31 dezembro 2025

GRAVIDADE PESSOAL

 Gravidade Pessoal

 

Eu sou o fardo.

Não o que carrego,

mas o que pesa

em cada passo,

em cada pensamento.

 

Neste mundo,

onde a leveza é buscada,

sou a âncora,

o peso intrínseco

da minha própria existência.

 

Não é culpa,

nem castigo.

É a constituição de ser,

a matéria densa que me compõe,

o arrasto invisível

em meu próprio caminho.

 

Sou a paisagem e o caminhante,

o ar e a resistência que ele impõe.

O eco da minha própria presença,

a gravidade que me mantém

aqui,

neste meu mundo.


Vicente Siqueira

30 dezembro 2025

JÁ VI ESSE FILME

Já Vi Esse Filme



Ele se impacientara com o toque do telefone, pois não julgara que fosse tão tarde. O vibra-call do celular, logo acompanhado por aquela luz amarelada indicando chamada, insistia em trazê-lo para a realidade do aqui e do agora. Uma realidade de reações descabidas e emoções póstumas.
Não fosse tão tarde e ele até a chamaria para fazer-lhe companhia. Talvez não. Talvez mudasse de imediato os planos, como já fizera tantas vezes.
O cinema não estava lotado e isso mostrava o quanto o filme não era bom. Era até meio sonolento. Nada de “E o Vento Levou”, mas, também, nada tinha de “O Senhor dos Anéis”. Tratava-se de um desses filminhos feitos às pressas e sem maiores intenções, mas ainda assim ele queria assisti-lo até o final.
De dentro da sua solidão ele espiava seu passado remoto, e se perguntou: até onde houve uso de mão e contra-mão?
Encarava de frente também o seu passado mais recente. Pediu desculpas pela tanta falta de notícias, por ele ter reclamado ao telefone. Seus monstros interiores, adornados de pedrarias de mau gosto e lágrimas, sorriram às pressas para ele com aquele sorriso ácido e decrépito.
Não havia sedução na chamada. Nem na reclamação. A negativa também não escondia outras intenções. Tratava-se apenas de um diálogo. Diálogo pobre de palavras, de efeitos, de resultados.
Algum choro preso, algumas palavras que não podem ser e não foram ditas, e em seguida o silêncio avassalador de linhas interrompidas (não por ter caído, mas por ter sido desligado o aparelho).
Vontades das delicadezas que se encerram como um filme qualquer (afinal, até os bons filmes terminam)

Vicente....
.
.
.
"Alegria compartilhada é dupla alegria, dor compartilhada é meia dor.
(Tiedge)
.

29 dezembro 2025

O LIMIAR DA PRATA

 

O Limiar da Prata

O silêncio é uma arquitetura de madeira e sombra onde o corpo se ancora, mas o pensamento deságua. As costas largas, anteparo entre o ontem e o agora, carregam o peso de quem sabe esperar enquanto a cidade, lá fora, é um organismo que respira luzes elétricas.
O vidro, essa pele fria e embaçada, separa o calor do linho amassado — memória de um toque ou de um cansaço — do hálito vasto da noite. No copo, o uísque é um âmbar estático, uma pequena fogueira líquida capturando o último átomo de ordem.
Então, a lua rompe a geometria do teto. Não é luz, é um chamado cinzelado em prata que atravessa a vidraça e marca o chão, como se o universo estivesse, enfim, apresentando suas credenciais.
O recolhimento é uma casca que começa a trincar. A explosão não vem com estrondo, mas com a percepção de que a moldura da janela é pequena demais para conter o que pulsa. Há um convite mudo na poeira iluminada: a liberdade não é o destino, é o exato momento em que a mão toca o trinco.


Vicente Siqueira

28 dezembro 2025

O ARQUITETO DO AMANHÃ

 

O Arquiteto do Amanhã

 As cicatrizes são mapas de onde eu já estive.

 Erros cometidos, palavras perdidas no vento, 

e escolhas que o tempo já selou com cera quente.

Mas o "agora" é um martelo e o "amanhã" é o mármore. 

O que eu fui é apenas a base do pedestal, não a estátua final que o mundo verá.

O ontem é imutável.

Mas o amanhã é uma tela que eu mesmo preparo.

 Serei a soma do que aprendi, e a subtração do que decidi deixar para trás.





27 dezembro 2025

SILÊNCIO QUE CUTUCA


 SILÊNCIO QUE CUTUCA

 

E havia em mim o eco da ausência

que  se espreguiçava na tarde,

como um toque suave de nada,

um quase um sussurro.

Nada de palavras,

nem melodia,

só a leveza

de um tempo que ainda hoje

se recusa a ser preenchido.

 

E o silêncio me cutuca,

como uma sombra que,

amiga,

insiste em dançar

nos vãos do meu pensamento.

Isso não é vazio,

é um espaço para a respiração da alma,

onde as cores se aquietam

e o mundo se dissolve

em calmaria.

 

A verdade me foi revelada

nesse não-som

onde todas as verdades

se revelam.

O ruído das certezas não são impostas,

mas a melancolia doce de existir,

e a dança invisível do tempo,

em mim não para.


