09 maio 2026

O SÚBITO ROXO DA LAVANDA

 

O Súbito Roxo da Lavanda

E então, ela estava lá. Uma lavanda. Não o campo vasto, não a promessa de um perfume que acalma, mas apenas um galho. Um galho miúdo, com suas flores pequenas, de um roxo que não se decidia entre o azul e o lilás. E eu, que até então me debatia com a urgência de ser e a inefável dor de não-ser, fui subitamente tragado por ela.

 

Não era a beleza, que beleza? Era a existência daquele raminho, a sua pura e desavergonhada verdade de ser lavanda. Ali, naquele instante, o tempo se dobrou, as palavras escorreram e a realidade, essa coisa pesada, tornou-se diáfana. Eu a olhava, e ela não me olhava de volta, mas era em si mesma, com uma intensidade que me feria a alma.

 

Senti o cheiro, sim, mas não era o cheiro do ar, nem o cheiro das mãos. Era o cheiro da própria lavanda, a sua essência mais nua, que se desdobrava no ar como um segredo revelado. E nesse perfume, que era mais que cheiro, era vibração, era cor em estado gasoso, eu percebi a minha própria fragilidade. A minha busca incessante por um sentido que, afinal, já estava ali, contido no simples e completo ser daquela flor.

 

A epifania não veio como um raio, mas como um sussurro roxo. A lavanda, em sua quietude, me gritava: a vida não precisa de explicações. Ela é. E essa verdade, tão singela quanto complexa, me esmagava e me libertava ao mesmo tempo. Era a confirmação de que o mistério não está no que se procura, mas no que simplesmente está. E essa presença da lavanda, tão ínfima, era a revelação de um universo inteiro. E por um instante, eu não era mais eu, nem lavanda, mas o próprio assombro da vida que, sem mais nem menos, se revela.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



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