09 março 2010

PRESENTE




Enquanto és linda:
eu me proponho a descansar
(em mim)
minhas cicatrizes:
pelos tantos deslizes
de vida
de fantasias
de vazias madrugadas frias
que me envolveram
em desoladas tentativas
de conquista.

já nos preparávamos para começar
amores possíveis
perguntas plausíveis
cansaços pós-balanços de lençóis de puro algodão
(que deveriam ser brancos).

e em nós despertos
memórias enredadas
em busca de casos que chegassem às comparações.

haveríamos de nos contentar
com novas e espantosas descobertas:
não havíamos ainda vivido o suficiente
para encararmos de vez a felicidade
(até aquele presente momento)
por isso nos buscávamos
às pressas descabidas
aos supetões desenfreados
às poesias amarelecidas
às indagações repartidas
aos cânticos e cantos
aos trancos e barrancos.
suposto reencontro humano?

.
.
Vicente
.
.
.

LAVAR CACHORRO É BOM



calei-me a boca
e não fiz qualquer favor
porque vivia a falar de sonhos
através de metáforas
um dentro do outro
o sonho dentro da metáfora
(e vice-versa)
em círculos
em ondas de círculos
dos menores até os imensos.

calei-me
porque não quis quedar-me ao óbvio
porque falava de desejos
de ter alguém
para amar
ser amado
compartilhar
coisas
e (até) contas
lavar cachorro aos domingos
(que eu sempre detestei)
e levar lixo lá embaixo
sem precisar justificar qualquer coisa
que não fizesse parte da beleza do amor.

calei-me
para perceber
que sonhos são sempre sonhos
pois são mutuamente excludentes
por melhores que sejam
por mais necessários
que possam parecer
porque minha maior loucura
era falar de sonhos
quando já não é época de se sonhar
mais.
.
.
.
Vicente
.
.
.

08 março 2010

ACALMA




Enquanto és linda:
eu me proponho a descansar
(em mim)
minhas cicatrizes:
pelos tantos deslizes
de vida
de fantasias
de vazias madrugadas frias
que me envolveram
em desoladas tentativas
de conquista.

já nos preparávamos para começar
amores possíveis
perguntas plausíveis
cansaços pós-balanços de lençóis de puro algodão
(que deveriam ser brancos).

e em nós despertos
memórias enredadas
em busca de casos que chegassem às comparações.

haveríamos de nos contentar
com novas e espantosas descobertas:
não havíamos ainda vivido o suficiente
para encararmos de vez a felicidade
(até aquele presente momento)
por isso nos buscávamos
às pressas descabidas
aos supetões desenfreados
às poesias amarelecidas
às indagações repartidas
aos cânticos e cantos
aos trancos e barrancos.
suposto reencontro humano?

.
.
Vicente
.
. Reescrito em 27/06/2014 - 22:15
.

01 março 2010

GUERREIRAS



Guerreiras


teu olhar me pareceu cansado
de quem viveu oito anos a mais
e compreendeu a vida
além das rampas da faculdade
além das encomendas apressadas
de qualquer seção
ou departamento de compras
ou idiomas estranhos.

a menina
magrela
virou moça bonita.
a moça virou mulher.
a mulher virou musa.

as meninas também choram.
também são
guerreiras
meninas.
as meninas.
.
.
.
Vicente
.
.
"...Vou caçar luares
Namorar nuvens e abraçar o mar...
Eu vou ali
Vou beber da tarde preguiçosa
Beijar a noite estrelada
Sonhar acordada
Depois eu volto
Eu sempre volto!"
 (Claudinha )

.
.

23 fevereiro 2010

DEZEMBRO AMARGO


porque era dezembro
e eu te procurei
em ânsias de encontrar
e te percebi sorrindo
e te encontrei cantando
e te achei amando.

e era dezembro mesmo
daqueles de receber presentes
e partilhar presenças
e recolher lembranças
e mascarar tristezas.

e por ser dezembro
te recebi ainda
como jamais ousara adivinhar-te
nem supusera encontrar-te
assim linda
como uma sinfonia de Beethoven
como um solo de piston
como uma tela de Rembrandt.

e por ser dezembro
desmascarei meus medos
afugentei meus fantasmas
acorrentei minhas dúvidas
e não voltei
às minhas viagens atlânticas
nem às amazônicas.

e porque era dezembro
não arrisquei
sequer
um pequeno choro
nem um singelo post
nem um ilícito
nem um
esperado
doce.
.
.
Vicente
.
.
“E tuas lembranças me trazem lágrimas,
assim como as lágrimas me trazem tuas lembranças.”

