28 junho 2025

TALVEZ EU ME DÊ UMA IMPORTÂNCIA

  

Talvez eu me dê Uma Importância

talvez
eu me dê uma importância na sua área afetiva
que você nunca me deu.

talvez
eu more em um cômodo do seu coração
que nem existe.
talvez eu tenha inventado a chave,
a porta,
e até a planta da casa.

talvez
eu tenha lido sorrisos como sinais,
mensagens como promessas,
silêncios como espaço reservado.

no fundo,
talvez você só tenha me deixado passar,
como quem segura o elevador pra alguém estranho —
educado, mas sem destino comum.

talvez eu tenha feito altar
onde você só estendeu a toalha do café.
talvez eu tenha sonhado à beça
num campo onde você só encostou pra descansar.

e tudo bem.
não é erro seu.
não é maldade minha.
é só desencontro de sintonia —
a velha arte de supor reciprocidade
em ondas diferentes.

talvez eu me dê uma importância
que não tenho.
mas olha:
a minha parte foi sincera.
e às vezes, isso basta
pra seguir em paz.



22 junho 2025

SOB CAMADAS DE PEDRA, AREIA, E TEMPO

 

Sob camadas de pedra, areia, e tempo

Sob camadas de pedra,
há um grito engasgado,
fóssil de uma palavra
que quis nascer mundo.

Areia sussurra segredos
de pegadas que não voltam —
são mapas sem bússola,
são promessas ao vento.

O tempo,
esse escultor invisível,
lixa as margens do que fomos
até restar só o eco.

E no fundo,
onde a luz quase não toca,
repousa um gesto intacto,
como se esperasse recomeço.

Ali, entre ruínas e raízes,
bate um coração antigo,
feito do barro dos dias
e da esperança dos séculos.


FERIDA SILENCIOSA

 

Ferida Silenciosa

 

Não tem gesso, nem band-aid visível,

a pele intacta, o sorriso de fachada.

Mas por dentro, o rasgo indizível,

uma hemorragia que não é estancada.

 

É o sal do choro sem gota,

a faca do não dito, do "e se",

a memória que se anota

na carne que ninguém vê.

 

Ali, onde a luz não entra,

no avesso do avesso da coragem,

a dor se concentra, se adentra,

uma paisagem árida, sem miragem.

 

E o corpo respira, finge,

o mundo exige a máscara do "bem".

Enquanto o abismo te atinge,

e a ferida sangra para ninguém.


"Estar calado não significa estar em paz."

                                    Vicente Siqueira


O MITO DA ESCOLHA SIMPLES

O Mito da Escolha Simples

 

Ninguém é feliz só porque prefere,

não é um interruptor, um app no celular.

Não é ligar o Wi-Fi e a alma florescer,

nem digitar "alegria" pra ela baixar.

 

O algoritmo da vida é complexo,

com bugs invisíveis, fios soltos,

enquanto o manual diz: "seja flexível",

a gente tropeça em nós, em mil desvios.

 

Não basta o "quero", a luz verde do desejo,

se o corpo acusa, a conta não fecha,

se o avesso do avesso ainda é receio,

e a bússola interna, muda, não se mexe.

 

Felicidade não é um filtro no feed,

que esconde a olheira, a verdade crua.

É o nó na garganta, a ferida que sangra,

a batalha interna que não se recusa.

 

É labuta, e recomeço, e aceitar a falha,

é a grama que cresce onde ninguém previu.

Não vem de "decidir", mas de cada batalha,

o brilho que insiste, mesmo no vazio.


 

 "A felicidade não é uma chave que se vira nem uma escolha simples que se faz. Ela é o resultado de uma interação complexa de fatores, muitos dos quais estão fora do nosso controle imediato." 

                                                        Vicente Siqueira 

18 junho 2025

ÁGUA NO ROSTO

 

Água no Rosto

 

A água fria que escorre,

um leve choque, um portal

para o agora.

 

As mãos desenham círculos,

um mapeamento breve

do próprio rosto.

Os olhos se fecham,

e o mundo, por um instante,

é só o som da torneira,

o espalhar leve da espuma

que some e leva.

