Alteridade
Há um momento
em que o espelho falha.
A imagem não responde
como deveria.
Não repete.
Não confirma.
Ali começa o outro.
Não como ameaça,
nem como continuação —
mas como território que respira
sem pedir licença.
O outro não cabe
na moldura da minha lógica.
Ele tem seus próprios abismos,
suas memórias que não vivi,
suas dores que não obedecem
ao meu calendário.
E quando falo
e ele não ecoa,
quando penso
e ele não concorda,
quando sinto
e ele não traduz —
algo em mim aprende
a se descentrar.
Alteridade
é essa leve vertigem
de não ser o centro do mundo
e ainda assim
continuar inteiro.
É olhar
e não capturar.
É tocar
e não possuir.
É ouvir
sem preparar a própria defesa.
Talvez amar
seja exatamente isso:
permitir que o outro exista
sem ser corrigido
pela minha medida.
E então, no meio do encontro,
descobrir que o mundo
é maior
porque não termina
na fronteira do meu nome.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