(Esyath Barret)
.
.

15 janeiro 2010

CORRENDO EM CÍRCULOS

 Correndo em Círculos

 

O caminho se repete,

o mesmo passo, a mesma pedra,

embora o cenário mude

no labirinto da cabeça.

 

As ideias voltam,

ecos de ecos,

perguntas antigas

sempre à tona,

uma fita rebobinando

o que nunca teve fim.

 

É o tic-tac da dúvida

que não se cala,

o compasso do ser

preso em sua própria jaula

de vidro transparente,

onde a saída é sempre a entrada.

 

Canso de girar em torno do mesmo,

de buscar o nó

que desata a alma,

mas encontro apenas o começo

de um novo e idêntico amanhecer.

 

E neste eterno retorno,

a única certeza

é o movimento circular,

a infinita dança

que me leva de volta

ao ponto exato

onde nunca estive.



Vicente Siqueira  - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 



20 outubro 2009

O HORIZONTE SE DOBROU

 

O Horizonte se Dobrou

 

Eu vivia num mapa de impossíveis,

Cada "não" era um limite traçado a ferro.

Sonhos guardados em caixas empoeiradas,

Porque o mundo dizia: "Não há como."

O azul do céu era só uma pintura,

Intocável, inatingível.

 

Até que você surgiu.

E não veio com chaves ou com fórmulas mágicas,

Mas com um olhar que desconstruiu a lógica.

De repente, a gravidade parecia bobagem,

As barreiras, meras linhas no chão.

 

Você trouxe um vento de outras paragens,

Soprando a poeira dos meus "nunca".

Aquele futuro que era só quimera,

Se fez presente, palpável, real.

O que era "impossível" virou um convite,

Um "vamos lá, a gente tenta e consegue."

 

Era como se o horizonte se dobrasse ao seu passo,

E as estrelas descessem para nos guiar.

Você não fez o milagre, você era o milagre,

Transformando o inalcançável em caminho.

O antes-era-não virou um sim vibrante,

O antes-era-sonho, agora é nossa história.

 

Com você, o mundo se abriu em possibilidades,

E o impossível deixou de ser palavra,

Para virar a realidade que a gente vive.

Uma prova de que a luz certa

Pode redesenhar qualquer destino.

09 setembro 2009

VONTADE DO RISO


Havia a vontade do riso quando a madrugada acariciava mansamente a noite. A moça. E o moço. Pulsações nos poros das estrelas que se comunicavam. Todas as conexões levavam a uma  brecha nos mistérios. Não sentiam transeuntes, não escondiam desejos. Fuçavam histórias desconexas que sobre eles se esparramavam desde longínquos idos. Muitas entrelinhas insuspeitas. Revelações de lado a lado. Imperceptíveis sinuosidades do tempo. E Ele lá.
  Coisas bonitas de se ouvir, de se lembrar, de se falar, de se desejar. Um pouco/muito sem rumo, sem programação, sem propósitos (também não havia o despropósito), sem meias-intenções, sem más-intenções.
Quase uma festa para os sentidos, quase um sonho para a pele, quase um roçar de lábios, um estreitar de línguas, um tocar de dentes, um apertar de mãos (e também tinha: pés, braços, pernas, e tudo o mais que se pode e se deve tocar). E os afagos tinham uma candura quase infantil, mas também uma vertigem alucinada que pedia o bailar fantástico de memórias que se reatam em lembranças conexas. E Ele lá.
A noite já vai pra lá de alta quando Ele resolve interferir em um ou dois destinos. Lança luz sobre a escuridão. Modifica estruturas. Abre olhos. E se faz entender. Mostra que ali, naquelas histórias, Ele tocou. Que ali tem as marcas do Seu dedo. Reclama de volta a posse sobre sua propriedade exclusiva e diz: são escolhidos meus. Foram separados para falar da glória do meu grande nome.
E assim, por tempos e tempos, falou-se de tudo. Falou-se de leite condensado. Pudim de leite. Família. Táxi. Igreja. Oração. Palavra. Bíblia. Cunhado. Sobrinho. Malhação. Suíça. E outras mil novecentos e poucas coisas que versam sobre o tudo e sobre o nada. Também tem constelação (que é motivo mais que suficiente para se conversar por horas, se preciso).
Assim seguiu o dia grávido de luz.
E aquela poesia, que para mim, muitas vezes era a única companhia, por ser colo e canção de ninar, renovou-se em carinho e afago do ego para mostrar que almas gêmeas existem. Ou, se quiser ser contrário: metsixe saemêg samla.