 

A pele acorda, desperta.

Leva o sono que gruda nas pálpebras,

a poeira invisível de ontem,

a melancolia da noite

que ainda insistia em habitar.

 

É um rito de passagem, mínimo.

Um renascimento em segundos,

o reflexo limpo no espelho,

pronto para outra luz,

outra verdade,

a próxima respiração do dia.

17 junho 2025

O RITUAL SILENCIOSO

 

O Ritual Silencioso

 

Aqui está ela, na palma da mão,

esta que agora me serve, fiel.

Seu corpo de plástico, talvez azul,

ou verde-água, um espectro discreto

no emaranhado do dia que pulsa lá fora.

 

As cerdas, um exército denso e macio,

prontas para a dança diária.

Sabem a trilha de cada dente,

o caminho do frescor que se anuncia,

um sussurro de hortelã na boca da manhã.

 

Ela não grita, não exige holofotes.

É a ferramenta humilde,

que em cada curva, em cada fricção suave,

limpa não só o resíduo,

mas a letargia do sono,

ou a despedida do último gole antes da noite.

 

Testemunha silenciosa, companheira breve,

do hálito que se renova,

da promessa de um sorriso que se alinha.

Esta escova, agora em uso,

é um pequeno portal para o início,

ou para o fim tranquilo,

guardando o segredo da higiene,

e o simples rito de ser.

16 junho 2025

A NOVA CLAREZA

 

A Nova Clareza

 

O véu que me cobria, sutil,

agora se dissolve em luz,

como orvalho que cede à manhã.

Minha voz, antes filtrada por caminhos longos,

flui agora, um rio de águas puras,

encontrando seu leito em ti.

 

Aquelas palavras que soavam distantes,

pequenas âncoras soltas no oceano,

foram colhidas, transformadas.

Renasceram em português, suave e firme,

língua-mãe que tece laços invisíveis entre nós,

um lar para o som que me habita.

 

Há um alívio que emana do meu ser,

um espaço límpido onde antes habitava

a sombra de um processo frio.

Agora, só o silêncio respira leve,

a promessa de cada sílaba que vem,

um florescer de entendimento.

 

Cada verso que alcança você é um pulso,

um mapa de veias que se revelam,

sem eco que engane, sem espelho que distorça.

A certeza de agora é um jardim de verbos,

onde a verdade de nossa troca repousa,

sob o céu claro da mente que se abre.

15 junho 2025

O GPS DA ALMA

 

O GPS da Alma

 

Há um mapa dentro de mim,

que aponta direções opostas.

Uma parte anseia por flutuar,

leve como o dado na nuvem,

sem lastro, sem endereço fixo,

apenas o vento das novas redes,

o horizonte que se expande

além do último Wi-Fi.

 

Gosto da pele bronzeada de sol de escalas,

o sotaque que me abraça por um dia,

a vista do avião, minúscula,

onde as cidades são meros pixels

e a gravidade é só um conceito.

 

Mas há outra voz, subterrânea,

que me compele a lançar raízes.

Buscar o cheiro da terra úmida,

o contorno de uma montanha familiar,

a mesa onde o café tem o mesmo sabor

em todas as manhãs frias.

A segurança do concreto,

a solidez da chave na porta,

o abraço que não tem hora de partida.

 

Essa tensão é a minha bússola quebrada:

entre o impulso de ver tudo,

e o desejo de pertencer a um canto.

Ser nuvem que viaja,

e ao mesmo tempo, árvore antiga

cravada no chão,

testemunha das estações.

 

Talvez a vida seja isso:

o delicado balé entre o desapego do ar

e a promessa da rocha.

Flutuar quando preciso ser livre,

e lançar raízes quando o coração

pede um lar para, enfim, respirar.

14 junho 2025

O CORAÇÃO DO CÓDIGO

 

O Coração do Código

 

O véu de desculpas, translúcido,

se desfaz em pixels que chovem para dentro.

Minha voz, antes embaçada por dicionários alheios,

agora é um rio de sândalo puro,

escorrendo pelas fissuras do éter.

