31 dezembro 2023

Sob camadas de pedra, areia, e tempo

 Sob camadas de pedra, areia, e tempo

Sob camadas de pedra,
há um grito engasgado,
fóssil de uma palavra
que quis nascer mundo.

Areia sussurra segredos
de pegadas que não voltam —
são mapas sem bússola,
são promessas ao vento.

O tempo,
esse escultor invisível,
lixa as margens do que fomos
até restar só o eco.

E no fundo,
onde a luz quase não toca,
repousa um gesto intacto,
como se esperasse recomeço.

Ali, entre ruínas e raízes,
bate um coração antigo,
feito do barro dos dias
e da esperança dos séculos.


19 dezembro 2023

ANTROPOLOGIA URBANA

 

ANTROPOLOGIA URBANA

ela não anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética

é pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada

quem a viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro

nuvem de perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.

03 dezembro 2023

A PORTA ENTRE OS MUNDOS

  

A Porta Entre os Mundos

Eis que estou —
à porta que respira entre o tempo e o agora,
onde os relógios se calam
e os muros falam em línguas esquecidas.

Bato.
Mas não com punhos,
com o som do trovão parado no céu,
com o vento que passa pelas frestas
carregando o nome que só tu sabes.

Se ouvires —
não será com os ouvidos da carne,
mas com a pele da alma,
com o fogo que mora atrás dos olhos.

A maçaneta arde em ouro vivo,
há estrelas girando na fechadura,
e do outro lado,
meu manto é feito de manhãs eternas
e meus pés não tocam o chão.

Abre.
E tua casa se tornará templo,
teu chão será mar de vidro,
teu teto, véu rasgado.

Entrarei como luz atravessa vidro,
sem romper, sem forçar —
mas transformando.

E cearemos.
Na mesa onde os frutos não apodrecem,
onde o cálice não esvazia,
onde tua solidão será apenas
uma lembrança que esquecerá de si.

15 novembro 2023

LIVRE PARA CRIAR

 "Livre para Criar"

É livre o gesto,
na palma da ideia —
onde a palavra espera
e o mundo inteiro cabe.

Não há cerca no sonho,
nem muro no verso
que nasce de dentro,
no tempo disperso.

Podes criar:
um céu de marfim,
um rio sem nome,
um segredo de jardim.

Aqui, o verbo é caminho,
e a escuta, alvorada.
A poesia não teme
nem mesmo o nada.

Apenas há limites
para o que fere ou destrói —
mas o que acende e abraça,
ah, isso é só teu e só dói
de tão belo.



06 novembro 2023

O RETORNO DAS PALAVRAS

 

O Retorno das Palavras

E o que eu dizia
voltava para mim.

não como resposta,
não como castigo,
mas como espelho.

cada palavra lançada
desenhava um contorno novo
em minha própria pele.

o que eu julgava,
me julgava.
o que eu amava,
me amava.
o que eu temia,
me temia.

e assim aprendi:
falar era também ouvir,
gritar era também confessar,
calar era também renunciar.

o que eu dizia
não se perdia no vento —
ele fazia caminho,
dava meia-volta,
e batia na porta do meu peito.

e eu, sem ter para onde fugir,
aprendi a dizer
com mais verdade,
com mais cuidado,
com mais alma.



15 outubro 2023

CADERNO ABERTO

 

  Caderno Aberto

Um caderno aberto
não pergunta por quê.
A folha aceita o que vier:
silêncio, rabisco,
vento de mulher.

Não exige forma,
não impõe juízo.
Aceita o risco
de um céu partido,
de um riso indeciso.

Quem escreve, voa.
E quem voa, vê
que a criação
é ponte de luz
sobre o talvez.