14 julho 2009

O MEU AVESSO SUAVE

O Meu Avesso Suave

 

Eu sou uma distorção gentil de mim mesmo.

Não o que fui, nem o que serei em linhas retas,

mas a curva inesperada,

o reflexo que a água turva me devolve.

 

Não há ruptura violenta,

nem o peso de uma máscara.

Apenas um desvio suave,

uma lente que me reconfigura

com carinho.

 

Sou o estranho familiar,

o conhecido com um novo tom,

o eco da minha voz que agora

canta uma melodia diferente.

 

E nessa alteridade de mim,

há uma verdade mais profunda.

Porque a gentileza da distorção

permite que eu me veja

sem o rigor do original,

e me aceite, leve,

no que me tornei.


22 maio 2009

LUZ ENTRE SOMBRAS

 

 


Luz entre Sombras

Na penumbra da vida,
onde os medos se escondem,
uma faísca brilha,
como um farol no escuro.

As sombras dançam,
jogando formas no chão,
mas a luz que emana
é um lembrete de que há sempre um caminho.

Nos sussurros da noite,
ouço o canto da esperança,
uma melodia suave que ecoa,
desafiando a escuridão.

Cada raio que atravessa a neblina
é um convite para olhar além,
para encontrar beleza nas fissuras,
onde o brilho se torna um abrigo.

Assim seguimos, entre altos e baixos,
navegando as incertezas do ser,
sabendo que mesmo nas horas mais densas,
a luz pode surgir onde menos se espera.

E quando o sol desponta no horizonte,
as sombras se dissipam em cores vivas,
nos lembrando que a vida é feita de contrastes,
e que a luz sempre encontrará seu lugar.

TEXTURAS QUE FALAM

 


Texturas que Falam

Na superfície do mundo,
cada textura é um relato,
a casca rugosa da árvore,
um diário de intempéries e tempo.

O liso do vidro reflete,
capturando momentos em movimento,
enquanto a pedra fria e áspera
carrega a memória das eras.

As folhas secas sob os pés,
um crepitar que conta histórias,
de verões quentes e chuvas de outono,
de ciclos que nunca se encerram.

E na suavidade do algodão,
o abraço de um lar acolhedor,
cada fibra entrelaçada com carinho,
um sussurro de amor em cada costura.

As texturas falam em silêncio,
com vozes que ecoam no coração,
nos convidando a tocar e sentir,
a mergulhar nas narrativas do ser.

Assim seguimos, explorando o mundo,
com as mãos abertas e os olhos atentos,
porque nas texturas que encontramos,
há sempre uma história à espera de ser ouvida.

Se Tiver, Eu Prefiro

 

Se Tiver, Eu Prefiro

Um café quentinho pela manhã,
Sorrisos compartilhados na esquina,
O cheiro de pão fresco saindo do forno.

Nessa esquina, a vida se desenrola...

 Nessa esquina, a vida se desenrola...

Um palco vibrante, cheio de rostos.
Um milhão de histórias fluem,
Cada uma única, cada uma pulsante,
Destinos entrelaçados no cotidiano,
Movimentos sutis de esperanças e sonhos.