Vicente Siqueira

SE TIVER, EU PREFIRO

 

Se tiver, eu prefiro

 

Prefiro a música baixa no rádio enquanto lavo a louça,

e de repente, uma canção antiga

que me leva para outro tempo, um sorriso leve.

Se tiver, eu prefiro.



Vicente Siqueira


25 dezembro 2025

SEM VOLTA

 

SEM VOLTA

 

nenhum recado

nada de e-mail

ou carta

ou bilhete.

nada que preencha espaços

com letras

ou palavras

ou sinais de fumaça

ou de tambores.

ou repiques agudos

de tarol

ou caixa-de-guerra

nada mesmo

que faça lembrar

as tantas promessas

que surpreendiam

pelas ousadias.

 

que viesse ao menos

um mísero pombo-correio

com uma pequena mensagem

ainda que passageira

ainda que ilusória

ainda que transitória

uma única palavra

que externasse

a vontade de mostrar

a mim

que eu poderia ter esperança

porque todos aqueles momentos

passados

esquecidos

amarelecidos

poderiam

ser revividos.


Vicente Siqueira

24 dezembro 2025

O ALFABETO DO INVISÍVEL

 

O Alfabeto do Invisível

Existem palavras que moram no escuro,
entre o fôlego curto e o verso mudo.
Eu as sinto antes de lhes dar o nome:
são bicho faminto que nunca consome,
são fogo que o dedo tenta tatear,
mas fogem de mim se eu tento explicar.
Às vezes, sou mestre de um reino em silêncio,
onde o que não digo é o meu maior vício.
As letras tilintam, ciranda de vidro,
num baile secreto que habita o meu ouvido.
Sou homem de posses, mas nada me pertence,
se a palavra é onda e a alma não vence.
Escrevo o segredo da onda gigante,
sabendo que o sal é o destino constante.
Mas se o mar me engole e o verbo se perde,
meu peito, no escuro, ainda floresce verde.
Pois depois da espuma, do medo e do rol,
o que resta gravado... é o brilho do Sol.


O ESPELHO RETROVISOR DO VERBO

O Espelho Retrovisor do Verbo


Mergulho a caneta no escuro
não para descrever o que vejo, 
mas para descobrir o que sinto. 
Palavras se organizam na página. 
São ossos lançados ao chão 
por um xamã, 
desenhando geografias 
que meus pés ainda não percorreram 
conscientemente. 


Sou estrangeiro na minha própria frase. 

Mão avançando, 
febril, 
sob um comando que não nasce no córtex, 
nem na lógica, e sim num estrondo mudo
 que vibra no peito. 
A razão senta-se na última fila do teatro, 
e observa, 
atônita, 
o espetáculo das verdades 
que eu não sabia que
possuía. 


Então quando o ponto final repousa, 
pesado como uma âncora no papel, 
é que me volto para a leitura. 

E ali, 
no rastro da tinta ainda fresca, 
reconheço a tempestade que me atravessa. 

O poema não é o relato do que passou; 
é o mapa do agora, 
revelado ao mestre pelo próprio servo que, 
enfim, 
despertou. 


Vicente Siqueira

22 dezembro 2025

O GOSTO DO DESFEITO

 




O Gosto do Desfeito

 

O sabor do que se desfez.

Não é amargo, nem doce.

É a memória nas papilas,

um eco químico na língua da alma.

O resíduo do abraço que se soltou,

do riso que escorreu como areia fina.

 

Uma impressão, um resto,

no fundo da boca do tempo.

Não um gosto que se nomeia fácil,

mas a textura do vazio que sobrou.

Do que foi denso, cheio, presente,

e agora é apenas um rastro,

uma diluição no paladar do que não é mais.

 

É o café que esfriou,

o cheiro da chuva que passou.

A ausência tangível,

um paladar da perda

que não pede lágrimas,

apenas o reconhecimento

de que algo se foi.

E o gosto, ah, o gosto,

permanece.

Um sabor sutil e persistente,

do que se desfez em nós.

21 dezembro 2025

POR ONDE FORES

 



Por Onde Fores

Anda, ainda que a estrada
se esconda entre névoas e dor.
Não temas a sombra ou a dúvida:
contigo caminha o Senhor.

O mundo é vasto e incerto,
mas teu passo é firmado em luz.
Sê forte, sê corajoso —
quem te guia é quem te conduz.

Há mãos que não se veem,
mas sustentam teu caminhar.
Há voz que sussurra firme:
“Não pares, eu vou te guardar.”

Então vai, alma valente,
com esperança no olhar.
Pois por onde fores, sempre,
Deus contigo há de estar.



20 dezembro 2025

O ELO DA TRAVESSIA

 


O Elo da Travessia

 

Faça-se em mim o elo, a ponte viva
Que une o que foi ao que ainda virá.
Não a ruptura, mas a trama que se tece,
Onde o antigo e o novo se encontram e se abraçam.
 
Que em minhas mãos se preserve a sabedoria dos séculos,
O pólen das memórias, a força dos que me antecederam.
E que em meu olhar desponte a aurora do porvir,
A ânsia da descoberta, o voo para o inédito.
 
