19 maio 2022

ENTRE SILÊNCIO E VERBO

 Entre Silêncio e Verbo

Quase desconfortável
eu preciso escolher
entre silêncio e verbo.

o silêncio —
esse véu pesado
que me protege e me prende,
me deixa inteiro
e invisível.

o verbo —
esse risco.
ao ser dito,
não volta.
ao ser gritado,
marca.
ao ser sussurrado,
se arrisca a ser mal interpretado.

há dias em que sou o silêncio,
por medo.
outros, o verbo,
por urgência.

mas sempre
há esse instante entre os dois,
um limiar
onde sou só
pele e escolha.

e ali,
quase desconfortável,
respiro fundo
e salto:

palavra.

15 maio 2022

O PULSAR DA PROMESSA

 

O Pulsar da Promessa

Um rubro intenso, não de sangue ou fúria, mas da cereja madura, do sol que se derrama no horizonte.

Essa promessa pulsa, quase palpável, na quietude que precede o trovão, no brilho úmido da terra molhada.

Não são palavras emolduradas, nem juramentos ao vento. É a vibração sutil que emana do encontro de olhares, do toque breve que acende a pele.

Um instante... apenas uma fração do tempo, onde as defesas se desfazem, onde o medo se curva à certeza.

A entrega é total, um mergulho sem reservas, no agora que se expande, abolindo passados e futuros.

Nesse núcleo incandescente, onde a promessa se cumpre sem ser dita, onde a entrega floresce sem amarras, existe apenas o ser, vibrando em uníssono com a pulsação do universo.

E a lembrança desse instante, esse rubro na memória, torna-se a bússola silenciosa, guiando os passos em direção a outras entregas vibrantes.

09 maio 2022

TAMBÉM VOU SER POETA

 

TAMBÉM VOU SER POETA 

também queria viajar,
ir e ficar
em pasárgada (sei lá).
e, pelo estatuto do poeta,
tenho direito a pagar meia passagem —
e o pagamento será feito em gramas de sonho.

rompendo as ânsias e lá chegando,
tenho direito ainda
a fixar residência
onde bem me aprouver,
desde que haja cachoeiras por perto
e libélulas gritem cantos
como cotovias,
e sabiás saibam seus ninhos nas palmeiras,
e que explodam girassóis
desde o mais tenro início de inverno,
que não poderá ser
nem muito frio
nem muito distante.

não quero que haja reis,
e sim princesas,
e rainhas brotem aos cachos
como pingo-de-ouro,
e se deixem ser amadas
por seus cavaleiros errantes
assim como eu.

e, quando eu voltar às realidades daqui,
quero ser reconhecido
pela minha eloquência embandeirada
e pela alcunha de:
“poeta, o audaz”.

28 abril 2022

CIDADE EM LIMIAR

 

Cidade em Limiar

Entre o claro e o escuro
a cidade suspira
num fôlego contido
entre a noite e o dia

as luzes hesitam,
os passos desaceleram
e tudo parece esperar
algo que ainda não veio

é um espaço invisível,
um limiar silencioso
onde o tempo se dobra
e o impossível se faz possível

a cidade em limiar
é ponte e margem,
é caminho e parada,
é sonho que desperta

ali, entre sombras e luz,
encontro pedaços meus
escondidos na espera
prontos para renascer

20 abril 2022

TAMBÉM VOU SER POETA

 

TAMBÉM VOU SER POETA 

também queria viajar,
ir e ficar
em pasárgada (sei lá).
e, pelo estatuto do poeta,
tenho direito a pagar meia passagem —
e o pagamento será feito em gramas de sonho.

rompendo as ânsias e lá chegando,
tenho direito ainda
a fixar residência
onde bem me aprouver,
desde que haja cachoeiras por perto
e libélulas gritem cantos
como cotovias,
e sabiás saibam seus ninhos nas palmeiras,
e que explodam girassóis
desde o mais tenro início de inverno,
que não poderá ser
nem muito frio
nem muito distante.

não quero que haja reis,
e sim princesas,
e rainhas brotem aos cachos
como pingo-de-ouro,
e se deixem ser amadas
por seus cavaleiros errantes
assim como eu.

e, quando eu voltar às realidades daqui,
quero ser reconhecido
pela minha eloquência embandeirada
e pela alcunha de:
“poeta, o audaz”.