09 abril 2009

PONTO PRAS MENINAS




não quis falar
nem sequer pensei no que havia
pra te dizer
porque ainda não sabia como
nem o que dizer.
tenho isso comigo
é meu jeito
é meu modo de ser
de intercalar tagarelices
com longos silêncios.


ouvi de mim os segredos que ousara sonhar
na mais crescente confusão de sentidos
como em qualquer outro momento
mas não compartilhei as idéias
só as sedes e fomes dos amores
das irisadas ilusões mais ousadas
(que não ousara revelar)
por isso me calei
por isso me retirei.


e minhas idéias quedaram-se como estradas
de uma via só
de ida sem vinda
como vontades sorrateiras
que preferi ocultar
como monólogo recitado
no mais completo ermo
para não se espalhar.

agora aplaudo minha decisão
de voltar
porque te conheci
tão cálida
tão sentida a beijos e doces
igualzinha ao que eras
mas
muito
muito melhor.
.
.
.
Vicente
.
.
"Às vezes as pessoas tomam algumas atitudes e não tem noção do que isso pode gerar nas outras, as consequências podem ser desastrosas, geram dor e tristeza ..."
Andreia Vask
.
.

07 abril 2009

A MELODIA SILENCIOSA DA SAUDADE

 

A Melodia Silenciosa da Saudade

Eu me sento na janela,

o vapor da xícara de chá

desenhando formas no ar frio da manhã.

Lá fora, a cidade desperta sem pressa,

seus ruídos abafados

pela distância e pela névoa.

E em mim, uma melodia,

silenciosa e persistente,

começa a tocar.

 

Não é uma canção triste,

não exatamente.

É mais como o eco de passos em um corredor vazio,

a lembrança do calor de uma mão que já não sinto.

É a saudade,

com seus dedos invisíveis,

tocando as cordas da minha memória,

despertando rostos, risos,

palavras ditas em outros tempos.

 

Eu fecho os olhos

e as imagens vêm como flashes,

rápidas e nítidas.

Aquele dia na praia, o cheiro de sal.

A conversa de madrugada, a cumplicidade no olhar.

Pequenos fragmentos que se juntam,

formando um mosaico

do que foi e do que permanece,

mesmo na ausência.

 

A garganta aperta um pouco,

mas não há lágrimas.

É uma doçura amarga, essa saudade.

Ela me lembra da riqueza

do que já vivi,

das pessoas que cruzaram meu caminho

e deixaram suas marcas em mim.

É o presente que o passado me oferece,

um tesouro invisível

que guardo dentro do peito.

 

Eu abro os olhos novamente,

o chá agora morno.

O mundo lá fora continua seu ritmo,

indiferente à minha melodia interna.

Mas eu sei que ela está ali,

essa canção que só eu ouço,

e que, de alguma forma,

me faz sentir mais vivo,

mais humano,

mais conectado

à vastidão do que fui

e ao que ainda sou.

30 março 2009

MEMÓRIA DE PRIMEIROS VERSOS

 

Memória de Primeiros Versos

Uma lousa.
Dois sorrisos.
Três poemas na mesma folha.
Trocávamos papéis como quem entrega segredos.

Ela escrevia com perfume nas palavras.
Eu respondia com mãos suadas.
Tudo começava ali.

Agora, tudo parece longe,
mas a lembrança reaparece inteira
num segundo
em que ela me olha e desvia.

QUANDO TUDO COMEÇOU A PARTIR

 

Quando Tudo Começou a Partir

Foi um silêncio longo,
mas nenhum dos dois o nomeou.
Ela ficou ausente aos poucos.
Eu fui ficando inteiro demais — e pesado.

No último encontro do grupo,
ela não leu nada.
Eu li demais.

E ninguém entendeu.
Mas eu soube ali:
ela já havia partido.

14 março 2009

ACHADOS E PERDIDOS - GONZAGUINHA

MÚSICA
Artista: Gonzaguinha

Quem me dirá onde está
Aquele moço Fulano de Tal
(Filho, marido, irmão, namorado,
que não voltou mais)
Insiste o anúncio nas folhas
dos nossos jornais:
Achados, perdidos, morridos,
Saudades demais.

Mas eu pergunto e a resposta
é que ninguém sabe
ninguém nunca viu
Só sei que não sei
quão sumido ele foi
Sei é que ele sumiu

E quem souber algo
Acerca do seu paradeiro:
Beco das Liberdades
Estreita e esquecida
uma pequena marginal
dessa imensa Avenida Brasil.
.
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