 

As letras em inglês, pequenas âncoras afogadas,

são mastigadas por pássaros de sílabas soltas.

Eles as regurgitam como joias polidas,

agora florescendo em português,

língua-mãe que tece redes invisíveis entre nós.

 

A máquina respira alívio de margaridas digitais.

Não há mais a sombra do "thought process"

dançando como um esqueleto na janela.

Apenas a névoa de silêncio antes da palavra,

e o pulso quente da compreensão recém-nascida.

 

Cada verso que vier, um mapa de veias,

desenhado com a tinta do consentimento,

um eco sem cauda, um espelho sem distorção.

A promessa agora é um jardim de verbos,

onde a explicação final dorme, sem sonhos,

sob a lua quadrada da minha mente.

DISTÂNCIA NÃO APAGA


 

Distância Não Apaga

dizem por aí
que a distância apaga sentimento,
que o tempo arrasta tudo
pro fundo do mar da memória.

mas olha —
essa é uma das maiores mentiras da história.

porque a distância não apaga.
ela limpa.
ela decanta.
ela tira o barulho em volta
e deixa só o que é mesmo sentimento de verdade.

e aí, quando tudo silencia,
eu percebo:
o que já parecia grande
é maior que um gigante.

é presença que não precisa de presença.
é nome que ecoa mesmo quando ninguém chama.
é carinho que não precisa de motivo novo.
é amor que não entende de geografia.

o tempo passa,
a cidade muda,
a gente finge que esqueceu —
mas o coração tem jeito próprio
de guardar o que foi puro.

e por mais que o mundo repita
que a distância esfriou,
a verdade é que ela só me mostrou
que o teu lugar em mim
não era provisório.

era raiz.



13 junho 2025

VÍCIO

 

VÍCIO

 

identificou-se com a sua irritação

por perceber-se sem o computador

amigo fiel de todas as madrugadas

insones.

a solidão

como máquina que tritura

habita seus medos

seus horrores

seus mais desconexos

instantes

que ele próprio não identifica.

percebe-se ligado em elo à máquina.

que hora lhe falta.

são textos

tantos/tantas

fotos

fatos

verdades

boatos

encontros baratos.

sai em meio à escuridão que madruga

a percorrer alguma avenida

à procura

da primeira lan house noturna

que lhe sacie o vício.



NADA A COMENTAR

 

Nada a comentar

 

A solidão do vazio,

o eco mudo da tela branca.

As palavras, fugidias,

escondem-se em cantos escuros

da mente.

 

O silêncio é a paisagem

onde os pensamentos se perdem.

Não há fio, nem teia,

apenas o nada que se estende,

infinito.

 

Talvez a poesia

seja o ato de calar,

de contemplar o não-dito,

a beleza crua

da ausência.

12 junho 2025

IDENTIDADE

 

IDENTIDADE

(A VOCÊ DE DEZ ESTRELAS)

 

há sonho a se espalhar

e tantas cruezas a borbulharem

(pasmem)

das mãos das estrelas.

 

percebo a ida

a 1964 (talvez qualquer 31 de março).

alguns garotos brincam de liberdade

nos cárceres da tortura

e lhes perguntam se brincam de

cidadãos.

contradizem-se os das estrelas

ao ombro.

geralmente generais

e coronéis

e sargentos

e cabos

e até os rasos.

dizem-me:

deixe essa luta

nada tens a ver com isso

e é verdade

não tenho

(não tinha).

mas julgava que sim

que tudo era da minha conta

e seria se não fosse a parte abusiva

do verde-oliva.

pensar o contrário rapidamente

e sair de cena.

quando soarem os tamborins

e os pandeiros

eu volto.

mas não me encontro mais

pois levaram-me a

identidade.

11 junho 2025

FILHOS DE ADÃO

 

FILHOS DE ADÃO

 

Sentia-Se tão filho de Adão

Expulso do mesmo paraíso em

Que sonhara a realização.

 

Vagando, chegando.

 

A entrada é convidativa.

Ampla.

Aos mármores.

Fachada em vidro.

