O Que Não Morre, Mas Não Vive
Estávamos certos de tudo,
menos do tempo.
Falávamos como quem sabe,
sentíamos como quem nasceu para isso.
Nos tocávamos com alma e com corpo,
sem medo de sermos eternos demais.
Fizemos juras sem necessidade de promessas,
porque bastava olhar,
e o mundo inteiro nos entendia.
Até que um dia
o mundo mudou de idioma.
E nós, calados,
nos perdemos dentro de nós mesmos.
Não foi uma briga.
Não foi um erro específico.
Foi um envelhecimento silencioso.
Como fruta esquecida numa fruteira bela demais para ser tocada.
Seguimos.
Sem coragem de voltar,
sem força para permanecer.
Ela voltou ao passado.
Eu caminhei para um outro futuro.
Casamentos, filhos,
rotinas em ruas que ainda se cruzam,
mas com olhares distraídos demais para se deterem.
Anos.
Décadas, talvez.
Até que a rede, essa rede de todos os acasos,
nos lançou de volta um ao outro.
Não falamos do ontem,
até que falamos.
E ali, entre frases digitadas com dedos que tremiam,
descobrimos a verdade mais simples e cruel:
fomos idiotas.
Não por falta de amor.
Mas por não sabermos o que fazer com ele.
Não cogitamos reencontro,
porque o corpo ainda respeita
o que o espírito aprendeu com Cristo.
Então, sobra o que?
Sobra esse saber inútil,
essa consciência tardia,
essa lucidez que não leva a lugar nenhum.
Sobra o amor, sim.
Mas é um amor que não pode mais se mover.
Sobra a saudade,
essa que não passa nem com o tempo,
porque não quer passar.
E sobra a certeza amarga e doce
de que há coisas que não morrem,
mas também não vivem.
E que isso,
isso é o castigo dos que amaram cedo demais,
ou tarde demais,
ou do jeito certo
na hora errada.