26 outubro 2026

APRENDENDO A FICAR


Aprendendo a Ficar

ficar é mais difícil
do que partir.

partir tem movimento.
ficar exige raiz.

fico quando a vontade é sumir.
fico quando o peito aperta
sem explicação.
fico quando o passado tenta puxar
pela camisa.

aprendo a permanecer
no desconforto leve do existir.

não fujo do espelho.
não pulo etapas.
não anestesio sentimentos.

fico.

fico no corpo cansado.
fico nas manhãs sem brilho.
fico nas tardes suspensas.
fico nos afetos em estado bruto.

descubro que ficar
é um ato silencioso de coragem.

é sentar ao lado da própria dor
sem tentar consertá-la.

é aceitar que nem tudo passa rápido,
que nem toda ferida pede pressa,
que nem todo amor volta.

fico comigo.

com minhas falhas que iluminam,
com meus restos que respiram,
com essa esperança microscópica
que insiste em viver no fundo do peito.

ficar não é estagnação.
é escolha.

é dizer ao mundo, baixinho:

eu continuo aqui.

mesmo em reforma.
mesmo incompleto.
mesmo humano.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí  RJ



25 outubro 2026

QUIETUDE HABITÁVEL

Quietude Habitável

não é silêncio absoluto.
é um silêncio com móveis.

uma quietude que aceita
o som da geladeira,
o latido distante,
o vento batendo na cortina.

aprendo a morar nesse espaço
sem me assustar.

sento comigo
como quem senta ao lado de um amigo cansado.

não exijo alegria.
não forço esperança.

apenas fico.

há um conforto discreto
em não fugir do próprio ritmo,
em deixar o coração desacelerar,
em permitir que o corpo seja só corpo.

a quietude não resolve nada.
mas organiza.

ela põe as dores em prateleiras,
dobra os pensamentos,
abre uma clareira interna.

descubro que posso viver aqui.

neste lugar sem espetáculo,
sem urgência,
sem máscaras.

faço da calma um território possível.

fico respirando dentro dela,
como quem aprende
a habitar a própria pele.

quietude habitável
é isso:

um acordo silencioso comigo mesmo
de permanecer inteiro
mesmo em partes.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

24 outubro 2026

DIA COMUM

 

 Dia Comum


o dia não traz novidades.

acordo,
arrumo a cama sem capricho,
abro a janela
pra deixar o ar lembrar que existo.

o café é igual ao de ontem.
as mensagens chegam no mesmo ritmo.
o corpo funciona por hábito.

lá fora, pessoas atravessam ruas,
carros obedecem semáforos,
alguém reclama do calor.

nada épico acontece.

e, ainda assim,
há uma delicadeza escondida
nessa repetição.

lavo um copo.
respondo um e-mail.
paro alguns segundos
olhando uma árvore resistindo ao concreto.

percebo:
viver também é isso.

cumprir tarefas pequenas,
atravessar horas neutras,
existir sem narrativa.

carrego minhas cicatrizes invisíveis
enquanto escolho frutas no mercado.
trago minhas ausências
no bolso da calça.

ninguém nota.

o dia comum me ensina
que sobreviver não precisa de aplauso.

só continuidade.

dou alguns passos.
respiro.
sigo.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



22 outubro 2026

FECHANDO COM O ORDIÁRIO

Fechando com o Ordinário

depois, o dia continua.

lavo uma xícara.
fecho uma janela.
dobro uma camiseta.

o mundo não muda por isso.

mas eu mudo um pouco.

o ordinário me devolve ao chão:
as chaves sobre a mesa,
o lixo que precisa sair,
o pão do café da manhã seguinte.

há beleza mínima
nessas coisas que não pedem poesia.

respondo mensagens.
ando pela casa.
olho o céu sem esperar sinal.

aprendi que viver
é somar gestos pequenos.

não há música de encerramento.
só continuidade.

guardo minhas cicatrizes invisíveis,
minha esperança microscópica,
meu afeto em estado bruto
e sigo.

sou feito disso agora:
silêncio que acolhe,
corpo que fica,
dias comuns que sustentam.

fecho assim —
sem clímax,
sem promessa grande.

apenas com esse acordo tranquilo
de continuar.

aqui.
inteiro em partes.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



20 outubro 2026

SILÊNCIO QUE ACOLHE

  Silêncio que Acolhe

o silêncio não chega vazio.
ele traz uma cadeira.

senta ao meu lado
sem perguntas,
sem conselhos.

fica.

há um tipo de silêncio
que não pesa —
apenas sustenta.

ele passa a mão invisível
pelas costas do pensamento,
organiza a respiração,
ensina o corpo a baixar a guarda.

não exige explicações.
aceita o que sou agora.

fico dentro dele
como quem entra num quarto morno
depois de um dia longo.

as dores diminuem o volume.
as memórias aprendem a cochichar.
o coração encontra um ritmo possível.

não preciso dizer nada.

o silêncio entende.

e nesse entendimento mudo
algo em mim
finalmente descansa.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