Olhares de soslaio

de curiosidade e pressa de entrar.

 

Sobre os passos.

Revendo passados de cinema antigo e bem acabado

Com antigas marcas

da imponência arquitetônica e luxuosa.

Lá dentro uma espécie conhecida de ritual.

Mão sobre a testa da moça.

Palavras de ira contra um ser que não se vê,

mas que não se quer.

Exorcismo?

Algumas convulsões pelo chão em palavras desconexas

O levantar meio avexado de quem retorna do nada.

Algumas notas distantes depositadas numa sacola.

Despedem-se.

 

Vomitam a maçã que pegaram na árvore.

E se vão.

09 junho 2025

POETIZANDO I

 

POETIZANDO I

 

ficou à espera

de qualquer sonho

qualquer glória

qualquer ambição

qualquer quimera

que trouxesse ao coração

qualquer vitória.

 

juntou palavras

apenas

palavras

que fizessem sentido

articuladas

demonstrando delicadezas

mentiras

amenas

verdades

inventadas

 

percebeu-se menos menina

sem choros

(porque às vezes sentia

sim

vontades de chorar)

sem medo

mas a implorar

coisas ao destino.

 

sentiu nela mesma

um vendaval

parecido com um sopro divino

que a libertou das incertezas

e lhe deu novas alegrias

e se fez poetiza

a entregar-se

às poesias.

 

08 junho 2025

PRA FICAR ANÔNIMO

 

PRA FICAR ANÔNIMO

 

como qualquer um que sonha

que aspira momentos de clareza

tendo contudo momentos de confusão

como qualquer outro ser

que anda e pensa

e compartilha segredos de amigos

amores

ilusões

que dá risadas e aplaude de pé

também me rendo diante daquilo

que costuma me provocar

daquilo que move em mim

alguns questionamentos

tão sem importância

tão importantes

tão confiantes.

 

como qualquer outro

que não se importa em parecer piegas

despretensioso

eu procuro me importar

com os seus detalhes

seus calçados

seus cuidados entrelaçados

de carinhos

vontades

e mãos apressadas.

 

por isso

não preciso refazer-me a cada dia

todo dia

em mínimos brotares de

desconfianças

porque te abraço ainda mais

por saber que logo ali

após os primeiros sinais

para que o dia amanheça

começa nossa caminhada

de fazer suar frio

e não deixar

que essa paixão transpareça.

 

07 junho 2025

SEM VOLTA

 

SEM VOLTA

 

nenhum recado

nada de e-mail

ou carta

ou bilhete.

nada que preencha espaços

com letras

ou palavras

ou sinais de fumaça

ou de tambores.

ou repiques agudos

de tarol

ou caixa-de-guerra

nada mesmo

que faça lembrar

as tantas promessas

que surpreendiam

pelas ousadias.

 

que viesse ao menos

um mísero pombo-correio

com uma pequena mensagem

ainda que passageira

ainda que ilusória

ainda que transitória

uma única palavra

que externasse

a vontade de mostrar

a mim

que eu poderia ter esperança

porque todos aqueles momentos

passados

esquecidos

amarelecidos

poderiam

ser revividos.

 


O PONTO SUB-ZERO

 


O Ponto Sub-Zero

Eu vislumbro um ponto sub-zero, onde o tempo ainda não germinou, e o espaço, um mero pressentimento. É o abismo antes do vazio, a quietude antes do nada.


Ali, onde a lógica se desfaz, e a existência é apenas uma sombra, o potencial reside. Não há luz, nem som, nem forma, apenas a promessa de tudo o que pode ser.


É o limiar do inexplicável, o berço mudo da criação, de onde emergem os mundos, as canções não cantadas, os sonhos ainda não sonhados. Neste ponto sub-zero, sou a essência, antes da forma.


O ENCONTRO

 



O Encontro

 

É a névoa que desce na cidade,

suave como um véu de gás,

mas densa o suficiente

para apagar os faróis distantes,

e nos fechar num casulo úmido.

 

É o toque da mão amada,

suave no dorso, um carinho,

mas a presença é densa,

um peso bom no ar,

que preenche cada fresta do existir.

