07 dezembro 2018

RECONSTRUÇÃO TRANSPARENTE

 

Reconstrução Transparente

 

Fui reconstruído com vidro e vento.

Sem tijolo, sem argamassa.

Apenas a transparência frágil

do que vê e do que passa.

 

O vidro me deu a memória das rachaduras,

o brilho dos cortes,

a luz que atravessa

e não esconde.

E o vento, ah, o vento me ensinou

a ser flexível, a curvar sem quebrar,

a carregar sussurros e ir embora.

 

Não sou de concreto,

nem de madeira antiga.

Minha estrutura é um sopro,

uma silhueta contra o céu.

Permito que o mundo me veja por dentro,

e que o ar me leve um pouco.

 

E nessa nova forma, leve e etérea,

aprendi que a solidez não está

no que se acumula,

mas no que se permite ser

moldado e levado,

um fragmento de luz,

um suspiro em movimento.

22 setembro 2018

AGORA EU SEI...

 Agora eu sei que a vida é curta demais

Agora eu sei, a vida é breve,
passa depressa, voa tão leve.
Entre um suspiro e outro olhar,
há tanto sonho pra se alcançar.

Agora eu vejo, sem mais demora,
que cada instante é feito de aurora,
e cada riso, cada canção,
é chama acesa no coração.

Não vale a pena guardar tristeza,
nem adiar a simples beleza
de um abraço dado sem porquê,
de um “eu te amo” sem esconder.

Agora eu sei que o tempo é vento,
e que viver é puro momento.
Então eu danço, eu canto e vou,
pois só o agora é o que ficou.

01 julho 2018

CAIXA MÁGICA




Caixa mágica

a vontade é louca
várias pequenas e
poucas grandes vontades
correr descalço
pular amarelinha
subir na goiabeira
que agora não tem goiabas
o pneu ainda está pendurado
balanço perfeito.

no álbum impera o sépia.
alguns descascados
até mancha que parece de vinho
a caixa ainda está amarrada
com a fita carmesim.

quem deu o presente?
quem deu o futuro?
quem destruiu o passado?

vontades de voltar.
posso?

29 junho 2018

UM PINGO É UMA GOTA?

 


Um Pingo é uma Gota?


gostoso sair na chuva

gosto de sair na chuva
de encontrar pingos
amigos
cinemas
depois eu volto de táxi.

quero me contar
sem me conter
nas emoções
sentir o ar na vidraça
o vidro suado do vapor
a janela aberta
o frio penetrando.

ao longe o latido
sons que me chegam
sem compromisso de ficar.

juntos assistimos cores
variadas flores
sentimos
dores
as particulares e as outras.

mas nem todas.

qual o filme?
falava de destinos
corações
apaixonados
havia esperanças
suspiros
alguns apertos
momentos desconexos.

tudo na pressa
mas eu gosto.

gostava.

.
.
.

Vicente

SEXTO SENTIDO

 

SEXTO SENTIDO


Existe um sexto sentido que precisa ser vivido
dito
sem palavras
sem trapaças
sem textos
sem pretextos.

então:

que esse sentido exploda
e atinja o óbvio do alvo
e se afaste das camuflagens
e perceba as descobertas
e se sinta inquieto
e se encarregue do transformar.

que seja doce ainda que efêmero
e se confunda
com o coito das noites
penetrando as madrugadas
parindo dias
ressuscitando cores
ressurgindo em raios
de todas as luzes.

que todas as palavras
explodam
ressoem
maquiem as notícias
e se lancem
em busca do inédito
e deem crédito
a esse sexto sentido
que se chama
amor.
.
.
Vicente
.
.

