25 outubro 2026

QUIETUDE HABITÁVEL

Quietude Habitável

não é silêncio absoluto.
é um silêncio com móveis.

uma quietude que aceita
o som da geladeira,
o latido distante,
o vento batendo na cortina.

aprendo a morar nesse espaço
sem me assustar.

sento comigo
como quem senta ao lado de um amigo cansado.

não exijo alegria.
não forço esperança.

apenas fico.

há um conforto discreto
em não fugir do próprio ritmo,
em deixar o coração desacelerar,
em permitir que o corpo seja só corpo.

a quietude não resolve nada.
mas organiza.

ela põe as dores em prateleiras,
dobra os pensamentos,
abre uma clareira interna.

descubro que posso viver aqui.

neste lugar sem espetáculo,
sem urgência,
sem máscaras.

faço da calma um território possível.

fico respirando dentro dela,
como quem aprende
a habitar a própria pele.

quietude habitável
é isso:

um acordo silencioso comigo mesmo
de permanecer inteiro
mesmo em partes.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

Nenhum comentário:

Postar um comentário