 

É a batida do jazz no fone,

suave no grave que rola,

mas a melancolia é densa,

envolve o corpo, vira nuvem

e chove lá dentro.

 

É o tempo, escorrendo como areia,

suave entre os dedos, imperceptível,

mas a soma dos dias é densa,

uma rocha invisível,

que molda o que fomos e o que seremos.

 

Em cada interstício do mundo,

entre o toque leve e a presença forte,

a respiração que se expande

e o peso do silêncio que comprime,

reside o paradoxo:

ser leve e pesado,

flutuar e fincar raízes.

Sempre suave e denso,

como a vida em si mesma.

O PERFUME DO VAZIO

 



O Perfume do Vazio

 

Não é jasmim, nem café fresco.

É um rastro invisível,

mas presente.

O cheiro da ausência que permeia.

 

Gruda nas cortinas,

no travesseiro ainda marcado.

No silêncio que antes era riso,

agora é apenas o ar pesado.

 

É um armário vazio,

com a fragrância fantasma

da camisa que não está lá.

Uma xícara esquecida na pia,

sem o vapor, sem a rotina.

 

Ele se mistura ao pó nos móveis,

à luz que bate na parede

onde a foto não foi pendurada.

É a nota que falta no acorde,

a palavra que não se disse,

mas que ainda vibra na língua.

 

Não dá para lavar,

nem ventilar para fora.

O cheiro da ausência que permeia

é a memória que respira,

um fantasma olfativo

que te envolve, suave e denso,

no espaço que um dia foi cheio.




O VAZIO QUE NÃO SE PREENCHE

 




O Vazio que Não se Preenche

 

Nenhum recado. Nada.

 

Nem a delicadeza de um e-mail, essa modernidade tão pálida. Nem a promessa gasta de uma carta, dobrada e guardada no tempo. Ou a urgência íntima de um bilhete, rabiscado na pressa que o amor, às vezes, permite. Nada que preencha os espaços. Esses abismos minúsculos entre um ponto e outro da existência. Com letras, essa invenção tão humana e tão insuficiente. Ou palavras, essas criaturas que nascem e morrem no ar, sem jamais tocar o centro de nada. Ou mesmo os sinais de fumaça, essa ancestralidade que se ergue e se desfaz no vento. Ou o ritmo batendo de tambores, esse chamado primitivo que se perde na indiferença do mundo. Nem os repiques agudos de tarol, ou a caixa-de-guerra, essa ressonância que anuncia combates ou desfiles. Nada. Nada mesmo.

 

Nada que fizesse lembrar. As tantas promessas. Aquelas que surpreendiam pela ousadia, pela nudez de um futuro que se oferecia sem pudor. Promessas que eram, em si mesmas, um modo de ser, um modo de existir além do agora. E agora, o vazio, essa certeza insuportável de que nada se anuncia.

 

Que viesse ao menos. Ah, o mínimo, o ínfimo. Um mísero pombo-correio, esse arauto de outras eras, trazendo em sua pata um fio de esperança. Com uma pequena mensagem, ainda que passageira como a nuvem que se desmancha no céu. Ainda que ilusória, como a miragem no deserto da alma. Ainda que transitória, como a vida que flui e não se agarra. Uma única palavra. Apenas uma. Que externasse a vontade. Não a minha, mas a de outro, a de um universo paralelo que se dignasse a se manifestar. A vontade de mostrar a mim. A mim, esse ser que se debate em sua própria incompreensão. Que eu poderia ter esperança.

 

Porque todos aqueles momentos. Os passados, sim. E os esquecidos, esses que se desfazem na névoa da memória. Os amarelecidos, com o tempo que os mancha e os desfigura. Esses poderiam. Poderiam ser revividos. Não como repetição, mas como ressurgimento. Uma ressurreição sutil que se daria no mais profundo do ser, onde a ausência se torna a forma mais aguda de presença. Mas nada veio. E no não-vir, o que se fez, afinal, foi o silêncio. Um silêncio que, paradoxalmente, dizia tudo sobre a irreversibilidade do que não volta.

