13 outubro 2012

AQUELA LINHA TÊNUE

Aquela Linha Tênue


Aquela linha tênue —
sutil, quase ausência —
separa o eu de mim,
como névoa entre dois espelhos
que já não se encaram.

Separar o eu de mim
é tarefa de vigília,
de quem sobe à torre
todas as noites,
com olhos que nunca dormem
e um coração em sentinela.

Lá do alto,
vigio as fronteiras do que sinto,
marcando com o olhar
onde termina a máscara
e começa a pele.

Há um abismo discreto
entre o que digo e o que me cala.
E essa linha fina,
tensa como corda de harpa,
às vezes canta.
Às vezes corta.

Separar o eu de mim
é arte de quem já se perdeu
e aprendeu a permanecer.
Mesmo vigiando,
mesmo partido,
ainda inteiro.



02 setembro 2012

DANÇA DOS ARABESCOS

 

Dança dos Arabescos

Eu via a vida em linhas retas, duras,

Um desenho funcional, sem desvios.

Cada esquina, um ângulo reto, preciso,

Sem espaço para o que não fosse direto.

A beleza, para mim, estava na clareza,

Na ausência de qualquer mistério.

 

Até que meus olhos encontraram os seus,

E você era um emaranhado de mistério e graça.

Seu sorriso, um arabesco perfeito,

Curvas que se entrelaçavam, sem começo ou fim.

Sua fala, um murmúrio de voltas e reviravoltas,

Que me puxava para um labirinto doce.

 

E foi assim que aprendi a amar os arabescos.

A beleza do que se dobra, do que se enrola,

Do que não segue uma lógica cartesiana.

No seu jeito de ser, encontrei a arte

Da complexidade que não se explica, se sente.

Aqueles traços que se perdem e se acham,

Em um balé silencioso e hipnotizante.

 

Minha alma, antes uma folha em branco para regras,

Agora quer bordar filigranas, florir em espirais.

Os arabescos se tornaram minha nova caligrafia,

Um modo de ver o mundo, de viver o tempo.

Com você, entendi que a verdade nem sempre é reta,

Às vezes, ela se esconde em curvas e floreios,

Nos desenhos intrincados da vida e do amor.

E eu, que antes os temia,

Gosto muito dos arabescos agora.

02 julho 2012

VERSOS BORDADOS EM DIAS COMUNS

 

Versos Bordados em Dias Comuns


Eu me sento à mesa da cozinha,

o café esfriando na caneca,

e o sol da manhã tecendo padrões de luz

sobre a madeira.

É um dia comum, como tantos outros.

Não há grandes dramas, nem revelações cósmicas.

Apenas o ritmo suave da existência se desenrolando.

 

Eu observo as migalhas na toalha,

as marcas de dedos no copo,

e penso nos pequenos atos que compõem a vida.

O estender da roupa no varal,

o regar das plantas na janela,

o som do vizinho que assobia

uma melodia despretensiosa.

Nesses gestos simples, eu encontro poesia.

 

É como se cada minuto fosse um fio,

e eu, sem perceber, estivesse bordando a tapeçaria dos meus dias.

Um ponto para a conversa rápida com a senhora da padaria,

outro para o sorriso de uma criança desconhecida na rua.

Há fios de paciência, quando a espera se estende,

e fios de alegria, nos momentos de riso espontâneo.

 

Eu respiro fundo,

sinto o cheiro do sabão das mãos,

o cheiro da vida que se faz em detalhes.

Não preciso de grandes eventos para me sentir pleno.

A beleza está na repetição,

na constância das pequenas coisas que me ancoram.

No cheiro de terra depois da chuva,

no calor de um abraço rápido.

 

Minha alma encontra conforto

nesta simplicidade tecida em rotina.

Os versos se formam na mente,

não em rimas perfeitas,

mas na cadência do meu próprio pulsar.

E eu percebo que a vida não precisa ser extraordinária

para ser profundamente poética.

Basta que eu aprenda a ver,

a sentir,

a bordar.

07 junho 2012

O ENCONTRO

 




O Encontro

 

É a névoa que desce na cidade,

suave como um véu de gás,

mas densa o suficiente

para apagar os faróis distantes,

e nos fechar num casulo úmido.

