O
Súbito Roxo da Lavanda
E
então, ela estava lá. Uma lavanda. Não o campo vasto, não a promessa de um
perfume que acalma, mas apenas um galho. Um galho miúdo, com suas flores
pequenas, de um roxo que não se decidia entre o azul e o lilás. E eu, que até
então me debatia com a urgência de ser e a inefável dor de não-ser, fui
subitamente tragado por ela.
Não
era a beleza, que beleza? Era a existência daquele raminho, a sua pura e
desavergonhada verdade de ser lavanda. Ali, naquele instante, o tempo se
dobrou, as palavras escorreram e a realidade, essa coisa pesada, tornou-se
diáfana. Eu a olhava, e ela não me olhava de volta, mas era em si mesma, com
uma intensidade que me feria a alma.
Senti
o cheiro, sim, mas não era o cheiro do ar, nem o cheiro das mãos. Era o cheiro
da própria lavanda, a sua essência mais nua, que se desdobrava no ar como um
segredo revelado. E nesse perfume, que era mais que cheiro, era vibração, era
cor em estado gasoso, eu percebi a minha própria fragilidade. A minha busca
incessante por um sentido que, afinal, já estava ali, contido no simples e completo
ser daquela flor.
A
epifania não veio como um raio, mas como um sussurro roxo. A lavanda, em sua
quietude, me gritava: a vida não precisa de explicações. Ela é. E essa verdade,
tão singela quanto complexa, me esmagava e me libertava ao mesmo tempo. Era a
confirmação de que o mistério não está no que se procura, mas no que
simplesmente está. E essa presença da lavanda, tão ínfima, era a revelação de
um universo inteiro. E por um instante, eu não era mais eu, nem lavanda, mas o
próprio assombro da vida que, sem mais nem menos, se revela.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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