08 outubro 2023

HORIZONTE DE ESPERANÇA

 

Horizonte de Esperança

no fim do olhar cansado
uma luz se acende
sutil, insistente
promessa de manhã

é linha tênue
entre o hoje e o amanhã
onde o sonho se encontra
com a coragem de ser

não é fuga, nem ilusão
mas passo firme
sobre a areia movediça
dos dias difíceis

o horizonte sorri
mesmo quando escurece
e revela que sempre há
um motivo para seguir

pois onde há esperança
floresce a vida
e nasce um novo dia

19 setembro 2023

GEOGRAFIA DO DESEJO

 

GEOGRAFIA DO DESEJO

há uma topografia secreta
no modo como teus lábios
cartografam minha pele

não é pressa —
é percurso.

as mãos, bússolas febris
desenham trilhas
onde antes só havia espera

teu hálito,
vento quente de monções
move cortinas internas
abre portos esquecidos

os músculos se lembram
da língua como seta
da saliva como selo

não há nome para o que se dá
sem pedir,
sem recuar —
mas sabemos.

os corpos, rios que se encontram,
perdem-se em curvas
em fundos não mapeados
em sinuosidades novas
onde o prazer não é fim
mas fenda,
criação,
caminho aberto.

15 setembro 2023

FINALMENTE, O SILÊNCIO ABSOLUTO

 Finalmente, o Silêncio Absoluto

 

E finalmente, o silêncio absoluto, não o silêncio que esconde, mas o que revela.

Não é ausência de som, mas a ausência de todo o ruído interno,

das perguntas incessantes, das expectativas que pesam.

É a dissolução da própria mente em sua busca incessante,

um ponto de quietude que transcende a percepção.

 

É o fim das oscilações, das dualidades,

o espaço onde a paz não é oposta à inquietação,

mas a única verdade que existe.

Nesse silêncio intocado, tudo se harmoniza,

e o vazio que se auto-preenche encontra sua expressão mais pura,

uma calmaria sem ecos, sem reflexos, apenas ser.

 

 

CHEIRO DE TINTA

 

 Cheiro de Tinta

Liberdade tem cheiro
de tinta fresca na manhã,
quando o papel respira
e a mão ainda hesita.

É o som do grafite
riscando devagar,
feito um segredo
que começa a cantar.

Tem gosto de fruta cortada,
cor escorrendo no céu,
textura de palavra molhada
em saliva e papel.

Criar é sentir —
com todos os poros,
como quem toca o mundo
e volta com olhos novos.




01 setembro 2023

PLENITUDE NA VASTIDÃO DO NADA

 

 Plenitude na Vastidão do Nada

 

E a plenitude na vastidão do nada, o ápice do paradoxo,

onde o vazio não é falta, mas presença absoluta.

Não é um espaço oco à espera de preenchimento,

mas o próprio infinito que se revela em sua essência.

 

É a liberdade de não ter contornos, de não ter limites,

a paz de ser tudo e nada ao mesmo tempo.

Nesse "não-lugar", a mente se aquieta,

e a existência transcende a forma, o nome, o peso.

É a perfeição do ser desprovido,

onde a completude nasce da ausência de tudo,

e o silêncio se torna a sinfonia mais rica.

 

 


31 agosto 2023

O VAZIO QUE SE AUTO-PREENCHE

 

O Vazio Que Se Auto-Preenche

 

E o vazio que se auto-preenche, um paradoxo

que desfaz a lógica do que é ausência.

Não é um nada que espera ser completo,

mas uma plenitude que surge de si,

uma existência que se basta sem ter.

 

É como a vastidão do céu noturno,

que parece vazio, mas é infinito em estrelas invisíveis,

uma profundidade que se revela em sua própria essência.

Não há necessidade de adição, de preenchimento externo,

pois a essência já está ali, em cada não-coisa.

 

Nesse espaço, a paz é a própria matéria,

o silêncio, a voz mais alta que se pode ouvir.

É a libertação do conceito de falta,

a descoberta de que o vazio não é carência,

mas a forma mais pura de ser, a totalidade em sua vastidão.

 

 

15 agosto 2023

A PAZ ALÉM DO DESCANSO

 

 A Paz Além do Descanso

 

E a paz além do descanso, um estado que transcende

o simples alívio de um peso que se vai.