 

É o toque da mão amada,

suave no dorso, um carinho,

mas a presença é densa,

um peso bom no ar,

que preenche cada fresta do existir.

 

É a batida do jazz no fone,

suave no grave que rola,

mas a melancolia é densa,

envolve o corpo, vira nuvem

e chove lá dentro.

 

É o tempo, escorrendo como areia,

suave entre os dedos, imperceptível,

mas a soma dos dias é densa,

uma rocha invisível,

que molda o que fomos e o que seremos.

 

Em cada interstício do mundo,

entre o toque leve e a presença forte,

a respiração que se expande

e o peso do silêncio que comprime,

reside o paradoxo:

ser leve e pesado,

flutuar e fincar raízes.

Sempre suave e denso,

como a vida em si mesma.

O DESCARTE

 




O Descarte

 

Não é um raio,

nem trombetas em brasa.

É só a porta que range

e se fecha, suave.

 

"Apartai-vos de mim", ecoa

no fone, um áudio antigo

que você ignora há tempos.

Um pop-up de uma conta

que você não lembra de ter.

 

Não há fúria no olhar,

apenas o vazio de quem desliga.

A conexão que se rompe,

não por falha, mas por escolha.

Você do lado de fora,

com a chave enferrujada

de um reino que nunca foi seu.

 

O chão não se abre,

o céu não cai.

Só o silêncio cresce

no espaço que você criou,

onde a sombra era mais cômoda

que a luz que te chamava.

 

E agora, o "apartai-vos"

é o seu próprio eco.

A semente que você plantou,

colhendo o nada.

Apenas o vazio do "foi-se".

A porta?

Fechada.

06 junho 2012

PELE NOVA

 

         

    Pele Nova

 

Não é simples, esse agora. Não é a linha reta que se traça com urgência, mas um emaranhado de silêncios que antes eram conforto. O tanto não querer, a névoa densa do "talvez um dia", do "não agora", se vestiu de uma pele nova. Não é renúncia, nem sequer aceitação plena. É um limite que surge, não dito, mas presente como o ar pesado antes da chuva.

 

O que se transforma, afinal? Não é o desejo de fugir, mas a exaustão de se esquivar. A ambiguidade, antes um refúgio acolhedor, revela-se um labirinto sem saída. O "basta" não grita, mas sussurra no fundo, um som quase inaudível, mas que ressoa em cada fibra. É a percepção de que a ausência de envolvimento, essa fuga constante, se tornou a própria forma de se perder. E o que era proteção, agora é o muro que aprisiona.

 

Há um cansaço que não se nomeia. Não é o cansaço do fazer, mas do não-fazer, do não-ser. Esse "agora basta" é a face oculta do desejo que existiu, que se negou, e que agora, ao se manifestar como limite, insinua a necessidade de um outro tanto. Um tanto de algo que antes se evitava. Um envolvimento que se recusa a ser ambíguo. Mas o que virá depois? O silêncio, talvez, responda. E a resposta, como sempre, estará no que não se diz.


Vicente Siqueira - Doces Poesias 

31 maio 2012

A SETA INFINITA

 

A Seta Infinita


Não há como negociar

com a linha que se estende.

O segundo, quando nasce,

já se despede.

 

Não há pedido,

nem súplica,

nem barganha.

Ele não para para ouvir.

 

O relógio interno do mundo

segue um ritmo próprio,

imutável.

Não conhece o atraso,

não aceita a pausa.

 

Somos nós que corremos,

ou rastejamos,

ou paramos,

enquanto a seta aponta sempre para a frente.

 

E nessa marcha incansável,

nesse avanço sem freio,

moram as perdas e as chances,

o que foi e o que será.

 

Porque ele não espera.

Apenas vai.

E o que nos resta

é aprender a ir com ele.



"O tempo, rio que não volta, nos leva para águas que jamais vimos."

