrias de sermos todos sonhadores,
eu prefiro.
Se tiver amor que forme trincheiras e ocupe meus territórios
que imploram serem conquistados,
e percebê-los apaziguados
na guerra do descobrir-se sem paixões extremistas,
transformando explosões do querer
em loucuras invasoras de felicidade,
também.
Se tiver culto à serotonina por sentir prazer
em todo o ser
espalhando-se por todo o corpo de ânsias,
adrenalina percebida nos sentidos
que são lidos em minhas entrelinhas
e nas estrofes declaradas
desses versos eloqüentes de amor,
eu prefiro.
Se tiver pequena floresta
onde se possam colecionar
pequenas folhas e verem pequenos insetos pastando,
e perceber águas rolando em som de pequenas cachoeiras,
ainda que apenas em pequenos filetes
também.
Se puder ouvir canários, curiós à solta
e beija-flores em rendas
ao se mostrarem em beijos molhados
nas corolas amarelas das flores;
apaziguar os sentidos da visão,
da audição e do tato
por perceber a natureza à roda,
eu prefiro.
Se tiver palavras de duplo sentido
que denotem sedução e paixão que se fizerem sinceras,
e conversas pra se chegar ao acordo do extasiar-se
acampando perto do prazer
com barracas levantadas
no quintal do entendimento mútuo
que não se fizer prematuro, mas maduro,
também.
Se tiver longas tardes de verão e o sol molhar o meu rosto,
em prenúncio de riso largo e preciso;
sorrisos abertos ao vento que é brisa fresca e silenciosa
a silenciar as chuvas que formarão torrentes amareladas
em marrons de terra sobre a Terra
que nos brinde com todos os outonos de frutas,
eu prefiro.
Se tiver sons de Leila Pinheiro
em decibéis agradáveis aos ouvidos,
e muitas outras coisas que se vive
aos companheirismos das amizades e amores;
e proteção por presença que é presente no presente
para ganhar a maturidade de não tropeçar em decadentes
mutismos e timidez,
também.
Se tiver chance de recomeçar
como houvera de ter começado
por ser direito que não se aliena;
de fazer a história retroceder e,
qual ampulheta que recomeça do zero,
recomeçar do zero a história da vida que vivo
e que precisa ser repartida,
eu prefiro.
Se tiver, eu prefiro.
27 junho 2021
O VENTO DO NÃO-COISA
O Vento na Não-Coisa
Há um sussurro que não tem boca,
uma cor que a retina não capta.
No avesso do tempo, um som sem fonte
desfia o fio que não existiu.
Sou o homem que vê o que não se mostra,
o que sente o peso do leve.
As palavras se desfazem na língua
antes de formarem sentido,
escorrem como areia por fendas
que não se abrem.
Há um mapa sem linhas,
um caminho que começa no fim
e termina no nunca.
Flutuam objetos sem nome
no espaço entre os pensamentos,
um cheiro de ausência,
o toque frio do imaterial.
E em cada pulso que não marca a hora,
mora o inexplicável,
a verdade nua do que não se compreende.
É a melodia de um silêncio infinito,
o reflexo de um rosto que não vejo,
o gosto da lembrança que nunca foi.
E eu, apenas eu,
observo a dança da não-coisa,
e nela, um sentido que me escapa,
mas que me habita por inteiro.
19 junho 2021
NADA É SÓ O QUE PARECE
Nada é Só o Que Parece
A névoa se deita sobre a paisagem
e o que era chão vira nuvem,
o que era árvore, fantasma.
Meus olhos traem a certeza.
Cada sombra um desenho,
cada luz uma mentira velada,
e a mente, tecelã de enganos,
costura mundos
onde o sólido é fumaça,
e o espelho, um portal.
O reflexo não me devolve
o rosto que sei,
mas uma máscara fluida,
feita de perguntas.
Onde reside o verdadeiro,
se a pele do mundo
muda a cada piscar?
Busco a essência além do visível,
na fissura do pensamento,
na voz que sussurra
que toda solidez é um acordo frágil,
que o real se esconde
no avesso do óbvio.