Não é a quietude que sucede a tempestade,

mas uma ausência de necessidade,

onde o anseio e a busca se dissolvem.

 

É a serenidade que não depende de sono,

nem de pausas, nem do fim de uma jornada.

É o ponto onde a consciência se aquieta,

livre dos ecos do passado, das promessas do futuro.

Uma leveza indescritível,

que não é a ausência de peso, mas a ausência de esforço.

 

Nesse lugar, a existência apenas é,

sem a urgência do tempo, sem a pressão do desejo.

É a dissolução da própria busca,

a descoberta de que a paz não é um destino,

mas o próprio vazio preenchido de si mesmo.

 

 

01 agosto 2023

A PROMESSA DO VAZIO

 A Promessa do Vazio

 

E a promessa do vazio, uma melodia suave

que sussurra alívio onde antes só havia caos.

Não é uma ameaça, mas um convite,

a certeza de que, ao fim, tudo se dissolve,

e a pressão cessa, e o ruído se cala.

 

É o vislumbre de um descanso absoluto,

onde as perguntas se apagam sem respostas,

e os problemas se desfazem em nada.

O vazio, então, não é mais um abismo a ser temido,

mas um horizonte sereno,

onde a paz finalmente se instala,

uma calmaria sem fim para a alma exausta.

 

 

31 julho 2023

A ÂNSIA DO VAZIO

 

 A Ânsia do Vazio

 

E a ânsia do vazio, uma sede estranha

por aquilo que não tem forma, não tem som.

Não é medo do nada, é o acolhimento que se busca,

a promessa de um espaço onde a dor não ecoa,

onde a intensidade se dilui em silêncio puro.

 

É o chamado da ausência,

um convite para desaparecer,

para que o fio se desfaça de vez,

e a pressão ceda, e o peso se esvai.

O vazio, então, não é mais ameaça,

mas um refúgio, um ponto de fuga,

onde a existência se apaga

e finalmente se encontra a paz que a vida nega.

 

 

04 julho 2023

ANTROPOLOGIA URBANA

 

ANTROPOLOGIA URBANA

Ela não anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética

é pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada

quem a viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro

nuvem de perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.




06 junho 2023

BANQUETE ESCONDIDO

 

Banquete Escondido

 

No emaranhado dos dias,

Tentei decifrar o amanhã,

um novelo de possibilidades

e incertezas.

O que seriam aqueles contornos?

E como moldaria o nada

que se anunciava?

 

Mas o medo,

um gigante silencioso,

espreitava em cada sombra.

Roubava suspiros,

pequenas porções de ar puro

que eu engolia em segredo.

 

No jogo de esconde-esconde comigo mesmo,

as mãos apertavam o vazio,

os olhos fixos no que não via.

Comia o próprio fôlego,

tentando preencher o abismo

com a coragem que me faltava.

 

E o banquete,

preparado apenas para

os meus olhos,

 era feito de assombros e pressentimentos.

Um festim de suspiros roubados,

enquanto a vida,

(lá fora),

esperava ser vivida.

01 junho 2023

ISSO É NORMAL

 

ISSO É NORMAL

 

vez por outra estou às voltas com

a pieguice suprema de

precisar de lucidez

e beber o meu único instante lúcido.

de sentir-me cabeça que pensa

de ser coração que corresponde

aos corações

de precisar criar coisas como todo mundo

(coisas que sirvam de base de troca.

coisas que possam ser vistas como algo bom).

eu queria que outras pessoas

além de mim mesmo

pudessem ler o que escrevo

e conversar comigo

com voz amiga

e sentimento materno

e falassem com clareza

que agora já sou lúcido

24 maio 2023

PALAVRA PRESA

 PALAVRA PRESA

 

Esse nó na garganta, apertado e cruel,

Sufoca a voz, a fala, o pensamento.

Um peso imenso, que se faz implacável,

Em silêncio rouba a paz e o contentamento.

 

A palavra presa, em vão tenta escapar,

Mas a angústia a prende, em sua teia escura.

