Oitenta e Quatro
Ainda ontem era ontem,
com cheiro de hoje,
com futuro de amanhã.
Ainda ontem era oitenta e três.
Parece-me que ontem
ainda era oitenta e dois e tantos anos assim.
O tempo era um novelo que eu desenrolava sem pressa,
achando que o fio não teria fim.
Tinham ainda ontem alguns luares.
Estrelas gritavam
espremidas nesse cosmos
tão estreito e achatado.
Eu não me dava conta
que o oitenta e quatro batia-me à janela envidraçada.
Seu punho era de vidro, mas o som era de ferro.
Fazia uma meia-noite de faz-de-conta
ainda ontem.
E nos esquecíamos do dia
que teve o meio-dia
lá pelo meio do dia.
Esbarrando na tarde.
Esperávamos com ânsias.
Meia-noite.
Pelo luar percebe-se
que o dia que virá,
virá carregado de luz.
Declamam estrelas alguns versos desencontrados.
As mais experientes gritam sonetos
na mais louca quietude do vácuo.
(O céu é um palco mudo de tragédias e festas).
(Esse verão promete)
O Sol anda bocejando vento solar.
Os ventos bocejados são expedientes
de um prenúncio de dias melhores,
mais quentes.
Um calor que não queima a pele, mas incendeia o peito.
Ao longe tocam canções.
São fogos aos céus subindo.
Súbitos.
Explosivos.
Nos arredores: saudade.
Crepitam as saudades
em consultiva fogueira interior.
O estalo da brasa é o único relógio que aceito.
Revisitei minhas esperanças.
Farei dessa visita minha rotina.
Pois quem sobreviveu ao ontem,
tem pressa de inaugurar o agora.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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