31 março 2022

LUGAR DE VOLTAR

 

LUGAR DE VOLTAR

a dor não latejava
ela pairava
como uma poeira miúda
depois de um desmoronamento

na pausa entre um suspiro e outro
enxerguei as pessoas
como se fossem partes de um mesmo enjoo
passando rápidas
como quem evita perguntas

eu, ali,
num carro quieto
sem rumo
com os olhos encostados no tempo

queria que a cidade soubesse
que eu estava cansado
e que alguém me dissesse
sem pressa,
“vem, aqui é casa.”

mas o semáforo mudou
e a vida seguiu sua marcha automática
eu apenas fiquei
no desejo de recomeço
que ainda não sei como se faz.

06 março 2022

O PULSAR DA PROMESSA

 

O Pulsar da Promessa

Um rubro intenso, não de sangue ou fúria, mas da cereja madura, do sol que se derrama no horizonte.

Essa promessa pulsa, quase palpável, na quietude que precede o trovão, no brilho úmido da terra molhada.

Não são palavras emolduradas, nem juramentos ao vento. É a vibração sutil que emana do encontro de olhares, do toque breve que acende a pele.

Um instante... apenas uma fração do tempo, onde as defesas se desfazem, onde o medo se curva à certeza.

A entrega é total, um mergulho sem reservas, no agora que se expande, abolindo passados e futuros.

Nesse núcleo incandescente, onde a promessa se cumpre sem ser dita, onde a entrega floresce sem amarras, existe apenas o ser, vibrando em uníssono com a pulsação do universo.

E a lembrança desse instante, esse rubro na memória, torna-se a bússola silenciosa, guiando os passos em direção a outras entregas vibrantes.

15 fevereiro 2022

PULSAÇÃO INTERIOR

 

Pulsação Interior

Sinto em mim um compasso demorado, não a pressa da superfície, mas a batida funda da terra.

Um ritmo lento, como as ondas quebrando na praia distante, um vai e vem constante, que escapa à pressa dos ponteiros.

Uma contração do eu, o recolhimento da energia, o silêncio que precede a palavra, o instante denso antes do florescer.

E então, a expansão sutil, o desabrochar lento da consciência, o preenchimento do espaço interno, a suave irradiação do ser.

Este pulsar íntimo, essa maré interna, não se apressa, não se força, apenas acontece, em sua cadência própria.

É o respirar da alma, o bater do coração da identidade, um ciclo constante de interiorização e manifestação.

Sinto este ritmo em cada célula, na quietude dos pensamentos, na profundidade das emoções, uma dança ancestral do ser que sou.

E nesta lenta pulsação, nesta sutil contração e expansão do eu, encontro a melodia fundamental da minha própria existência.

07 fevereiro 2022

PULSAÇÃO INTERIOR

 

Pulsação Interior

Sinto em mim um compasso demorado, não a pressa da superfície, mas a batida funda da terra.

Um ritmo lento, como as ondas quebrando na praia distante, um vai e vem constante, que escapa à pressa dos ponteiros.

Uma contração do eu, o recolhimento da energia, o silêncio que precede a palavra, o instante denso antes do florescer.

E então, a expansão sutil, o desabrochar lento da consciência, o preenchimento do espaço interno, a suave irradiação do ser.

Este pulsar íntimo, essa maré interna, não se apressa, não se força, apenas acontece, em sua cadência própria.

É o respirar da alma, o bater do coração da identidade, um ciclo constante de interiorização e manifestação.

Sinto este ritmo em cada célula, na quietude dos pensamentos, na profundidade das emoções, uma dança ancestral do ser que sou.

E nesta lenta pulsação, nesta sutil contração e expansão do eu, encontro a melodia fundamental da minha própria existência.

31 janeiro 2022

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

 

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

fiquei ali
entre o motor desligado
e a vontade de desaparecer

a cidade não me esperava
as pessoas
atravessavam a rua como se soubessem
pra onde iam

eu, não.

havia uma pausa em mim
um semáforo interno piscando amarelo
há dias
me pedindo cautela
me impedindo o passo

pensei em você
e no tempo que pediu
como quem pede troco
e vai embora antes de receber

quis voltar pra casa
mas onde é isso
se a casa era você?

meus olhos seguiram a pressa dos outros
mas meus ombros afundaram no banco
como quem sabe
que certas dores
só aliviam quando
alguém volta.

e você não voltou.

25 janeiro 2022

O QUE NÃO MORRE, MAS NÃO VIVE

 O Que Não Morre, Mas Não Vive

Estávamos certos de tudo,
menos do tempo.