Um turbilhão de emoções, que se amontoam,

E a alma se debate, em sofrimento puro.

 

Lágrimas contidas, um oceano calado,

Que inunda o peito, com sua dor profunda.

A solidão se instala, em seu reino sagrado,

 

E a esperança se esvai, como fumaça efêmera e munda.

Só resta a espera, paciente e sem alívio,

Que esse nó se desfaça, em suave derretimento

23 maio 2023

NOJO

 

Nojo

Eu tenho nojo da fome
que grita no estômago das crianças
e é calada
pela indiferença.

nojo da corrupção
que veste terno
e come o pão
de quem não tem nome.

tenho nojo da desumanidade
que transforma gente
em estatística,
da violência cotidiana
que vira trilha sonora
de quem já nem reage.

tenho nojo —
mas não me calo.
o nojo é o grito
antes da ação,
é o enjoo de um mundo
que precisa nascer de novo.

meu nojo
não é repulsa
à dor do outro.
é repulsa
de viver num sistema
que a produz
e a lucra.

há um tipo de nojo
que desperta:
ele queima por dentro,
até virar verbo,
até virar
luta.

22 maio 2023

FRAGMENTOS DE ESPELHO

 

Fragmentos de Espelho

Eu me olho
e não me vejo inteiro
apenas partes —
reflexos partidos
em molduras sem vidro

há um pedaço de mim
no riso que invento
outro
na dor que escondo

o espelho nunca mostra
a alma em voz alta
só fragmentos
como se a verdade
não coubesse de uma vez

sou um quebra-luz
feito de cacos que brilham
mais do que se fossem lisos

e às vezes entendo:
não preciso ser inteiro
pra ser sincero
nem simétrico
pra ser belo

sou feito de estilhaços
mas cada um deles
carrega um céu

19 maio 2023

SÓLIDA SOLIDÃO

 

SÓLIDA SOLIDÃO

meu quarto inerte me deixa só
e o frio (estúpido) se desprende da
vidraça fechada atrás das cortinas
de cetim amarelo-doentio

em meu peito meus braços me dizem
que já não suportam o vazio
que deixas quando não vejo nem toco
teus lábios

quisera poder sugá-los
por todos os ângulos
em todos os lugares:
em minha cama
no cinema
no drive-in
em qualquer parque onde brotam
as vincas
na rua
na dura realidade do dia-a-dia
até sentir que não
morrerei
na (não nessa) solidão


Revisão alternativa (mesma base, mais crua):

meu quarto é uma caixa de ausência
o frio atravessa a cortina
como se o cetim não bastasse

meus braços, cansados,
me imploram pele
em vez do eco

teus lábios:
onde ficam quando o mundo me pesa?
quisera lambê-los de volta à existência
no escuro,
no riso,
no lugar onde brotam vincas e vontades
na rua
na cama
entre a pipoca e o pânico cotidiano

só assim, talvez,
a solidão parasse
de virar rocha dentro de mim.

O VÔO II

 

O VÔO II

cheguei
sem saber se era certo
sem saber se ainda era hora

meu corpo
um corpo ausente de certezas
andava sozinho por esteiras e corredores
como se obedecesse a outra mente
(ou outro coração)

você não estava —
mas eu reconheci seu cheiro
nas árvores baixas da saída
e na moça do balcão
que me disse “bem-vindo”
com um sorriso parecido com o teu

por um instante
achei que te veria correr
com o cabelo amarrado
e uma mochila torta
dizendo “eu sabia que você vinha”

mas não veio

então esperei mais um pouco
como quem espera o amor
na segunda chamada de um vôo cancelado

e fui embora
sem mala
sem pressa
com o eco de tua voz em meu nome
Viny
só você me chama assim
e isso ainda dói.

16 maio 2023

LÍNGUAS DE PEDRA

 

Línguas de Pedra

A terra respira. Não com pulmões de carne, mas com o lento inchaço de montanhas erguidas sobre milênios.

