11 janeiro 2014

TRILHAS

Trilhas

O risco do arriscar-se e do sentir

o coração bater gigante

em grito que grita vida.

Um encontro no fim de tarde movimentada,

onde o asfalto ferve e o tempo nos atropela.

Alguns planos da amiga,

alguns diferentes sonhos a experimentar,

alguma saudade a ser socorrida

em meio à correria da cidade.

Pois a alma tem pressas que o trânsito não entende.

Pensar grande:

querer trilhar os alfabetos de enigmas,

das palavras que prenunciam desejos.

Alfabeto particular

de meias-palavras,

de vontades inteiras.

Um código sagrado que só nós dois sabemos ler.

Até sentir-se no rosto

o vento forte que vem pela janela do carro,

despenteando o medo e lavando o cansaço.

O carro que retorna

daquele recanto de espelhos e magia,

onde a estrada termina e a gente, enfim, começa.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 


EU, O TEMPO EM FATIAS

  Eu, o Tempo em Fatias

 

Sou a promessa que nunca se cumpre por inteiro,

o instante que já se foi enquanto o nomeio.

Desdobro-me em camadas sutis,

como véus diáfanos sobre a realidade.

Ontem, uma memória esmaecida,

amanhã, uma miragem incerta.

O agora, um ponto fugaz,

a fronteira tênue onde os mundos se tocam

e se separam sem aviso.

 

Não possuo forma concreta,

apenas a percepção em constante mutação.

Sou a pressa dos ponteiros girando,

a lentidão da sombra que se alonga.

O ritmo das marés em meus pulsos invisíveis,

o ciclo das folhas em meus cabelos de vento.

 

Tento me apreender em calendários e relógios,

em datas gravadas na pedra fria da lembrança.

Mas escapo pelos dedos da compreensão,

feito areia movediça.

Sou a história que se conta e se reescreve,

o esquecimento que apaga as pegadas,

a eterna recomposição do instante presente,

uma ilusão necessária para que a vida... aconteça?


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