04 maio 2025

PROSOPOPEIA MAIS DELICADA

 A Prosopopeia Mais Delicada

A minha prosopopeia mais delicada
não gritou —
sussurrou entre galhos de silêncio
o que o medo não quis ouvir.

Descobriu, com a ponta dos dedos,
que o nada
mora no começo do que sou,
feito nascente tímida
em terreno esquecido.

Ali, onde nem eu ousava entrar,
ela encontrou
um fio de luz
passando por entre os vãos
da incredulidade.

E disse, com doçura:
"É aqui que começa."

Perto das vertentes
que eu mesmo sugeri
ao incrédulo que habita em mim,
ela desenhou um mapa
feito de ausência,
e me ensinou a caminhar
sobre o que não sei.

PERTO DO NADA

 Perto do Nada

Entrei e saí
por vários caminhos
que diziam meu nome
sem me reconhecer.

Dobrei esquinas do tempo,
pisei em passos antigos,
procurei vestígios de mim
em rostos que não eram espelhos.

E de tanto não me encontrar,
reparei:
estava em lugar algum.

Um quase-lugar,
feito de neblina e lembrança,
onde os muros não se firmam
e as portas não sabem fechar.

Ali,
onde o silêncio se alonga
como sombra sem dono,
descobri que o mais próximo de mim
era o nada.

E que talvez —
só talvez —
nesse nada morasse o começo
do que sou
sem saber.

QUANDO O CORPO SILENCIA

 

Quando o Corpo Silencia

Mas se o corpo silenciar-se —
de verdade,
como quem adormece sem medo,
como quem pousa a última palavra
num chão que não exige resposta —
a alma certamente escutará.

Escutará o que vem de longe,
de antes,
de dentro,
como uma água subterrânea
que sempre esteve ali.

O som não é som.
É presença.
É vento que atravessa sem tocar,
mas deixa tudo diferente depois.

O corpo se cala
e então, por um instante,
tudo que era peso se desfaz em escuta.

E o que era ausência
revela sua voz.

ENTRE UMA RESPIRAÇÃO E OUTRA

 

Entre Uma Respiração e Outra

À beira dos ossos
tudo é quase —
quase gesto, quase voz,
quase lembrança que se esquece sozinha.

Entre uma respiração e outra,
mora um intervalo que ninguém vê:
um lugar suspenso
onde o corpo silencia
e a alma escuta.

Ali,
sou só sopro antigo,
vaga ideia de mim
desenhada na poeira do instante.

Não há palavras.
Só o rumor do que seria
caso eu não voltasse.

É nesse fio de ar,
nesse quase-nada que respiro,
que descubro
o que me sustenta.

E não é músculo.
Nem certeza.
É só o mistério
de continuar sendo
sem saber como.

ECO DE ALGO QUE NUNCA VIVI

 Eco de Algo que Nunca Vivi

Eco de Algo que Nunca Vivi

Preciso me esvaziar —
como jarro deixado ao relento,
como rua depois da chuva
quando ninguém mais passa.

Me perder do tempo,
desatar os minutos do pulso,
deixar que o dia me esqueça
como se eu nunca tivesse sido.

Quero virar eco
de algo que nunca vivi,
mas que me sonda —
como se soubesse de mim
mais do que eu.

Talvez um gesto não dado,
uma memória que errou de corpo,
um silêncio que não era meu
e me escolheu.

Sinto-o à beira dos ossos,
entre uma respiração e outra,
quando o mundo cochila
e tudo parece voltar a antes.

Mas não há antes.
Só o agora vazio,
à espera de um nome
que ainda não sei pronunciar.

LINGUAGEM DOS INVISÍVEIS

 

Linguagem dos Invisíveis

É preciso atravessar
a borda de mim —
onde o espelho hesita
e o silêncio respira devagar.

Lá,
os nomes se desfazem nos ombros,
os caminhos desaprendem os pés,
e o céu, de tão ausente,
fica dentro dos olhos.

Há uma língua que me chama
sem voz,
sem pressa.
Feita de vento,
de gestos que não se tocam,
de presenças sem corpo.

Quem escuta?
Quem entende
a sombra de um pássaro
passando por dentro do peito?

Preciso me esvaziar,
me perder do tempo,
virar eco de algo que nunca vivi
mas que insiste em me sonhar.

Só então, talvez,
a estrela do meio-dia
me encontre —
e me chame
por um nome que ainda pulsa
no escuro.

A LINGUAGEM DOS INVISÍVEIS

 

A Linguagem dos Invisíveis

É preciso atravessar
a borda de si —
onde os espelhos não obedecem
e o silêncio tem forma.

