31 maio 2026

A CAPACIDADE DE NEGAR

 

A CAPACIDADE DE NEGAR


E a minha capacidade de negar?
O que faço com ela?
Guardo-a numa gaveta escura,
junto com as chaves do que não abri,
com os bilhetes que não enviei,
com os beijos que guardei na garganta?
Ou deixo-a à mostra,
como um objeto que não sei usar,
que pesa na palma da mão
e aquece, queima, até fazer entender
que negar também é uma forma de existir?
Neguei o cansaço quando o corpo pedia parada.
Neguei a saudade para não doer mais fundo.
Neguei o amor para não correr o risco
de ver tudo desmoronar ao toque dos dedos.
Mas negar também é escolher, não é?
É dizer “não” ao que chega,
para proteger o que fica escondido,
o que é meu, o que é íntimo,
o que ainda não tem nome nem forma.
E agora que ela está aqui,
tão forte, tão viva, tão minha,
eu pergunto de novo:
o que se faz com o dom de negar?
Guarda-se?
Usa-se?
Ou deixa-se que ela mesma nos ensine
o que é aceitar de verdade,
só depois de ter sabido dizer não?

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


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