Falávamos como quem sabe,
sentíamos como quem nasceu para isso.
Nos tocávamos com alma e com corpo,
sem medo de sermos eternos demais.

Fizemos juras sem necessidade de promessas,
porque bastava olhar,
e o mundo inteiro nos entendia.

Até que um dia
o mundo mudou de idioma.
E nós, calados,
nos perdemos dentro de nós mesmos.

Não foi uma briga.
Não foi um erro específico.
Foi um envelhecimento silencioso.
Como fruta esquecida numa fruteira bela demais para ser tocada.

Seguimos.
Sem coragem de voltar,
sem força para permanecer.

Ela voltou ao passado.
Eu caminhei para um outro futuro.
Casamentos, filhos,
rotinas em ruas que ainda se cruzam,
mas com olhares distraídos demais para se deterem.

Anos.
Décadas, talvez.

Até que a rede, essa rede de todos os acasos,
nos lançou de volta um ao outro.
Não falamos do ontem,
até que falamos.

E ali, entre frases digitadas com dedos que tremiam,
descobrimos a verdade mais simples e cruel:
fomos idiotas.

Não por falta de amor.
Mas por não sabermos o que fazer com ele.

Não cogitamos reencontro,
porque o corpo ainda respeita
o que o espírito aprendeu com Cristo.

Então, sobra o que?

Sobra esse saber inútil,
essa consciência tardia,
essa lucidez que não leva a lugar nenhum.

Sobra o amor, sim.
Mas é um amor que não pode mais se mover.

Sobra a saudade,
essa que não passa nem com o tempo,
porque não quer passar.

E sobra a certeza amarga e doce
de que há coisas que não morrem,
mas também não vivem.

E que isso,
isso é o castigo dos que amaram cedo demais,
ou tarde demais,
ou do jeito certo
na hora errada.

O QUE NÃO MORRE, MAS NÃO VIVE (Versão narrativa)

 O Que Não Morre, Mas Não Vive

(versão narrativa)

Quando eu olho para trás, vejo dois jovens que se amaram com tudo o que tinham — e talvez com o que ainda nem sabiam que tinham. A gente se encontrava no corpo e no espírito como se fosse natural, como se o mundo tivesse sido criado só para que aquilo existisse. Conversávamos sobre tudo e sobre todos. Não havia pressa, nem conflito, nem medo. Parecíamos um par perfeito.

Mas alguma coisa, que até hoje não sei nomear, envelheceu aquele tempo. Não foi uma traição, nem uma briga. Foi algo mais sutil e silencioso: o convívio começou a esmorecer, como uma vela que vai apagando sozinha. E então nos separamos.

Cada um seguiu para um lado da vida. Ela voltou para um amor antigo. Eu encontrei outra pessoa. Casamo-nos. Tivemos vidas boas o suficiente. E por muitos anos, fomos apenas memórias um do outro. Vivíamos na mesma cidade, quase sem nos ver, como duas linhas paralelas que já se tocaram um dia e depois esqueceram como era.

O tempo passou. E com ele veio a era das redes sociais — esse espelho virtual onde os rostos antigos voltam a aparecer. Foi ali que nos reencontramos. Começamos com conversas banais, como quem pisa devagar numa terra queimada. Evitávamos o passado, até que, enfim, ele veio. E quando veio, foi como um silêncio que grita.

Falamos do que fomos. E, com a maturidade que antes não tínhamos, dissemos um ao outro o que nunca dissemos: que fizemos uma grande besteira. Que deixamos o amor partir. Que não entendíamos a vida como ela realmente era.

E que agora, mesmo sabendo disso, não podemos fazer nada. Porque acreditamos. Porque professamos uma fé. Porque sabemos que trair nossos compromissos seria trair a Deus, a nós mesmos, à paz dos que hoje caminham ao nosso lado.

Não há espaço para retorno. Não há chance de reparo. Há apenas esse reconhecimento amargo e, de certa forma, sereno: fomos idiotas. Mas idiotas que amaram de verdade. E isso não é pouca coisa.

Hoje, não somos felizes de forma plena. Tampouco infelizes o tempo todo. Vivemos, cada um no seu canto, com a companhia constante de uma ausência que não desaparece. Um amor que não morreu — mas também não pode mais viver.

E isso, talvez, seja o destino de alguns: amar na hora errada. Sentir o que era para durar, mas sem saber como guardar. E então seguir. Com fé. Com arrependimento. Com ternura. E com a certeza de que algumas perdas são para sempre.