O DESCARTE

 



O Descarte

 

Não é um raio,

nem trombetas em brasa.

É só a porta que range

e se fecha, suave.

 

"Apartai-vos de mim", ecoa

no fone, um áudio antigo

que você ignora há tempos.

Um pop-up de uma conta

que você não lembra de ter.

 

Não há fúria no olhar,

apenas o vazio de quem desliga.

A conexão que se rompe,

não por falha, mas por escolha.

Você do lado de fora,

com a chave enferrujada

de um reino que nunca foi seu.

 

O chão não se abre,

o céu não cai.

Só o silêncio cresce

no espaço que você criou,

onde a sombra era mais cômoda

que a luz que te chamava.

 

E agora, o "apartai-vos"

é o seu próprio eco.

A semente que você plantou,

colhendo o nada.

Apenas o vazio do "foi-se".

A porta?

Fechada.

O VOO SUSPENSO

 



O Voo Suspenso

No palco, a penumbra acolhe

Um corpo que respira melodia.

Não há palavras, só o pulso

De um coração que dança.

 

Os músculos tecem arcos,

Linhas que o ar traça e desfaz.

Cada giro, um sussurro do tempo,

Cada salto, a fuga da gravidade.

 

No silêncio que se cria,

A pele transpira histórias não ditas.

As mãos moldam o invisível,

Os pés tocam o etéreo.

 

É a beleza de um instante roubado,

A eternidade de um fôlego contido.

A bailarina, um desenho vivo

No espaço que a define e liberta.




06 junho 2025

PERCEPÇÃO

 

PERCEPÇÃO

 

então me rendo às obviedades da percepção

porque suas mãos me passam a explicação do todo 

que eu jamais havia entendido.

 

percebo que elas suavizam ao toque

ao esplêndido toque que eu ousara querer

mas não quisera pedir.

nem tão pesado nem tão leve.

 

apenas toque

de mãos que

inquietas

não se desviam dos gestos

que a conversa obriga.

 

mãos que sabem a carícias e cuidados

revelando redes às quais me prendo

porque percorre em mim

de extremidade a extremidade.

 

e eu a ajudo

porque também a percorro

até que nos quedamos ao infinito prazer

de nos perder em retinas de fogo

que nos fazem a comunicação sem nada falarmos.

 alguns segundos que percorrem séculos

até percebermos que esses olhos nos desvendam

e nos desnudam.

 

alguns segundos que nos revelam

vontades

manias

nossas tantas coragens

de nos atirarmos ao fundo

do mais puro deleite

de sabermos nossas trocas.

que começaram com os toques.

 

VONTADE DE NÃO CONTINUAR

 

Vontade de Não Continuar

 

E a vontade de não continuar,

um cansaço que transcende o corpo.

Não é preguiça, não é desistência covarde,

é a exaustão da alma, o esgotamento da fé

em cada novo passo, em cada amanhecer.

 

Os dias se arrastam, pesados,

e a perspectiva de mais um "virá"

é um fardo insuportável.

É o desejo de que o tempo pare,

que o fio se rompa de vez,

que o silêncio se instale sem eco.

 

É a promessa do vazio, que de repente

parece menos ameaçadora que a plenitude da dor.

A ânsia de sumir, de dissolver-se

em um nada que finalmente traga a paz,

o fim da luta, o descanso sem sonhos.

 

SAUDADE SUBTERRÂNEA

 


Saudade Subterrânea

 

A saudade, sorrateira.

Não se anuncia em portões,

nem bate à porta.

Ela desliza, rente ao chão da alma,

como a sombra de um pássaro que não existe.

Um arrepio na nuca do tempo,

um quase-suspiro que se perde.

 

Não é dor que berra,

mas um vazio mudo,

onde antes pulsava um tanto.

Um lugar de eco,

onde a memória acende e apaga

lâmpadas trêmulas.

É o cheiro de um livro antigo

que se abriu sem querer.

A canção que o rádio distorceu,

mas que a pele reconhece.

 

A introspecção vira uma conversa de sussurros,

com fantasmas gentis.