               Vicente Siqueira

 

 Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



 

22 maio 2012

CHUVA EM VERSO LIVRE

 

Chuva em Verso Livre

não chove só do céu —
às vezes desaba
de dentro pra fora

pingos escorrem das palavras
quando não sei mais dizer
onde começa o corpo
e termina o sentir

há trovões entre estrofes
relâmpagos entre vírgulas
e uma enxurrada de silêncio
lavando o que fui ontem

me deixo molhar inteiro
não por falta de abrigo
mas porque cada gota
escreve algo em mim

chuva não tem rima fixa
verso também não
ambos escorrem soltos
no tempo de existir

e se amanhã fizer sol
ainda assim serei chuva
em verso livre

SUSSURROS DA CIDADE

 

Sussurros da Cidade

As ruas falam em murmúrios,
cada esquina uma história esquecida,
o asfalto quente guarda segredos,
de amores que nasceram e se perderam.

Nos becos, a arte grita em grafites,
cores vibrantes que dançam na luz,
enquanto os passos apressados ecoam,
como batidas de um coração urbano.

O café exala aromas de encontro,
risadas se misturam ao som do trânsito,
e entre os prédios que tocam o céu,
há um espaço para sonhos e esperanças.

À noite, as lâmpadas piscam como estrelas,
sussurrando promessas àqueles que escutam;
as vozes se entrelaçam em canções,
música da vida que nunca se apaga.

E assim a cidade respira,
um organismo pulsante de histórias vivas,
onde cada sussurro é uma nota,
na sinfonia eterna do cotidiano.

26 abril 2012

MARÉS E AREIAS

 

Marés e Areias

 

Havia uma urgência em cada passo,

Uma pressa em conquistar, em reter.

Eu colecionava instantes como quem guarda joias,

Achando que a força do querer detinha o fluxo.

O futuro era um castelo, o presente, sua construção.

 

Mas a vida, em sua sabedoria silenciosa,

Sussurrava verdades pelas frestas.

Tudo leva tempo.

A semente se faz flor no seu compasso,

A montanha se ergue em milênios de paciência.

Cada riso, cada lágrima, cada entendimento,

Tem sua própria maré para subir e descer.

 

E então, o reverso da mesma moeda:

O tempo leva tudo.

Leva a euforia do auge, a dor do adeus,

O brilho intenso das promessas,

O peso das mágoas mais antigas.

Transforma faces, amacia as dores,

Desfaz o que parecia imutável como areia na correnteza.

 

É a dualidade inescapável da existência.

O tempo que constrói com fibra e delicadeza,

É o mesmo que dissolve, que transforma, que liberta.

A grande lição não está em lutar contra seu curso,

Mas em aprender a surfar em suas ondas.

A aceitar que o que fica, fica com outra forma,

E o que se vai, deixa um espaço para o novo.

 

Não é sobre perder, mas sobre o eterno fluir.

Tudo leva tempo, para ser e para se tornar.

E no final, o tempo leva tudo,

Mas deixa a essência, a alma da experiência,

Gravada na memória de quem aprendeu

A dançar com a sua inexorável passagem.

04 fevereiro 2012

A POESIA ESCONDIDA NO CAFÉ DA MANHÃ

 A Poesia Escondida no Café da Manhã


Eu acordo e o sol já espia pela janela,

um filete dourado sobre o tapete.

O cheiro do café coando,

um perfume morno e convidativo,

já preenche o ar da cozinha.

É o início.

É o primeiro verso do dia.

 

Eu pego a caneca preferida,

pesada e familiar nas minhas mãos.

O vapor que se eleva,

desenha nuvens efêmeras no ar frio da manhã.

Eu adiciono o açúcar, o leite,

cada movimento, um ritual.

Sinto o calor na palma,

a promessa de um despertar.

 

A primeira golada,

um amargo suave que se espalha,

despertando os sentidos adormecidos.

O crocante da torrada,

o doce da geleia,

cada textura, cada sabor,

um pequeno milagre no paladar.

Não é apenas alimento,

é o alimento da alma.

 

Eu observo as bolhas na superfície do café,

o reflexo distorcido do meu próprio rosto.

Nesse momento de quietude,

eu me reconecto.

Com o presente, com o simples fato de existir.

Não há pressa, não há urgência.

Apenas o fluxo lento da vida se desdobrando,

colher por colher, gole por gole.

 

A poesia não está nos grandes feitos,

mas nos detalhes quase invisíveis.

No barulho suave da colher batendo na porcelana,

na luz que dança na xícara,

na paz que inunda a casa antes que o mundo acorde.

É a oração silenciosa do novo dia,

escrita no vapor que sobe,

na energia que se renova,

na poesia escondida no café da manhã