Sou o tempo presente, o ponto de encontro,
Onde a história se curva e o futuro se inicia.
Que em cada batida do meu peito,
O passado encontre eco e o amanhã, sua melodia.
 
Faça-se em mim a fusão, a alquimia do ser, A tradição que inova, a raiz que se projeta. Que o velho me dê substância e o novo, direção, Para que eu seja a travessia, o constante renascer.

17 dezembro 2025

O OUTRO: ESPELHO INSUPORTÁVEL

 O Outro: Espelho Insuportável

Ela estava ali, sentada à minha frente, na mesa oposta, ou talvez na mesma mesa, separada por um espaço que era um abismo. Uma mulher. Com a inevitabilidade de quem simplesmente existe. Não havia nada de extraordinário nela, nada que saltasse aos olhos para prender o olhar mais do que a passagem fugaz de um transeunte. Mas o que observa em mim, aquele que se assombra com a vida, fixou-se nela com uma intensidade quase dolorosa.

 

Não era a beleza, ou a feiura. Era a existência dela. O simples fato de que ali estava outro ser, uma consciência. E essa consciência, eu sabia, continha universos inteiros, labirintos tão complexos quanto os meus, talvez mais. Ela respirava o mesmo ar rarefeito, sentia a mesma gravidade, mas em seu rosto, nos movimentos sutis de seus olhos que desviavam o olhar, havia um segredo. Um segredo que não era para mim.

 

A epifania não veio como um raio, mas como um sussurro frio. Aquele outro era um espelho. Não um espelho que refletia a minha imagem, mas um que me mostrava a impossibilidade de eu ser ela, e a impossibilidade de ela ser eu. A minha solidão não era a ausência de alguém, mas a presença irrefutável do outro em sua totalidade inatingível.

 

Ela moveu a mão para a xícara, e em seu gesto banal, vi a vastidão da sua própria vida, as dores que não conheço, as alegrias que nunca foram minhas, os pensamentos que jamais me pertencerão. E nesse reconhecimento da sua irredutível alteridade, senti um assombro. Não era medo dela, mas um pavor da fronteira, da impossibilidade de atravessar e fundir-me nela.

 

O "eu" encontrava-se com o "outro" e, nesse encontro, não havia união, mas a reafirmação de um abismo insuperável. A mulher à minha frente era a prova viva de que minha consciência, por mais que se expandisse, jamais poderia conter a dela. E essa limitação, antes um murmúrio, tornou-se um grito silencioso. O outro era a minha própria fronteira. E isso era, ao mesmo tempo, um mistério terrível e a mais pura verdade.´

16 dezembro 2025

ABISMO INSACIÁVEL

 Abismo Insaciável

A mulher à minha frente, ou o homem, ou a criança – pouco importava o contorno. O que importava era a verdade nua de que ali, naquele ser que respirava e se movia, existia um continente de alma que eu jamais pisaria. E essa era a reafirmação de um abismo insuperável. Não era um desfiladeiro para ser transposto com pontes ou cordas; era a própria essência da diferença.

 

O que observa em mim, o que busca o cerne de todas as coisas, via ali a impossibilidade de a minha consciência se fundir na dela, de um eu se diluir em outro. Era um pavor que não vinha da ameaça, mas da constatação gelada da autonomia do outro. Por mais que eu tentasse, por mais que as palavras flutuassem entre nós como bolhas de sabão, jamais poderíamos ser um só. Nunca a minha dor seria exatamente a dela, nunca a minha alegria se encaixaria perfeitamente na sua.

 

Esse abismo não era um vazio a ser preenchido, mas uma plenitude de não-pertencimento. Ele existia não por falta de amor ou de compreensão, mas pela própria natureza da existência individual. A mulher movia os lábios, e sons saíam, sílabas que eu compreendia, mas por trás delas, um universo de significados, de intenções, de histórias vividas que eram dela e somente dela. E o que observava sentia o peso dessa verdade: a mais profunda solidão não é a ausência de companhia, mas a presença do outro como um limite intransponível.

 

E nesse abismo, tão vasto quanto o universo que eu carregava em mim, residia a beleza terrível da individualidade. A beleza de não poder ser invadido, de não poder invadir. De permanecer ilha, por mais que as ondas do desejo e da afeição batessem em suas margens. O abismo não era apenas o que nos separava; era, paradoxalmente, o que nos definia. E essa definição, tão dura e tão real, era a epifania final: o outro é o meu próprio limite, e eu sou o limite dele. E nesse limite, nessa borda intransponível, é que a vida acontece.

15 dezembro 2025

O SEGREDO DA MAÇÃ

 O Segredo da Maçã

Ela estava ali, sobre a mesa de madeira, ou talvez sobre um prato de cerâmica branca que se disfarçava de si mesmo. Uma maçã. Nem vermelha gritante, nem verde ácida. Um tom entre, um desbotar de vitalidade, um ligeiro amarelado aqui e ali. E em seu centro, no seu umbigo seco, o resto de um galho que um dia a unira à árvore, a um grande e silencioso útero de onde veio.