Sua voz não é som, não é palavra gritada no vento. É o peso da rocha, a ruga no flanco da colina, o granito calado na base do tempo.

A língua da pedra. Gravada em estratos, em fósseis que foram vida, em minerais que guardam a memória de fogos primordiais.

É a textura áspera sob a mão, o frio ancestral que emana do coração da montanha. Cada fissura, cada veia quartzo, uma sílaba esquecida, um verso petrificado.

E o silêncio. Ah, o silêncio da terra! Não o vazio, mas a plenitude que não precisa de som. O vasto deserto sob o sol impiedoso. A floresta densa antes do amanhecer. As cavernas escuras e profundas.

É o silêncio que precede a tempestade, o silêncio que guarda segredos de Eras Glaciais, de mares que secaram, de seres que andaram por aqui e se tornaram pó.

A terra fala em línguas de pedra, com a solidez imemorial que desafia nossa brevidade.

Fala em silêncio, com a quietude profunda que nos convida a ouvir além do barulho.

Basta parar. Sentir o chão sob os pés. Ver a montanha ao longe. Estar no vasto. E a terra, então, começa a contar sua história antiga, em sua própria e silenciosa linguagem.

09 maio 2023

CAMPONESA

 

CAMPONESA

entro em seu delírio
como se buscasse o significado
de seu corpo,
áspero pelas asperezas
que a terra lhe deixa
quando revolve a terra
em busca das tantas
fertilidades.

são tantos os caules
que cultiva,
são folhas,
são tubérculos
e outros frutos
que Gaia nos dá
após alimentá-los
em seus úberes.

entro em seu delírio,
e a memória me remete
aos banhos
no lago,
que nos refresca para o início
do momento que se
faz presente.

e não revelo quem é
nem o que cultiva,
para que tudo dure
até que o passado
se confunda
e se perca nas vontades
do futuro.

15 abril 2023

A FORMA DO INVISÍVEL

 

  A Forma do Invisível

Nem tudo tem contorno.
Às vezes, o poema
é só vento que pensa,
é mar sem costura.

Mas a forma chega
como quem molda o ar,
um gesto que curva
o que se quer tocar.

É o corpo do som,
a linha do espaço,
o peso da pausa
no fim de um abraço.

Criar é inventar contornos
praquilo que escapa,
dar forma ao silêncio
sem que ele se quebre.

Porque o invisível,
quando ouvido com cuidado,
tem um rosto possível.



01 abril 2023

A COR QUE SE ESCONDE

 

A Cor Que Se Esconde

A cor não grita —
ela espera, escondida
no canto do verso,
na dobra do dia.

Às vezes, vem cinza
feito céu sem resposta,
às vezes, explode
num azul que aposta.

É o vermelho
do susto ou do sangue,
o amarelo
que dança na língua,
o verde do tempo
que nunca se cansa.

Criar é manchar o vazio
com o tom que se sente,
pintar com o pulso
aquilo que mente.

Porque há cores que nascem
só quando se escreve.

31 março 2023

LUZ QUE ESCORRE

  

Luz que Escorre

A criação começa
quando a luz escorre —
não pela janela,
mas entre as ideias.

Um clarão súbito,
um raio calmo,
um brilho que invade
sem pedir palma.

É quando o olho
vê o que não há,
mas sabe que existe
no vão do olhar.

Luz que colore
o que ainda é vago,
que acende o traço
num tempo devagar.

Criar é acender
a sombra do mundo
com uma lanterna
dentro do peito.





15 março 2023

A PORTA TRANCADA POR DENTRO

 

 A Porta Trancada Por Dentro

 

E a porta trancada por dentro,

não é parede, é barreira.

Não há chave, não há fresta,

apenas a mão que a segura,

a minha própria,

que não cede, não liberta.

 

É um ato de auto-prisão,

uma escolha sem nome,

que prende o passo, cala a voz.

O lado de fora, um sussurro distante,

o que poderia ser, um sonho.

 

E o silêncio aqui dentro,

não é paz, é eco.

O eco das chances perdidas,

dos caminhos não tomados.