E então, percebo:
a confusão não está fora,
mas na lente com que vejo.
Tudo é um jogo de ilusões,
e talvez, a única verdade,
seja a busca incessante
pelo que nunca, de fato, é.
24 maio 2021
GUARDEI SEU LINK NO CORAÇÃO
Guardei seu link no coração
Não foi numa aba do navegador,
nem num bloco de notas perdido.
Guardei teu link
no canto esquerdo do peito,
entre um sopro e outro,
onde pulsa o que não se explica.
Não salvei no histórico —
salvei na história.
Com letra miúda,
mas sentimento alto.
Teu endereço ficou
impresso na pele da memória,
como um atalho secreto
pra quando tudo for silêncio.
E se o mundo cair da conexão,
ainda assim te encontro
no lugar onde a tecnologia falha
e a lembrança começa.
no coração.
Lá não tem vírus,
só versos.
E o clique é interno.
GUARDEI SEU LINK NO CORAÇÃO
Guardei seu link no coração
Não foi numa aba
do navegador,
nem num bloco de notas perdido.
Guardei teu link
no canto esquerdo do peito,
entre um sopro e outro,
onde pulsa o que não se explica.
Não salvei no
histórico —
salvei na história.
Com letra miúda,
mas sentimento alto.
Teu endereço ficou
impresso na pele da memória,
como um atalho secreto
pra quando tudo for silêncio.
E se o mundo cair
da conexão,
ainda assim te encontro
no lugar onde a tecnologia falha
e a lembrança começa.
no coração.
Lá não tem vírus,
só versos.
E o clique é interno.
FIZ BACKUP DO QUE SENTI
Fiz backup do que senti
Antes que
apagasse,
fiz backup do que senti.
Copiei teu riso
pra uma pasta segura,
salvei teu olhar em nuvem,
nomeei como “inesquecível_final_versão”.
Desconfio dos
sistemas,
mas confiei no instante:
aquele em que tua presença
parecia carregar todos os megabytes da ternura.
Não deixei que
deletassem.
Mesmo que tu saísses do frame,
mesmo que mudassem o código.
Criei senhas em
metáforas,
formatei a saudade em poema,
e instalei um antivírus
contra tudo que tentasse reescrever
o que fomos.
Agora, se
quiseres saber,
ainda estás lá —
entre os arquivos ocultos do toque,
nas configurações avançadas da lembrança.
Fiz backup do que
senti.
E ainda acesso,
mesmo off-line.
22 maio 2021
VENTO ENTRE PRÉDIOS
Vento entre Prédios
escapo
pelo vão
onde o concreto se dobra
e o vento sussurra histórias
que o cimento esqueceu
ele dança
leve,
quase invisível
entre muros altos
que tentam calar o céu
carrega o
cheiro da chuva
o eco dos passos apressados
e leva embora o calor
que a cidade tenta prender
no vento
entre prédios
encontro liberdade
mesmo cercado de aço,
me sinto um pássaro
que aprende a voar no silêncio
e assim,
respiro fundo
e deixo que o vento leve
o que não preciso guardar
NO SINAL VERMELHO DO DESTINO
No Sinal Vermelho do Destino
Parei no
tempo
num instante suspenso
onde o mundo hesita
antes do próximo passo
o sinal
vermelho
não é só cor
é uma pausa
entre o querer e o ser
é o
silêncio que grita
na espera impaciente
um convite para olhar
para dentro
ali, no
meio da rua
entre buzinas e sonhos
aprendi que o destino
não é linha reta
é curva,
é breque
é escolha feita
no compasso da espera
sei que caminho —
porque a vida acontece
no entretempo
LUZES DE CONCRETO
Luzes de Concreto
A cidade
acende
antes do sol sumir
como quem tem medo
do escuro de si mesma
faróis
piscam como corações
em estado de urgência
e as janelas brilham
feito promessas adiadas
há beleza
no aço que respira
na pressa que também ama
nos passos que se cruzam
sem saber os nomes
sou feito
de calçadas
que ouviram confissões
e de postes que vigiaram
minhas noites mais densas