25 junho 2018

LABIRINTO

labirinto

sinto passagens em mim
que saem em mim
que entram em mim
sempre no mesmo eu
na mesmice tão esmigalhada
por todas essas pressas
de muros
de sebes
de alamedas
sensação estranha
labiríntica.

caminho por essa sensação
como se fosse estrada.

caminhar
com verbo no horizonte
mais-que-perfeito
procurando o imperfeito
daqueles dias cinzentos.

tenho tantos temas
tinha tantos
tantos temores
no amanhã
e no ontem
quando nem existiam palavras
que adivinhassem você.

no hoje
porém
palavras
sugerindo outros
temas
transes
sua existência
tão ali.
tão aqui.

palavras  (lhe) refletem
:
amor
namoro
namorados
:
tantos
cantos
cantados.

encantos
momentos
ainda
(linda)
sonhando
acordado
namorados
namorando
namorada.

palavras
essas mesmas que explodem
denunciando tudo o que já foi escrito
dito
sugerido
amigos
amantes
ciúmes
em amargo de chocolate
de  estreitamento
de zap
de morenez.
de loucuras morenas
de frestas de portas de quartos.

e cheiros
e arrepios
e sabores
e medos.
em línguas sôfregas
que se espreitam
e se buscam
em sonhos
de pernas
que se descruzam
e se mostram
e se misturam
e se confundem.

até
se sentirem saciadas.

em outros temas
e datas
e manhãs tão variadas
e noites tão esperadas.

até
nem perceber.

confusões
de mentes
de pensamentos
de vontades
de despedidas
(que não se concretizam)
:
tão amiúde
tão inteiramente ignoradas.

até
saber que se descansa.

pro outro
(dia)
nascer feliz
de novo
e de novo
e de dizer que
agora
você está aqui.

daquele jeito
que eu sempre
quis.


.

27 maio 2018

INÍCIO DOS CACOS

 

Início dos Cacos

 

Estou bem no início dos meus cacos.

Não a poeira, nem o fim da queda,

mas o momento exato do estilhaço.

Onde a forma antiga se desfaz,

e a nova ainda não tem nome.

 

Aqui, o corte é fresco,

a dor, pontiaguda,

e o mapa do estrago

se desenha em cada lasca.

Não há como esconder,

ou fingir que não quebrou.

 

É o instante cru,

a verdade desnudada

de que algo se partiu.

Mas também é a promessa,

quase imperceptível,

de que a reconstrução

começa bem aqui,

na primeira farpa,

no primeiro brilho

de um pedaço

que ainda pode ser.

 

 

23 maio 2018

PASSOS NA CALÇADA

 

Passos na Calçada

Cada passo é um verso
escrito no asfalto quente
histórias invisíveis
que se perdem no movimento

há passos apressados
que fogem do tempo
e passos lentos
que saboreiam a cidade

calçadas guardam segredos
de encontros e partidas
de risos esquecidos
e lágrimas sem nome

cada pegada no chão
é um traço de vida
um convite silencioso
para ouvir o que ficou

e mesmo na multidão,
sou único nesse caminhar
feito passos na calçada
que querem se encontrar

16 maio 2018

CAMISA DE FORÇA DA OBRIGAÇÃO

 

Camisa de Força da Obrigação

 

Não te veste, mas te prende.

Um tecido invisível, fio a fio,

Tecido com os "deverias", os "tens que",

Amarrando o corpo, roubando o ar, o pio.

 

Sufoca o grito que quer ser canção,

Apaga a cor que o desejo pintou.

Cada nó, um "não" à intenção,

À liberdade que um dia sonhou.

 

É o peso do amanhã, o temor do "se",

A sombra que se estende sobre o agora.

E a alma, apertada, tenta mover-se,

Prisioneira em sua própria demora.

 

Mas sinto a fibra ceder, frágil,

A cada "não" que o coração permite.

Rasgando a trama, um gesto ágil,

Buscando o espaço que a vida me remite.

09 maio 2018

SOL NEGRO

     Sol Negro 

Sob o sol negro de um éon olvidado, 

onde a grama espectral sussurra lamentos antigos, 

os Desprovidos, almas errantes sem o farol celeste, 

irão provar o fel da noite eterna.


Lágrimas de obsidiana, não de contrição,

 mas de angústia cósmica, 

verterão dos seus olhos vazios, 

poças de sombra na terra desolada.


O ar rarefeito vibrará com um único som: 

o gemido gutural da perda primordial, 

ressoando pelas ruínas de mundos extintos.


Ódio, serpente de escamas fuliginosas, 

erguerá a cabeça hedionda, e sua voz, 

um raspar de pedras tumulares, 

será a única canção na vastidão sombria.


Dor, espectro de mil pontas geladas, 

dançará em torno dos Desprovidos, 

tecendo um sudário de agonia infinita 

na escuridão que os engolirá por completo.