Mesmo que o amor permaneça intacto, no fundo de uma memória que ainda pulsa.

19 janeiro 2022

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

 

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

fiquei ali
entre o motor desligado
e a vontade de desaparecer

a cidade não me esperava
as pessoas
atravessavam a rua como se soubessem
pra onde iam

eu, não.

havia uma pausa em mim
um semáforo interno piscando amarelo
há dias
me pedindo cautela
me impedindo o passo

pensei em você
e no tempo que pediu
como quem pede troco
e vai embora antes de receber

quis voltar pra casa
mas onde é isso
se a casa era você?

meus olhos seguiram a pressa dos outros
mas meus ombros afundaram no banco
como quem sabe
que certas dores
só aliviam quando
alguém volta.

e você não voltou.

01 janeiro 2022

VERÍDICO

 

VERÍDICO

 Ruínas Íntimas

 

Pontes desabam sob meus pés,

como cadafalsos da alma.

A travessia interrompida,

o abismo escancarado,

onde a esperança se espatifa

em destroços e silêncio.

 

Cada passo tentado,

uma nova ruína a surgir.

Os pilares da fé, corroídos,

cedem ao peso invisível

da angústia e da incerteza.

 

O corpo cambaleia na borda,

o olhar perdido no vão.

As promessas de outrora,

agora fantasmas pálidos,

pairam sobre a cratera.

 

E no lugar da passagem segura,

apenas a memória da travessia,

um eco distante de um tempo

em que os caminhos se abriam

sem a ameaça constante da queda,

sem a fria constatação

de que o chão pode sumir

sob o peso dos próprios passos.

 

 

 

12 novembro 2021

A MÁQUINA DA ESPERA

 

A Máquina da Espera

Já não se trata mais de "se",
mas de "como".
O tempo, que sempre foi prisão e mistério,
agora se oferece como trilha —
invisível, mas mapeada
pelas equações de quem ousa sonhar com o impossível.

Michio Kaku, com seus olhos de futuro,
diz que não é mais ficção:
é engenharia.
A mesma que nos levou ao céu,
que pousou o homem na lua,
agora sussurra ao ouvido dos séculos:
"prepara-te, relógio, tua prisão vai ruir."

Buracos de minhoca, campos quânticos,
curvas da relatividade —
são os novos ventos nas velas de um barco
que navega não no mar,
mas na própria estrutura do espaço.

Falta-nos energia, dizem.
Mas quando foi que a falta
impediu o voo?
Quando foi que o medo
venceu o fogo da invenção?

A viagem no tempo talvez ainda more
nos laboratórios do pensamento,
mas o tempo —
o próprio tempo —
já se pergunta
quanto falta
para ser atravessado
não por sonhos,
mas por passos.

19 outubro 2021

AMIGO DO REI

 

Amigo do Rei

 

O protocolo me sufoca, a seda, um peso na pele.

Sorrisos calculados, ecos vazios naquela sala de espelhos.

Eles falam de poder, de guerras e de fortunas,

enquanto eu observo a poeira dançar nos raios de sol furtivos.

 

Eu também sou amigo do rei, dizem.  Mas a amizade se resume

a um aperto de mão frio, a um nó na garganta,

a uma palavra seca, solta no labirinto de seus desejos.

 

Meu reino é a sombra que se estende além dos muros,

a solidão que floresce no jardim negligenciado.

A amizade que ofereço é a da escuta atenta,

o silêncio que acolhe o peso de uma coroa.

 

Não preciso de banquetes, nem de joias cintilantes.

Minha lealdade reside no olhar que desvenda a máscara,

na compreensão que não julga, na palavra não dita

que ecoa mais forte que os cânones e os hinos reais.

 

Eu sou o amigo invisível, o reflexo no espelho quebrado,

a lembrança silenciosa da humanidade que se esconde

sob o brilho opressor do ouro e do cetro.

Eu também sou amigo do rei, em minha própria maneira,

e isso, talvez, seja a verdadeira realeza.

 

08 setembro 2021

DEPOIS DA EUFORIA

 Depois da Euforia

O eco dos tambores ainda paira,
mesmo quando a praça já dorme.
Pisaram os confetes com pressa,
mas o vazio ficou de mãos dadas comigo.

As ruas gritavam cor, mas meus olhos,
abafados por tanta promessa,
viam apenas o chão —
molhado, brilhante de sobras.