mas mesmo
entre muros
e buzinas e fumaça
a vida insiste
em florescer rachaduras
as luzes
de concreto
não aquecem a pele
mas acendem
alguma fé
de que ainda é possível
NO SINAL VERMELHO DO DESTINO
No Sinal Vermelho do Destino
Parei no tempo
num instante suspenso
onde o mundo hesita
antes do próximo passo
o sinal vermelho
não é só cor
é uma pausa
entre o querer e o ser
é o silêncio que grita
na espera impaciente
um convite para olhar
para dentro
ali, no meio da rua
entre buzinas e sonhos
aprendi que o destino
não é linha reta
é curva, é breque
é escolha feita
no compasso da espera
sei que caminho —
porque a vida acontece
no entretempo
20 maio 2021
LUZES DE CONCRETO
Luzes de Concreto
A cidade acende
antes do sol sumir
como quem tem medo
do escuro de si mesma
faróis piscam como corações
em estado de urgência
e as janelas brilham
feito promessas adiadas
há beleza
no aço que respira
na pressa que também ama
nos passos que se cruzam
sem saber os nomes
sou feito de calçadas
que ouviram confissões
e de postes que vigiaram
minhas noites mais densas
mas mesmo entre muros
e buzinas e fumaça
a vida insiste
em florescer rachaduras
as luzes de concreto
não aquecem a pele
mas acendem
alguma fé
de que ainda é possível
09 maio 2021
VEM
VEM
e a timidez se fez presente,
a te deixar envergonhada
por estar diante das lentes
do meu cristalino,
que desnudavam tuas curvas
enquanto minhas mãos desprendiam,
de teus ombros, as alças
do vestido de algodãozinho.
não parecias saber o que fazer,
o que dizer,
a não ser o natural fechar de pernas,
cobrir os seios com as mãos
e deixar-se submissa,
ser acariciada.
a pele,
porém,
denunciava o desejo quase incontido
de dar-se,
para que corpo se confundisse
com corpo,
para que os movimentos
eternizassem o momento.
costas apoiadas nos lençóis,
olhos semicerrados,
a divisar-me na chegança do bem —
e nada podias dizer
mais lindo e sublime
que o teu desajeitado:
vem.
VEM
VEM
e a
timidez se fez presente,
a te deixar envergonhada
por estar diante das lentes
do meu cristalino,
que desnudavam tuas curvas
enquanto minhas mãos desprendiam,
de teus ombros, as alças
do vestido de algodãozinho.
não
parecias saber o que fazer,
o que dizer,
a não ser o natural fechar de pernas,
cobrir os seios com as mãos
e deixar-se submissa,
ser acariciada.
a pele,
porém,
denunciava o desejo quase incontido
de dar-se,
para que corpo se confundisse
com corpo,
para que os movimentos
eternizassem o momento.
costas
apoiadas nos lençóis,
olhos semicerrados,
a divisar-me na chegança do bem —
e nada podias dizer
mais lindo e sublime
que o teu desajeitado:
vem.
16 janeiro 2021
EU NÃO SABIA
EU NÃO SABIA QUE SERIA ASSIM
Essa tristeza. Não é o frio repentino do susto, nem a pontada aguda da dor. É um peso. Morno. Instalado bem no centro do peito.
Não aperta, não sufoca de repente. Apenas está lá. Como uma pedra lisa aquecida pelo sol, mas que nunca arrefece.
É uma sombra. Mas não a sombra que se alonga ao entardecer, ou que desaparece ao meio-dia.
Essa sombra não se move. Quando a luz do sol gira, quando as lâmpadas se acendem, quando o dia vira noite, ela permanece no mesmo lugar.
Fixa. Ancorada em mim.
Não é o reflexo de algo externo, não é projetada por um obstáculo visível. É a sombra da minha própria paisagem interna, projetada para dentro.
Um peso morno. Uma sombra imóvel. No centro do peito. A tristeza que não sai, que não muda com a luz, apenas habita, silenciosamente, constantemente, em mim.
