12 março 2017

O SEDIMENTO DO SER

 

O Sedimento do Ser

Você me pergunta o que é feito delas,

dessas camadas que cultivou no escuro,

sob a dobra do tempo e o abrigo da pele.

 

Eu te digo: elas viraram solo.

 

Não se perdem as águas que passaram,

nem o sal que ardeu nos olhos de outrora;

eles decantaram em silêncio,

transformando a carne em território,

e a memória em geologia.

 

O que você chama de sensibilidade

é, agora, a sua fundação.

É o que impede que o vento te leve

quando o mundo sopra desordem.

É a matéria que amortece o impacto,

que transforma a pancada em eco

e o grito em melodia mansa.

 

Essas camadas são o seu "Doces Poesias":

o açúcar que cura o amargor do chumbo,

a lente que filtra a luz que seria incêndio.

Elas são o que te permite olhar para o vão

e, em vez de abismo,

enxergar apenas um lugar para descansar.

 

Nada se desperdiçou.

Você não apenas carregou o tempo;

você o transformou em abrigo.

E hoje, quando você respira,

são todas essas camadas que, juntas,

ajudam o seu peito a se expandir.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



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