 

A que observa em mim, a mesma de antes, a que não julga mas se assombra, fixou nela o olhar. Não era uma maçã para ser comida, não nesse momento. Era uma maçã para ser sentida. E, pelo sentir, quase tocada em sua mais íntima substância, aquela que a tornava maçã e nada mais.

 

Via-se a curva suave de sua pele, uma tensão que era a promessa de uma polpa que ainda não se revelava. A textura, lisa sob a luz, parecia gritar uma aspereza invisível, um segredo de sua casca que se recusava a ser meramente superficial. Havia nela uma quietude. Uma quietude de quem possui um vasto interior que não se expõe, de quem sabe sem precisar saber. Uma auto-suficiência que a fazia completa em si mesma, sem precisar de nome, sem precisar de função.

 

E a epifania surgiu: a maçã era a mais pura tradução do seu próprio mistério. Ela não se explicava. Simplesmente era. E nesse ser, sem esforço, sem a angústia da existência que nos devora, ela trazia à tona a nudez de uma verdade: que o mundo é feito de coisas que são, e a gente é feito de coisas que tentam ser. E o terror não era o de não entender a maçã, mas o de entender que a maçã, em sua completa e muda existência, compreendia mais sobre o ser do que eu jamais conseguiria. Ela era o início e o fim. E a sua silenciosa presença sobre a mesa era um grito. Um grito de pura e insondável existência.



14 dezembro 2025

FINAL DA MÁSCARA

  

Final da Máscara

Final da máscara, início da pele —
onde a mentira escorrega
e a verdade começa a arder.
Ali, eu andei descalço,
num estreito de mim mesmo,
sem margem,
sem muro,
sem véu.

Meus pés tocaram o frio do chão
como quem reencontra um altar antigo,
e cada passo
era uma confissão sussurrada
ao silêncio que não julga.

Entre o que escondi por anos
e o que restou quando caiu o pano,
eu encontrei um nome
que ainda sabia dizer.

Andei descalço,
sobre pedras que lembravam
o quanto doeu ser outro,
o quanto custou voltar.

No estreito, não havia fuga.
Mas havia passagem.
E do outro lado —
pele viva,
cicatriz sem vergonha,
alma porosa,
e a coragem tênue
de ser.


                "Andei descalço, sobre pedras que lembravam

                o quanto doeu ser outro, o quanto custou voltar."

                                                            Vicente Siqueira

13 dezembro 2025

O SEGREDO DA MAÇÃ REVISITADO

 O Segredo da Maçã Revisitado

 

A maçã, em sua aparente singeleza, torna-se um espelho para a própria existência. Ela não precisa de discursos, nem de explicações. Apenas é. E essa pura existência, tão alheia às nossas buscas e angústias, nos confronta com a complexidade de tentarmos ser. É um encontro com o mistério que reside em tudo, mas que raramente paramos para verdadeiramente sentir.

12 dezembro 2025

FLAGRADOS

 


 Flagrados

não podia estar lá

quando queria estar aqui,

nesse jogo de abraços

que anseia pernas tocadas,

no risco de sermos descobertos.

 

não ousara dizer não ao momento,

ao encantamento,

ao toque de Midas

que transforma

o cinza da frente fria

em dourado

de calor generoso.

 

são bocas sabendo a graça

de se esconderem

uma na outra,

uma pra outra,

na exploração

que não conhece fadiga

e não suporta a tirania

dos ponteiros

dos relógios.

 

por isso, o escorregão

no atraso

denunciou os cheiros

e as perguntas

sem respostas,

sem explicações.

10 dezembro 2025

A FORMA DO INVISÍVEL

 

A Forma do Invisível

Nem tudo tem contorno.
Às vezes, o poema
é só vento que pensa,
é mar sem costura.

Mas a forma chega
como quem molda o ar,
um gesto que curva
o que se quer tocar.

É o corpo do som,
a linha do espaço,
o peso da pausa
no fim de um abraço.

Criar é inventar contornos
praquilo que escapa,
dar forma ao silêncio
sem que ele se quebre.

Porque o invisível,
quando ouvido com cuidado,
tem um rosto possível.



08 dezembro 2025

AS COISAS QUE NÃO TERMINAM

 

 As coisas que não terminam

Tem gente que vai embora
como se fosse simples —
fechar a porta, virar o rosto,
levar a xícara preferida.

Mas esquece um rastro.
Esquece o nome no espelho
e um verso que ninguém escreveu.

Fica o passo na madeira.
O cheiro preso no armário.
O riso guardado num talher.

Fica até a briga mal resolvida,
pendurada na maçaneta
feito lenço que ninguém recolhe.

E eu?
Eu vou juntando os fragmentos,
fingindo que são cacos de um vaso antigo
e não do meu coração.

Fico ensaiando despedidas 

pra quando não doer mais.

Mas meu peito vira enredo

toda vez que o silêncio respira teu nome.