Dancei com a multidão sem ser notado,
fui mais máscara do que rosto,
mais silêncio do que canto,
mais ausência do que desejo.

No rastro das serpentinas, busquei sentido,
mas só encontrei retalhos de mim mesmo
perdidos entre trios, brilhos e o som
de algo que prometia ser alegria.

E quando veio a quarta-feira,
não houve cinzas —
houve um espelho.
E nele, o meu cansaço vestido de festa.


Carnaval e o Sentido

O eco dos tambores atravessava os séculos,
como se a alegria pudesse justificar o tempo.
Mas eu, partícula hesitante da massa,
perguntava: quem sou entre mil rostos?

As serpentinas cortavam o céu como perguntas,
sutilezas coloridas num mundo que afunda.
O samba, tão vibrante, deslizava no asfalto,
mas em mim era abismo que não sabia dançar.

Entre máscaras sorridentes e passos precisos,
fui o intervalo, o sem-nome, o intervalo.
Porque quem grita com todos
é também quem escuta a si mesmo com medo.

A euforia dos outros me atravessou
sem jamais me pertencer.
O sentido escorregava como serpentina molhada
entre os dedos da consciência desperta.

E quando a quarta-feira chegou,
não foi fim, nem recomeço.
Foi só mais uma pergunta,
silenciosa e eterna:
vale mesmo a pena fugir de si
em nome de um instante brilhante?


Carnaval e o Sentido (continuação)

As ruas, tão cheias de passos e batuques,
ficaram desertas quando o som cessou.
Mas o vazio — esse não partiu.
Ele sentou-se ao meu lado, sem pedir licença.

Vi sorrisos sendo desfeitos no espelho do metrô,
fantasias esquecidas nos cantos da calçada,
e pensei: será que também eu fui inventado?
Será que minha alegria era só reflexo?

No fundo do peito, uma vontade de crer,
de que algo, talvez pequeno,
tivesse sido real naquela dança.
Mas o real é duro, e nem sempre dança.

E se a festa é um disfarce coletivo,
será a solidão o único nome sincero?
Ou será que no meio da multidão
a alma apenas cochila, à espera de um toque?

Porque o corpo pode pular, girar, cantar,
mas há perguntas que pulsam em silêncio:
Por que o riso exige tanto esforço?
E por que o silêncio é tão pesado depois?


.

09 julho 2021

SE TIVER... EU PREFIRO

 



SE TIVER... EU PREFIRO

Se tiver poentes alaranjados
mostrando os namoros enlaçados
do vermelho com o amarelo,
raios de sol colorindo o fim do dia ,
viagem nos segredos das noites logo após o entardecer,
eu prefiro.

Se tiver momentos de ver o sol
desaparecendo nas águas do mar,
ainda que eu não more por perto,
de perceber promessas, e adivinhar saudades,
e evocar prazeres por sentir que isso é bom,
também.

Se tiver macarronada com sabor de domingo,
com pedaços de queijo parmesão e molho,
e puder ser família
e recolher todos os cacos de sonhos em mim,
desses que sempre quis ter, tive, mas não retive,
por quebradiços que foram,
eu prefiro.

Se tiver condições de espalhar pelas estantes
os DVDs de shows que quisera assistir ao vivo,
e assisti-los ao lado do meu filho,
e batucar ao som de Maria Rita,
e isso me encher de orgulho desmedido,
também.

Se tiver amor que exija minha dedicação
e respeito ao próprio amor,
que é pra ser respeitado
para construir parceria de amizade
e amor com carinho
e sentir gosto pelo inusitado momento de descobrir-se,
eu prefiro.

Se tiver silêncios que permitam ouvir Paul Mauriat
em vinil na antiga vitrola,
e correr o risco de tornar-me saudoso despretensioso,
e até cair na pieguice das manias de depressão,
também.

Se tiver momentos de pensar e ler
e fazer poesias inocentes sem preocupação com as rimas,
momentos de ouvir melodias de Caetano em Quarteto em Cy,
e pensar na alma das melodias a traduzirem pensamentos
e situações, e sonhos, e lembranças, e desejos e projetos,
eu prefiro.

Se tiver olhares de promessas
e bocas de se calarem para se fazerem ouvir,
e perceber nos olhos os sorrisos,
os segredos, os mistérios,
e confiar nos convites,
nos arrepios e nas carícias que se fizerem acompanhar do afeto,
também.