Ali,
o mundo desaprende os nomes,
os mapas desmancham rios
e os céus caminham de costas.

Nesse limiar,
os que já foram
e os que ainda não são
sussurram uma língua sem vogais,
feita de vento e olhos fechados.

É a linguagem dos invisíveis:
palavras que não se dizem,
mas atravessam a pele
como sombra de um pássaro
em pleno eclipse.

Quem ousa escutar
precisa desaprender o tempo,
esvaziar-se até virar eco
de uma lembrança que nunca viveu.

Só então
a estrela no meio do dia
abre a porta do lado de dentro —
e o nome esquecido
volta a pulsar.

NA BORDA DE MIM

 NA BORDA DE MIM

(Fragmento da lenda dos Errantes Invisíveis, manuscrito da Luz Tardia)

Diz-se que há uma estrela escondida no meio do dia —
uma estrela que só os que perderam seus nomes conseguem ver.

Aqueles que foram tocados por um anjo distraído,
seres errantes que caminham ao lado de si mesmos,
vivem à margem do mundo visível:
eles não são eles.
São campos depois da colheita,
guardando silêncios e luzes que ninguém entende.

Numa dessas travessias, um deles —
chamado apenas Aquele —
descobriu uma pedra no caminho.
Mas não era uma pedra qualquer.
Era um espelho mineral,
onde ele viu, pela primeira vez,
a sombra de si mesmo caminhando ao lado —
e ela tinha olhos de peixe
cheios de lágrimas que nunca caíam.

A partir desse encontro, Aquele começou a ouvir
as palavras antes caladas:
palavras que o chamavam por dentro
e por nomes que ele nunca aprendera.

A lenda diz que quem segue essas palavras
encontra o lugar onde os nomes esquecidos repousam,
e onde a estrela do meio-dia
se transforma em sol dentro do peito.

Mas para chegar lá, é preciso atravessar
a Borda de Si —
um lugar onde o mundo termina
e começa a linguagem dos invisíveis.

NA BORDA DE MIM

 

Na borda de mim

Há uma estrela no meio do dia,
mas ninguém a vê —
passou por mim um anjo distraído
e esqueceu-se do meu nome.

Sou como um campo depois da colheita,
em silêncio e luz.
Tudo é tão vasto e pequeno,
como a lágrima no olho de um peixe.

No meio do caminho tinha uma pedra,
mas era também
um espelho
onde eu vi
aquele que vai ao meu lado sem eu o ver.

Ai, palavras —
que estranha potência a vossa!
Dizem o que não vivi
e calam o que arde.

Eu,
que não sou eu,
caminho por entre nomes
e permaneço
na borda de mim.

O QUE É VERDADE

 O Que É Verdade

Porque tudo que é verdade
resistirá sempre às trevas —
não por força,
mas por raiz.

Mesmo quando soterrada,
ela respira por baixo
como semente paciente,
esperando o instante certo
de romper o chão.

A verdade não se apressa.
Ela aguenta o esquecimento,
o escárnio,
os gritos falsos
que tentam abafá-la.

Mas um dia,
ela cresce.

E alcança
o mais alto pedestal —
não para se exibir,
mas para iluminar
o que estava oculto.

E ali permanece,
não como troféu,
mas como farol:
silenciosa,
intocável,
inteira.

PRESENÇA

 

Presença

Não preciso fazer,
nem provar.
Basta ser —
inteiro,
aqui.

Presença é o milagre
de não escapar de si.

É corpo que se sabe tempo,
alma que se aceita espaço,
olhar que repousa
sem fugir do que vê.

A vida toca devagar
quando me deixo estar.

O instante deixa de passar
e começa a respirar comigo.

Não há ontem,
não há depois —
há o agora
com seus braços abertos.

E eu,
finalmente em paz,
sou só presença
no que permanece.

TRAVESSIA

 Travessia

Há caminhos que não têm nome,
mas meus pés sabem seguir.
São trilhas de dentro,
feitas de silêncio e espera.

A travessia começa
quando desisto do mapa
e confio no passo.

O horizonte não promete chegada,
mas oferece presença.

E sigo —
não por saber,
mas por sentir.

A dor caminha comigo,
mas também a esperança
vestida de céu.

Sou ponte e sou rio.
Sou quem atravessa
e quem se deixa levar.

RENDIÇÃO

 Rendição

Não lutei hoje.
Deixei o dia chegar
como se fosse amigo antigo
voltando da ausência.

Abri as mãos.
Soltei o peso de entender.

O céu não explicou nada,
mas me abraçou inteiro
com suas nuvens sem pressa.