                                                         "  Tem gente que vai embora como se fosse simples —
                                                            fechar a porta, virar o rosto, levar a xícara preferida."
                                                                                                                    Vicente Siqueira

07 dezembro 2025

DESENHANDO UM SORRISO

 

Desenhando um sorriso 

(e uma desculpa qualquer)


Desenhei um sorriso —
leve, mas torto,
como quem aprendeu a moldar silêncios
com um lápis de cor gasto demais.

Inventei uma desculpa qualquer,
vestida de vento,
que saiu da minha boca sem pedir licença:
“Foi só o tempo, entende?”

Mas quem entende?
Se o que ficou não foi o motivo,
foi o gesto mal costurado
no meio da minha frase.

Desenhei um sorriso —
meio tarde, meio cedo,
na esperança de que a curva nos meus lábios
enganasse o que minha alma ainda carrega.

E a desculpa qualquer,
que nasceu sem raiz,
ficou plantada no chão da minha memória,
como flor que ninguém rega mais.

Mas eu sorri.
Como quem treina o perdão no espelho
e tenta, todo dia,
fingir que não doeu tanto assim.



 

06 dezembro 2025

E NEM PRECISA DE RIMA

 

E Nem Precisa de Rima

Fragmentos de conversas perdidas pairam no espaço da lembrança. São imagens desconexas de um filme inacabado.

Um gesto da mão, um olhar de soslaio, o murmúrio de um segredo qualquer. A mente tenta reconstruir o diálogo, mas as peças não se encaixam bem.

Eram projetos acalentados, palavras lançadas ao vento. Eram opiniões trocadas, a busca por um entendimento.

O tempo esgarçou as bordas, desbotou as cores daquele instante. Sobraram apenas pedaços soltos, uma vaga sensação distante.

A voz que preenchia os dias agora reside no silêncio. Em cada objeto, uma sombra, de um encontro que não se fez eterno.



05 dezembro 2025

LOOP INFINITO

 

 

Loop Infinito

 

Nada novo, de novo.

O dia mimetiza o ontem,

o café na mesma caneca.

O mesmo tédio, o mesmo estorvo,

e a alma que se encolhe, seca.

 

O ponteiro gira, a vida não.

Replay do que já foi, exaustivo.

A rotina um nó, sem solução,

o presente um passado cativo.

 

A tela acende, o mesmo feed,

notícias velhas, sonhos gastos.

O pulso fraco, sem o que pedir,

em meio a tantos, tantos rastros.

 

E o grito preso, que não sai,

de um desejo por algo inusitado.

Mas o ar é denso, e me distrai,

nesse ciclo vicioso e cansado.

INSÔNIA: BOCA DA NOITE

 Martelo de Borracha no RH Celeste

Martelo de borracha,
bigorna zen,
salta do bolso de um palhaço aposentado
e sobe num foguete de tapioca.

Lá em cima —
onde os satélites dançam lambada
com balões de festa infantil —
ele prega com pregos de sonho
em nuvens de algodão doce.

“Você será equilibrista de pensamentos!”
grita ele para um raio tímido.
“E você, garçom de luz solar molhada!”
diz, martelando forte, sem fazer barulho,
porque barulho não combina com sonho.

Cada martelada é um contrato assinado
com cheiro de marshmallow e promessa de riso.
As nuvens suspiram,
a Via Láctea toma nota em papel de bala,
e o céu ganha um RH psicodélico.

No fim do expediente,
o martelo guarda sua gravata de arco-íris,
toma um café com poeira estelar
e dorme num envelope de brisa.

Amanhã tem mais vaga no firmamento.



 





Aquele que escutou sem saber

Ele era só mais um
entre tantos     
uma mente acordando no corpo cansado
um gesto automático
para desligar o despertador

mas naquela manhã
algo permaneceu no ar

um silêncio diferente
entre os sons da cidade
como se a respiração do mundo
tivesse mudado de ritmo

ele não sabia por quê
mas o café não tinha gosto
e o espelho
devolveu um olhar
que ele nunca tinha visto tão fundo

não era tristeza
nem alegria
era como se algo dentro dele
tivesse aberto os olhos

o eco
chegara

não como palavra
mas como vibração leve
plantada entre duas batidas do coração

ao longo do dia
percebeu pequenas coisas:
um pensamento que não era seu
mas o compreendia
uma memória que parecia vir
de uma vida não vivida

começou a ouvir sons
onde ninguém falava
sentiu saudades de algo
que não sabia nomear

à noite,
olhou o céu como sempre
mas desta vez
soube que alguém, em algum lugar
estava também olhando

e sentindo o mesmo

o idioma do entre
o idioma sem margens
começava a germinar dentro dele

e mesmo que ele não soubesse
estava sendo chamado
para lembrar
sem entender
e seguir
sem saber onde

porque às vezes
a primeira resposta do universo
é um silêncio que muda tudo.

;

;

?


