Reaprendendo o Desejo
o desejo volta devagar.
não entra correndo,
não faz barulho.
primeiro aparece
como um calor leve no peito,
uma vontade pequena de aproximação,
um pensamento que dura meio segundo
a mais do que devia.
o corpo estranha.
depois reconhece.
há um reaprender nos gestos:
no jeito de olhar alguém,
no cuidado ao imaginar futuro,
na permissão de sentir sem armadura.
o desejo agora vem sem pressa.
não exige resposta imediata.
só pede espaço.
descubro que desejar
não é possuir —
é permitir movimento.
é deixar que algo atravesse
sem tentar controlar o caminho.
aprendo a sentir sem pular etapas.
a gostar sem correr.
a querer sem me perder.
o desejo reaparece assim:
feito planta nascendo entre rachaduras,
feito vontade tímida de toque,
feito coração testando novos ritmos.
não é urgência.
é presença.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraíu - RJ
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