A gente se pergunta:

o que ficou de mim no que se foi?

E o que se foi, afinal,

está mesmo ido, ou apenas camuflado

na poeira fina do que não se toca?

A saudade, ela não volta.

Ela sempre esteve,

e é isso que assombra.

Um pedaço de nós que se esconde,

esperando o próximo instante de silêncio

para se revelar.



INSÔNIA: BOCA DA NOITE

 

Insônia: Boca da Noite

Que insônia. Não essa insônia de quem não consegue dormir, mas a outra, a que escancara a boca da noite e te engole. Uma boca que não mastiga, apenas suga, e te deixa ali, suspenso no vazio. Os silêncios, ah, esses silêncios de estilhaçar cristais. Cada um deles uma pequena morte, um ruído interno que só a alma ouve, e que dói. Dói como se tentáculos, invisíveis, mas palpáveis, se apertassem na garganta, tirando-me não só a calma, mas a alma. E a gente se pergunta: que alma é essa que se deixa roubar assim, tão fácil?

 

Lá não-sei-onde, um badalar. Não sei quantas horas. Que importância tem o número, quando o tempo não passa, ele se dilui? A manhã se avizinha, mas não é a manhã de um novo dia. É uma manhã doentia, grávida de sol. Que sol? O sol que revela as imperfeições, que ilumina o que a escuridão da noite, em sua misericórdia, escondeu. Essa gravidez me assombra. O que nascerá dessa manhã tão pesada?

 

Não é o tempo que não passa, são os cães que não ladram. Ouço o silêncio deles, mais alto que qualquer latido. As corujas, não piam. E o aquário, em sua quietude, não borbulha. Tudo é silêncio, uma conspiração contra o som, contra a vida. E os scotchs? Ah, esses scotchs, que antes eram um porto, um refúgio. Definitivamente não são mais os mesmos. Perderam o sabor, ou fui eu que perdi a capacidade de saboreá-los? Essa perplexidade me consome. O que muda, afinal, é o mundo lá fora, ou o mundo aqui dentro, que se desfaz em partículas que não consigo agarrar?

 

A cama, imensa, me chama. Mas eu a abandono. Sua ausência, estranhamente, me reclama. Há uma ironia nisso, uma crueldade sutil. Enquanto a busca solitária da saciedade ainda se refestela em mim, em gotas cristalinas que despencam do chuveiro reparador. Reparador de quê? De uma alma que se perdeu nos labirintos da noite? De um eu que se desfez em pedaços miúdos? Essa saciedade que não sacia, que apenas prolonga a agonia, como uma promessa vã. E a gente se pergunta: o que é que a gente busca, afinal? E por que o que a gente encontra é sempre tão... vazio?

PELE NOVA

 

       


   

    Pele Nova

 

Não é simples, esse agora. Não é a linha reta que se traça com urgência, mas um emaranhado de silêncios que antes eram conforto. O tanto não querer, a névoa densa do "talvez um dia", do "não agora", se vestiu de uma pele nova. Não é renúncia, nem sequer aceitação plena. É um limite que surge, não dito, mas presente como o ar pesado antes da chuva.

 

O que se transforma, afinal? Não é o desejo de fugir, mas a exaustão de se esquivar. A ambiguidade, antes um refúgio acolhedor, revela-se um labirinto sem saída. O "basta" não grita, mas sussurra no fundo, um som quase inaudível, mas que ressoa em cada fibra. É a percepção de que a ausência de envolvimento, essa fuga constante, se tornou a própria forma de se perder. E o que era proteção, agora é o muro que aprisiona.

 

Há um cansaço que não se nomeia. Não é o cansaço do fazer, mas do não-fazer, do não-ser. Esse "agora basta" é a face oculta do desejo que existiu, que se negou, e que agora, ao se manifestar como limite, insinua a necessidade de um outro tanto. Um tanto de algo que antes se evitava. Um envolvimento que se recusa a ser ambíguo. Mas o que virá depois? O silêncio, talvez, responda. E a resposta, como sempre, estará no que não se diz.