 

Insônia: Boca da Noite

Que insônia. Não essa insônia de quem não consegue dormir, mas a outra, a que escancara a boca da noite e te engole. Uma boca que não mastiga, apenas suga, e te deixa ali, suspenso no vazio. Os silêncios, ah, esses silêncios de estilhaçar cristais. Cada um deles uma pequena morte, um ruído interno que só a alma ouve, e que dói. Dói como se tentáculos, invisíveis, mas palpáveis, se apertassem na garganta, tirando-me não só a calma, mas a alma. E a gente se pergunta: que alma é essa que se deixa roubar assim, tão fácil?

 

Lá não-sei-onde, um badalar. Não sei quantas horas. Que importância tem o número, quando o tempo não passa, ele se dilui? A manhã se avizinha, mas não é a manhã de um novo dia. É uma manhã doentia, grávida de sol. Que sol? O sol que revela as imperfeições, que ilumina o que a escuridão da noite, em sua misericórdia, escondeu. Essa gravidez me assombra. O que nascerá dessa manhã tão pesada?

 

Não é o tempo que não passa, são os cães que não ladram. Ouço o silêncio deles, mais alto que qualquer latido. As corujas, não piam. E o aquário, em sua quietude, não borbulha. Tudo é silêncio, uma conspiração contra o som, contra a vida. E os scotchs? Ah, esses scotchs, que antes eram um porto, um refúgio. Definitivamente não são mais os mesmos. Perderam o sabor, ou fui eu que perdi a capacidade de saboreá-los? Essa perplexidade me consome. O que muda, afinal, é o mundo lá fora, ou o mundo aqui dentro, que se desfaz em partículas que não consigo agarrar?

 

A cama, imensa, me chama. Mas eu a abandono. Sua ausência, estranhamente, me reclama. Há uma ironia nisso, uma crueldade sutil. Enquanto a busca solitária da saciedade ainda se refestela em mim, em gotas cristalinas que despencam do chuveiro reparador. Reparador de quê? De uma alma que se perdeu nos labirintos da noite? De um eu que se desfez em pedaços miúdos? Essa saciedade que não sacia, que apenas prolonga a agonia, como uma promessa vã. E a gente se pergunta: o que é que a gente busca, afinal? E por que o que a gente encontra é sempre tão... vazio?




 FLAGRADOS NO SILÊNCIO

havia ruído no mundo,
mas entre nós —
uma pausa profunda,
feito respiração suspensa
antes do beijo.

não era ausência de som,
era presença demais:
olhares falavam
o que nenhuma palavra
teria coragem de dizer.

o silêncio nos vestia
como se fosse brisa,
como se fosse véu.
e ali, tão quietos,
dizíamos tudo
sem mexer os lábios.

a cidade passava ao fundo,
com seus motores e seus dias,
mas estávamos noutro plano:
feito música sem melodia,
feito carta sem remetente,
feito tempo sem contagem.

e quando enfim
alguém abriu a porta,
quando o mundo voltou
a nos chamar pelo nome —
era tarde.

já tínhamos sido flagrados no silêncio.
já tínhamos deixado
vestígios de eternidade
no espaço entre dois corações
que bateram calados,
juntos.




 Quando Alguém Ouve

Muito tempo depois,
quando o tempo já não contava,
alguém — que não era inteiro,
que já tinha se quebrado demais —
parou.

Não por escolha,
mas por exaustão.
E no espaço entre um suspiro e o esquecimento,
ouviu algo.

Não era som,
mas ausência que vibrava.
Não era voz,
mas um estremecer de dentro.

Era o grito —
aquele antigo, esquecido, sem rosto,
que nunca encontrara seu próprio eco.

Mas agora, enfim,
não precisava mais ser ecoado.
A escuta bastava.
A presença bastava.

E o grito se dissolveu,
não porque foi respondido,
mas porque foi acolhido.

Ali, no silêncio de alguém partido,
ele finalmente pôde descansar.
E no lugar onde gritou por eras,
brotou uma água quieta,
onde a dor se deita,
e o mundo se vê… de novo.



 

A Infância que Não Volta

Eu queria voltar a ser criança,
mas não posso.

Há um tempo que não se refaz,
um chão que não aceita os mesmos passos.

A criança em mim ainda mora
num canto escondido,
mas as portas estão cobertas de poeira.

Já não sei o caminho exato,
nem o nome dos sonhos
que guardei nas primeiras manhãs.

Queria o riso fácil,
a confiança em promessas simples,
o colo sem perguntas.

Mas carrego agora
outras vozes,
outras esperas,
outras dores que ninguém me ensinou a nomear.

Crescer foi um espanto que ficou.
Não há retorno.

Só essa saudade muda
de um tempo em que bastava fechar os olhos
para estar inteiro.






 Sou um menino...


Sou um menino, cheio de sonhos e de vida

Com um coração que pula, com uma alma que brilha

Eu corro, eu brinco, eu rio, eu vivo

E sinto o mundo ao meu redor, com todos os meus sentidos


Sou um menino, com uma imaginação sem limites

Eu crio mundos, eu crio histórias, eu crio amigos

Eu sou um aventureiro, um explorador, um descobridor

E estou sempre pronto para o próximo desafio


Sou um menino, com um sorriso no rosto

Eu sou feliz, eu sou livre, eu sou eu mesmo

Eu não tenho medo de ser diferente

E eu sei que posso ser quem eu quiser ser


Sou um menino, e isso é tudo que eu preciso

Para ser feliz, para ser eu mesmo

Eu sou um menino, e eu estou vivo

E eu vou aproveitar cada momento, cada segundo.