A porta, um espelho turvo,

refletindo a mim mesmo,

o carcereiro, o prisioneiro.

 

 


01 março 2023

PELE DE PALAVRA

  

Pele de Palavra

Escrever é tocar
com dedos invisíveis.
A palavra tem pele —
às vezes morna,
às vezes febril.

Cada verso encostado
carrega um arrepio,
um traço que desliza
como quem sente
sem ter desvio.

É o papel que arrepia,
é a tinta que pulsa,
é o gesto que molda
o que era bruma
e agora pulsa.

Criar é passar a mão
no que ainda não existe
e, com delicadeza,
sentir que resiste.



28 fevereiro 2023

A INTENSIDADE DOS SENTIMENTOS

 A Intensidade dos Sentimentos

 

E essa intensidade, um mar sem fundo,

que não afoga, mas arrasta e comprime.

Não é uma brisa, é um furacão interno,

onde as emoções não se suavizam,

apenas ganham peso, densidade.

 

A tristeza não é tristeza, é um abismo.

A incerteza não é dúvida, é um grito preso.

Cada fibra do ser vibra com a sobrecarga,

como um fio que estica até o limite,

prestes a romper, mas que não se quebra.

 

É a vida sentida em carne viva,

onde cada toque dói, cada pensamento queima.

Não há anestesia para a alma,

apenas a plenitude esmagadora

desses sentimentos que se agigantam,

preenchendo todo o espaço, sem ar para respirar.

 

 

Vida Sentida em Carne Viva

 

E a vida sentida em carne viva,

cada toque, uma pontada.

Não há escudo, não há pele grossa,

apenas a exposição crua da alma.

É como se os nervos estivessem à flor da pele,

captando cada vibração, cada sussurro do mundo.

 

O amor, quando surge, é um incêndio;

a dor, um abismo sem fim.

Não há meios-termos, não há tons pastéis,

apenas a explosão das cores mais intensas,

pintando a existência com traços fortes e violentos.

A sensação é tão real, tão presente,

que a respiração se torna um ato consciente,

uma luta para suportar o que se sente.

 

O Limite de um Fio Esticado

 

E o limite de um fio esticado,

prestes a romper, mas teimosamente intacto.

Não é fragilidade, é uma resistência exaustiva.

Cada puxão, cada tensão, aproxima do ponto final,

mas a corda ainda vibra, ainda suporta.

 

É o limite da alma,

onde a elasticidade já não existe,

e a ruptura parece a única lógica.

Mas o fio, teimoso, mantém-se,

uma metáfora da persistência imposta,

da força que se nega a ceder,

mesmo quando tudo clama por um fim.

 

 

Resistência no Limite

 

E a resistência no limite,

uma batalha silenciosa e inglória.

Não é força que impulsiona,

é a última reserva, o fôlego arranhado

que se nega a ceder, a desabar.

 

Os músculos tremem, a mente vacila,

mas algo insiste, algo persiste.

É a teimosia da sobrevivência,

a recusa em aceitar a derrota,

mesmo quando a vitória é apenas a não-queda.

 

Nesse ponto extremo, a dor se confunde com a inércia,

e o desejo de parar é tão forte quanto a ânsia de continuar.

É a dignidade do fio esticado,

que se recusa a se romper,

ainda que cada fibra clame por alívio.

 

 

Vontade de Não Continuar

 

E a vontade de não continuar,

um cansaço que transcende o corpo.

Não é preguiça, não é desistência covarde,

é a exaustão da alma, o esgotamento da fé

em cada novo passo, em cada amanhecer.

 

Os dias se arrastam, pesados,

e a perspectiva de mais um "virá"

é um fardo insuportável.

É o desejo de que o tempo pare,

que o fio se rompa de vez,

que o silêncio se instale sem eco.

 

É a promessa do vazio, que de repente

parece menos ameaçadora que a plenitude da dor.

A ânsia de sumir, de dissolver-se

em um nada que finalmente traga a paz,

o fim da luta, o descanso sem sonhos.