01 março 2026

ALTERIDADE

 Alteridade


Há um momento

em que o espelho falha.


A imagem não responde

como deveria.

Não repete.

Não confirma.


Ali começa o outro.


Não como ameaça,

nem como continuação —

mas como território que respira

sem pedir licença.


O outro não cabe

na moldura da minha lógica.

Ele tem seus próprios abismos,

suas memórias que não vivi,

suas dores que não obedecem

ao meu calendário.


E quando falo

e ele não ecoa,

quando penso

e ele não concorda,

quando sinto

e ele não traduz —


algo em mim aprende

a se descentrar.


Alteridade

é essa leve vertigem

de não ser o centro do mundo

e ainda assim

continuar inteiro.


É olhar

e não capturar.

É tocar

e não possuir.

É ouvir

sem preparar a própria defesa.


Talvez amar

seja exatamente isso:


permitir que o outro exista

sem ser corrigido

pela minha medida.


E então, no meio do encontro,

descobrir que o mundo

é maior

porque não termina

na fronteira do meu nome.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