Essa poesia é uma reflexão sobre a infância e a liberdade de ser um menino, com uma imaginação sem limites e um coração cheio de sonhos e de vida. É um convite para que as pessoas se lembrem da alegria e da liberdade da infância.



 

A Cadeira Vazia

o balanço lento na varanda um ritmo fantasma no ar parado a marca tênue no chão de madeira onde os pés costumavam pousar

o tricô inacabado no colo agulhas inertes, fios suspensos a leitura interrompida na página dobrada ao acaso

e nem havia vento para mover as cortinas da sala apenas a quietude densa onde a voz ecoava ausente

a lembrança do riso um som distante, quase esquecido o calor do corpo ausente moldando o vazio do assento

o olhar vago perdido na paisagem buscando uma silhueta familiar a esperança teimosa de um retorno improvável

e a aceitação dolorosa de que alguns espaços guardam para sempre a forma da saudade

Agora usa essa frase como tema: onde a voz ecoava ausente



 

A PIOR PARTE DO DOMINGO

não era sobre lavar cachorro
nem sobre o cheiro do xampu canino
nem sobre o pelo grudando na camiseta velha

era sobre dividir
a pia
as tarefas
o silêncio das manhãs arrastadas

sobre sentar no sofá ainda molhado
e rir de como tudo era ridículo
e bonito

amar era isso:
dividir o que ninguém posta foto
abrir o saco de lixo
sem que isso vire motivo de conversa

mas sonhei alto demais
como quem deseja um domingo com sol
numa semana de enchentes

e percebi tarde
que sonhar sozinho
cansa mais
do que lavar cachorro molhado.



 

       

        Mãos: Parágrafos de Desejo

  

As mãos. Sempre as mãos. Não meras apêndices, mas ferramentas, sim, e fartas de desejos. Elas têm uma inteligência própria, um saber antigo que se recusa à lógica. Encaixam-se. Que verbo exato. Não "procuram encaixe", nem "tentam encaixar", mas simplesmente se encaixam. Em todas as suas reentrâncias, nos ângulos que a luz mal ousa tocar, nas medidas que a balança não pesa. Há uma precisão quase cruel nisso, uma certeza que assusta. Elas não tateiam; elas percorrem. Cada poro, cada pelo, cada sonho – e a gente se pergunta que sonhos são esses que se deixam percorrer assim, tão à vontade. E o mais assombroso: o interior das suas ranhuras. Que ranhuras são essas? As da pele, as da alma, as do tempo que se acumula?

 

Com essas ferramentas, sim, as mãos, eu me preparo. Um ritual. E me pego abestalhado pela descoberta. É sempre uma descoberta, não é? Mesmo quando se repete. A beleza, ela se revela em camadas, como as páginas de um livro que nunca se esgota. A beleza, que não é só o que se vê, mas o que se sente, o que se pressente. E a intenção, que surge quase sem querer: invadir-lhe os parágrafos. Não as páginas, não os capítulos, mas os parágrafos. Pequenos blocos de sentido, de vida. Eles, os parágrafos, me guiarão. Por onde? Pelo interior de novas palavras. E de palavras nascem frases, e as frases, elas não apenas contam, elas denunciam dicionários. Dicionários inteiros, com seus significados fechados, suas definições estreitas. As palavras, aqui, se libertam. E a gente se pergunta: que verdades serão essas que esses parágrafos, essas frases, esses dicionários denunciarão? E o que faremos com elas, uma vez que se revelem?


 

 




O Vazio que Não se Preenche

 

Nenhum recado. Nada.

 

Nem a delicadeza de um e-mail, essa modernidade tão pálida. Nem a promessa gasta de uma carta, dobrada e guardada no tempo. Ou a urgência íntima de um bilhete, rabiscado na pressa que o amor, às vezes, permite. Nada que preencha os espaços. Esses abismos minúsculos entre um ponto e outro da existência. Com letras, essa invenção tão humana e tão insuficiente. Ou palavras, essas criaturas que nascem e morrem no ar, sem jamais tocar o centro de nada. Ou mesmo os sinais de fumaça, essa ancestralidade que se ergue e se desfaz no vento. Ou o ritmo batendo de tambores, esse chamado primitivo que se perde na indiferença do mundo. Nem os repiques agudos de tarol, ou a caixa-de-guerra, essa ressonância que anuncia combates ou desfiles. Nada. Nada mesmo.

 

Nada que fizesse lembrar. As tantas promessas. Aquelas que surpreendiam pela ousadia, pela nudez de um futuro que se oferecia sem pudor. Promessas que eram, em si mesmas, um modo de ser, um modo de existir além do agora. E agora, o vazio, essa certeza insuportável de que nada se anuncia.

