A CAPACIDADE DE NEGAR
E a minha capacidade de negar?O que faço com ela?
Guardo-a numa gaveta escura,junto com as chaves do que não abri,com os bilhetes que não enviei,com os beijos que guardei na garganta?
Ou deixo-a à mostra,como um objeto que não sei usar,que pesa na palma da mãoe aquece, queima, até fazer entenderque negar também é uma forma de existir?
Neguei o cansaço quando o corpo pedia parada.Neguei a saudade para não doer mais fundo.Neguei o amor para não correr o riscode ver tudo desmoronar ao toque dos dedos.
Mas negar também é escolher, não é?É dizer “não” ao que chega,para proteger o que fica escondido,o que é meu, o que é íntimo,o que ainda não tem nome nem forma.
E agora que ela está aqui,tão forte, tão viva, tão minha,eu pergunto de novo:o que se faz com o dom de negar?Guarda-se?Usa-se?Ou deixa-se que ela mesma nos ensineo que é aceitar de verdade,só depois de ter sabido dizer não?
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ
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