Não haverá aurora, nem sussurro de perdão,

apenas o reino espectral da Noite sem deuses, 

sem Deus,

onde o sofrimento é a moeda corrente ,

e o eco dos gemidos, a única litania.

A BÚSSOLA DA FÉ

 

       A Bússola da Fé

Haverá um dia, prenhe de um silêncio carregado, em que aqueles que percorrem os caminhos da existência alheios à presença divina sentirão o peso da ausência como um manto de chumbo. As lágrimas, antes represadas pela ilusão da autossuficiência, jorrarão como fontes amargas, inundando a alma com a percepção tardia de um vazio insondável. A luz se extinguirá para eles, e a escuridão, outrora ignorada, se fará morada constante, fria e opressora.

Naquele tempo sombrio, a melodia da vida se transformará em um coro de gemidos lancinantes. O riso emudecerá, substituído pelo eco doloroso da constatação. O ódio, cultivado nos recantos sombrios do espírito, e a dor, sua fiel companheira, romperão as barreiras do silêncio, propagando-se em ondas de aflição. A escuridão não será apenas a ausência de luz, mas a própria manifestação do sofrimento, um lugar onde a alma se debate em vão, prisioneira das consequências de um caminho percorrido sem a bússola da fé.

A ELE

 

A ele

Amigo, o fim se achega. Não como um trovão distante, mas um passo na areia.

E a velha palavra insiste: Jesus, 

ele vem. 

Não amanhã, 

nem depois da curva do tempo.

Agora. 

Este rasgar de presente. 

O tempo sangra urgência.


É hoje, amigo. 

A mão aberta, 

o gesto puro. 

Dar.

A Ele, 

silencioso na vastidão, 

a pupila da espera.

Teu coração. 

Essa matéria bruta, 

esse tremor de vida. 

A entrega. 

Sem laços, sem nós. 

Só o ser exposto.


O VENTO DOS FINS

                      

                    O Vento dos Fins


Amigo, sinto o vento dos fins se aproximando, como um sussurro na folhagem densa da tarde. O livro antigo, com suas páginas amareladas pelo tempo, ecoa uma promessa: Jesus virá. Não em um futuro distante, envolto em névoas de eras, mas agora, neste instante efêmero que nos veste. O tempo urge, amigo, pulsa em nossas veias como a melodia insistente de um chamado. É hoje o dia de desabrochar a flor mais íntima, aquela que reside no jardim secreto do peito. É hoje o momento de ofertar, sem reservas, o relicário frágil e precioso do teu coração a Ele, que na quietude da eternidade, espera. A espera não é ansiosa, mas compassiva, como a do jardineiro que aguarda o tempo certo para a colheita. Entrega, amigo, essa morada de sentimentos, com suas alegrias e sombras, suas canções e silêncios. Ele acolherá, com a ternura do sol que beija a terra, a singularidade da tua essência.

27 abril 2018

GRITOS SEM ROSTO

 

Gritos Sem Rosto

 

Há um grito em mim que não reconheço.

Não tem voz, não tem rosto,

eco em paredes que não existem.

É um desespero surdo,

uma urgência que não se explica.

 

Ele nasce, cresce,

mas não encontra caminho para fora,

ou para dentro, onde eu o pudesse nomear.

É um emaranhado de nó,

um mapa sem legenda,

e eu, o explorador perdido

na própria geografia da alma.

 

Nem eu entendo meus gritos.

São idiomas de dor

que minha mente não traduz.

Apenas a reverberação de um tremor

que me habita, secreto,

e me deixa à deriva

no oceano do que não sei sobre mim.

 

08 fevereiro 2018

À PORTA

 

À Porta

Eis que estou —
não longe, não oculto —
mas à porta.
Onde o silêncio ecoa
e a alma se conforta.

Bato sem pressa,
sem arrombar os dias,
com a mansidão
de quem conhece
as chaves do coração.

Se ouvires a minha voz
no vento da tarde,
no lampejo da dúvida,
no sussurro da verdade —
abre.

Não trago fardos,
trago mesa.
Trago vinho,
trago pão,
trago a luz que acende
tua própria direção.

Entrarei sem exigir,
cearei sem cobrar,
e a solidão que te cerca
irá me acompanhar —
e sumir,
como névoa diante
do olhar.