Se tiver amigo de hoje com jeito dos amigos de ontem,
por serem sinceros,
e tê-los ao meu lado,
sabendo-os, todos, poetas apaixonados de longa data
a dividirem comigo as alegrias de sermos todos sonhadores,
eu prefiro.

Se tiver amor que forme trincheiras e ocupe meus territórios
que imploram serem conquistados,
e percebê-los apaziguados
na guerra do descobrir-se sem paixões extremistas,
transformando explosões do querer
em loucuras invasoras de felicidade,
também.

Se tiver culto à serotonina por sentir prazer
em todo o ser
espalhando-se por todo o corpo de ânsias,
adrenalina percebida nos sentidos
que são lidos em minhas entrelinhas
e nas estrofes declaradas
desses versos eloqüentes de amor,
eu prefiro.

Se tiver pequena floresta
onde se possam colecionar
pequenas folhas e verem pequenos insetos pastando,
e perceber águas rolando em som de pequenas cachoeiras,
ainda que apenas em pequenos filetes
também.

Se puder ouvir canários, curiós à solta
e beija-flores em rendas
ao se mostrarem em beijos molhados
nas corolas amarelas das flores;
apaziguar os sentidos da visão,
da audição e do tato
por perceber a natureza à roda,
eu prefiro.

Se tiver palavras de duplo sentido
que denotem sedução e paixão que se fizerem sinceras,
e conversas pra se chegar ao acordo do extasiar-se
acampando perto do prazer
com barracas levantadas
no quintal do entendimento mútuo
que não se fizer prematuro, mas maduro,
também.


Se tiver longas tardes de verão e o sol molhar o meu rosto,
em prenúncio de riso largo e preciso;
sorrisos abertos ao vento que é brisa fresca e silenciosa
a silenciar as chuvas que formarão torrentes amareladas
em marrons de terra sobre a Terra
que nos brinde com todos os outonos de frutas,
eu prefiro.

Se tiver sons de Leila Pinheiro
em decibéis agradáveis aos ouvidos,
e muitas outras coisas que se vive
aos companheirismos das amizades e amores;
e proteção por presença que é presente no presente
para ganhar a maturidade de não tropeçar em decadentes
mutismos e timidez,
também.

Se tiver chance de recomeçar
como houvera de ter começado
por ser direito que não se aliena;
de fazer a história retroceder e,
qual ampulheta que recomeça do zero,
recomeçar do zero a história da vida que vivo
e que precisa ser repartida,
eu prefiro.

Se tiver, eu prefiro.

27 junho 2021

O VENTO DO NÃO-COISA

 O Vento na Não-Coisa

 

Há um sussurro que não tem boca,

uma cor que a retina não capta.

No avesso do tempo, um som sem fonte

desfia o fio que não existiu.

Sou o homem que vê o que não se mostra,

o que sente o peso do leve.

 

As palavras se desfazem na língua

antes de formarem sentido,

escorrem como areia por fendas

que não se abrem.

Há um mapa sem linhas,

um caminho que começa no fim

e termina no nunca.

 

Flutuam objetos sem nome

no espaço entre os pensamentos,

um cheiro de ausência,

o toque frio do imaterial.

E em cada pulso que não marca a hora,

mora o inexplicável,

a verdade nua do que não se compreende.

 

É a melodia de um silêncio infinito,

o reflexo de um rosto que não vejo,

o gosto da lembrança que nunca foi.

E eu, apenas eu,

observo a dança da não-coisa,

e nela, um sentido que me escapa,

mas que me habita por inteiro.

 

 

19 junho 2021

NADA É SÓ O QUE PARECE

 

Nada é Só o Que Parece

 

A névoa se deita sobre a paisagem

e o que era chão vira nuvem,

o que era árvore, fantasma.

Meus olhos traem a certeza.

 

Cada sombra um desenho,

cada luz uma mentira velada,

e a mente, tecelã de enganos,

costura mundos

onde o sólido é fumaça,

e o espelho, um portal.

 

O reflexo não me devolve

o rosto que sei,

mas uma máscara fluida,

feita de perguntas.

Onde reside o verdadeiro,

se a pele do mundo

muda a cada piscar?

 

Busco a essência além do visível,

na fissura do pensamento,

na voz que sussurra

que toda solidez é um acordo frágil,

que o real se esconde

no avesso do óbvio.

 

E então, percebo:

a confusão não está fora,

mas na lente com que vejo.

Tudo é um jogo de ilusões,

e talvez, a única verdade,

seja a busca incessante

pelo que nunca, de fato, é.