Rendição não é desistência —
é dançar
com aquilo que não posso mudar
e ainda assim ser leve.

Fui chão,
fui brisa,
fui corpo que aceita
a alma como é.

E ali, no desapego,
me tornei inteiro.

ESCUTAR

 Escutar

Silêncio não é ausência —
é linguagem que espera.
Tudo fala
quando a alma se aquieta.

Escutar é abrir
uma fresta na pele
onde o mundo entra
sem fazer barulho.

O tempo sussurra
com vozes de pedra,
de vento,
de raízes em oração.

E dentro — bem dentro —
uma voz mais antiga
me diz sem palavras
que sou casa.

Não para o ruído,
mas para o real.
Não para o fim,
mas para o eterno instante.

RESPIRAR (CONTINUAÇÃO)

 

Respirar (continuação)

Não busco sentido —
respiro.
Como quem escuta o invisível
sussurrar entre folhas.

Há um rumor no vento
que me reconhece
sem me nomear.

Sou quase ausência,
mas inteira presença
no gesto mínimo de estar.

Às vezes, paro.
Não por cansaço,
mas por reverência
ao instante que me atravessa.

Talvez viver seja isso:
um sopro que dança
no intervalo
entre o que parte
e o que permanece.

RESPIRAR

 Respirar

Neste instante,
sou eu —
só eu —
a respirar.

Entre o ser e o não-ser,
um limiar de silêncio
onde me deixo pousar.

Em paz, me reencontro
na dobra do tempo,
onde o agora não cobra
e o passado não pesa.

Cada passo é semente,
cada olhar,
um universo que se espelha
no espelho do instante.

E se nada me nomeia,
sou o que resiste:
um sopro,
uma fresta,
um rastro de luz que insiste.

03 maio 2025

DIZEM QUE VIROU VENTO

 Dizem que Virou Vento

Dizem que virou vento.
Não partiu —
evaporou-se das margens do visível.
Não morreu —
esvaziou-se de forma até ser passagem.

Agora atravessa sem anunciar.
Toca sem tocar.
Muda o rumo das nuvens
com um pensamento que ninguém teve.

Há quem o sinta na dobra da pele,
no arrepio que vem sem frio,
na palavra que falha
justo no momento em que deveria ferir.

Virou vento
porque era leve demais para ser chão,
e denso demais para ser esquecimento.

Não sopra em todas as direções —
mas sempre na direção
de quem está prestes a desistir.

E quando chega,
não consola.
Apenas mostra que há fôlego
mesmo onde não há ar.

Virou vento,
sim —
e quem se deixar atravessar por ele
talvez também desapareça um pouco
das prisões do que é pedra.

QUANDO O GESTO DIZ

 

Quando o Gesto Diz

Às vezes, a palavra não vem.
Mas o gesto —
ah, o gesto —
se adianta com a alma inteira.

Um café posto sem aviso,
o casaco oferecido no frio,
a demora no abraço
que fica um pouco mais.

Há silêncios que são tão claros,
tão cheios de intenção,
que não precisam do som para dizer:
eu te amo.

Porque tem amor que prefere
falar com os olhos baixos,
com o toque leve,
com o cuidado quase invisível
de quem ama
sem pedir licença à voz.

ENTRE UM GESTO E OUTRO

 Entre Um Gesto e Outro


Há sentimentos que não se escrevem,
nem em papel nem em voz.
Eles andam descalços entre os instantes,
como brisas que não têm nome,
mas sabem tocar.

São amores que não sabem se explicar,
mas esperam junto,
olham devagar,
guardam o outro sem pressa.

Eles vivem no intervalo —
entre o levantar de uma xícara
e o cuidado ao recolher os cacos.
Entre o fechar de uma porta
e a lembrança que ficou do lado de dentro.

Não têm rima nem gramática,
mas têm ritmo.
Não se declaram em versos,
mas se oferecem inteiros
numa ausência que cuida,
numa presença que não exige.

Porque há afetos
que não sabem soletrar-se,
mas sabem morar em nós
sem nunca se perder da casa.

02 maio 2025

BRINCANDO COM AS PALAVRAS


Brincando com as Palavras

 Vamos brincar com as palavras, 

 tocar a essência do que sentimos, 

 dar forma às emoções 

 como quem molda o vento com as mãos abertas.


Eu já tenho uma ideia, 

ela pulsa no silêncio, 

mas deixo espaço para o inesperado chegar, 

como um sol atravessando as frestas da manhã.


Os versos não seguem regras, 

apenas caminham, 

tateiam o chão e se tornam voz 

no instante em que o mundo os acolhe.