 

Que viesse ao menos. Ah, o mínimo, o ínfimo. Um mísero pombo-correio, esse arauto de outras eras, trazendo em sua pata um fio de esperança. Com uma pequena mensagem, ainda que passageira como a nuvem que se desmancha no céu. Ainda que ilusória, como a miragem no deserto da alma. Ainda que transitória, como a vida que flui e não se agarra. Uma única palavra. Apenas uma. Que externasse a vontade. Não a minha, mas a de outro, a de um universo paralelo que se dignasse a se manifestar. A vontade de mostrar a mim. A mim, esse ser que se debate em sua própria incompreensão. Que eu poderia ter esperança.

 

Porque todos aqueles momentos. Os passados, sim. E os esquecidos, esses que se desfazem na névoa da memória. Os amarelecidos, com o tempo que os mancha e os desfigura. Esses poderiam. Poderiam ser revividos. Não como repetição, mas como ressurgimento. Uma ressurreição sutil que se daria no mais profundo do ser, onde a ausência se torna a forma mais aguda de presença. Mas nada veio. E no não-vir, o que se fez, afinal, foi o silêncio. Um silêncio que, paradoxalmente, dizia tudo sobre a irreversibilidade do que não volta.



 

GRANDES NAVEGAÇÕES

 

surpreendi-me ao notar que a natureza

reagia à diferença.

surpreendi-me sem necessidade.

sequer ousei tentar compreender

pois considerava tudo pessoal.

por isso envolvi-me em tuas definições.

usei códigos que não ousara desvendar

ou mesmo inventar.

surpreendi-me ao olhar ao meu redor

ao olhar para dentro

ao descobrir os movimentos

que me levaram até você.

 

a gente sempre sabe dos efeitos

e dos defeitos dos outros

mas se surpreende com os próprios.

com os que

principalmente

apontam para os desdobramentos do ego.

por isso a surpresa ao perceber

que eu não vivo sem você

 


 ALI

revi você
pensei ter visto o sol em teu corpo
resvalando na minha inquietude,
ao perceber que, por todo o tempo,
era noite
porque não estavas por perto —
e eu a quisera
para o aperto
daquele abraço inédito.

trouxeste contigo
o renascer desnudo
da mais brilhante constelação,
em teus pontos de sardas,
dentes de branco
e cabelos cor de palha.

tuas curvas demonstram
a preciosa habilidade
de a natureza refazer-se
em arte
e apresentar-se
em toda parte —
até o ponto de deixar um coração
repleto de felicidade
por perceber que, por algum tempo,
estou seguro.
porque, com você por perto,
o dia nunca é escuro
ali na vila.




  AINDA ALI

o sol ainda toca as janelas da vila,
mas já não resvala em mim
como antes.
falta aquele calor
que vinha dos teus passos,
aquela luz sem sombra
que teus olhos traziam
mesmo nos dias nublados.

as sardas sumiram do céu,
os cabelos cor de palha
viraram brisa em lembrança,
e o abraço inédito
segue inédito —
pendurado no varal
das possibilidades que o tempo levou.

por aqui, tudo parece igual:
os muros, os cheiros,
o barulho do portão antigo...
só eu é que mudei —
porque você,
você não está mais ali.

e desde então,
a vila também escureceu um pouco.
não toda,
só o pedaço
onde costumava amanhecer
quando você sorria.



 RENASCER ALI

Não voltou,
mas algo em mim permaneceu:
um brilho manso,
quase silêncio,
que aprendi a reconhecer
como meu.

as ruas da vila
seguem com seus ventos antigos,
mas agora sei caminhar nelas
sem procurar teus passos.
sei encontrar sentido
nos varais de roupa,
nos cachorros que dormem ao sol,
no assovio da tarde
que não chama ninguém.

o abraço inédito
deixou de ser espera
e virou abrigo
dentro de mim mesmo.

às vezes, ainda penso
na curva do teu sorriso,
na cor da tua ausência,
mas já não dói:
é saudade sem ferida,
lembrança sem grito.

descobri que a luz
também pode vir do avesso —
nasce quando a gente para de procurar
e começa a ser.

e foi ali,
na vila onde tudo começou,
que renasci
sem você,
mas não sem amor.


 


Saudade Subterrânea

 

A saudade, sorrateira.

Não se anuncia em portões,

nem bate à porta.

Ela desliza, rente ao chão da alma,

como a sombra de um pássaro que não existe.

Um arrepio na nuca do tempo,

um quase-suspiro que se perde.

 

Não é dor que berra,

mas um vazio mudo,

onde antes pulsava um tanto.

Um lugar de eco,

onde a memória acende e apaga

lâmpadas trêmulas.

É o cheiro de um livro antigo

que se abriu sem querer.

A canção que o rádio distorceu,

mas que a pele reconhece.

 

A introspecção vira uma conversa de sussurros,

com fantasmas gentis.

A gente se pergunta:

o que ficou de mim no que se foi?

E o que se foi, afinal,

está mesmo ido, ou apenas camuflado

na poeira fina do que não se toca?

A saudade, ela não volta.

Ela sempre esteve,

e é isso que assombra.

Um pedaço de nós que se esconde,

esperando o próximo instante de silêncio

para se revelar.