31 janeiro 2022

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

 

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

fiquei ali
entre o motor desligado
e a vontade de desaparecer

a cidade não me esperava
as pessoas
atravessavam a rua como se soubessem
pra onde iam

eu, não.

havia uma pausa em mim
um semáforo interno piscando amarelo
há dias
me pedindo cautela
me impedindo o passo

pensei em você
e no tempo que pediu
como quem pede troco
e vai embora antes de receber

quis voltar pra casa
mas onde é isso
se a casa era você?

meus olhos seguiram a pressa dos outros
mas meus ombros afundaram no banco
como quem sabe
que certas dores
só aliviam quando
alguém volta.

e você não voltou.

25 janeiro 2022

O QUE NÃO MORRE, MAS NÃO VIVE

 O Que Não Morre, Mas Não Vive

Estávamos certos de tudo,
menos do tempo.

Falávamos como quem sabe,
sentíamos como quem nasceu para isso.
Nos tocávamos com alma e com corpo,
sem medo de sermos eternos demais.

Fizemos juras sem necessidade de promessas,
porque bastava olhar,
e o mundo inteiro nos entendia.

Até que um dia
o mundo mudou de idioma.
E nós, calados,
nos perdemos dentro de nós mesmos.

Não foi uma briga.
Não foi um erro específico.
Foi um envelhecimento silencioso.
Como fruta esquecida numa fruteira bela demais para ser tocada.

Seguimos.
Sem coragem de voltar,
sem força para permanecer.

Ela voltou ao passado.
Eu caminhei para um outro futuro.
Casamentos, filhos,
rotinas em ruas que ainda se cruzam,
mas com olhares distraídos demais para se deterem.

Anos.
Décadas, talvez.

Até que a rede, essa rede de todos os acasos,
nos lançou de volta um ao outro.
Não falamos do ontem,
até que falamos.

E ali, entre frases digitadas com dedos que tremiam,
descobrimos a verdade mais simples e cruel:
fomos idiotas.

Não por falta de amor.
Mas por não sabermos o que fazer com ele.

Não cogitamos reencontro,
porque o corpo ainda respeita
o que o espírito aprendeu com Cristo.

Então, sobra o que?

Sobra esse saber inútil,
essa consciência tardia,
essa lucidez que não leva a lugar nenhum.

Sobra o amor, sim.
Mas é um amor que não pode mais se mover.

Sobra a saudade,
essa que não passa nem com o tempo,
porque não quer passar.

E sobra a certeza amarga e doce
de que há coisas que não morrem,
mas também não vivem.

E que isso,
isso é o castigo dos que amaram cedo demais,
ou tarde demais,
ou do jeito certo
na hora errada.

O QUE NÃO MORRE, MAS NÃO VIVE (Versão narrativa)

 O Que Não Morre, Mas Não Vive

(versão narrativa)

Quando eu olho para trás, vejo dois jovens que se amaram com tudo o que tinham — e talvez com o que ainda nem sabiam que tinham. A gente se encontrava no corpo e no espírito como se fosse natural, como se o mundo tivesse sido criado só para que aquilo existisse. Conversávamos sobre tudo e sobre todos. Não havia pressa, nem conflito, nem medo. Parecíamos um par perfeito.

Mas alguma coisa, que até hoje não sei nomear, envelheceu aquele tempo. Não foi uma traição, nem uma briga. Foi algo mais sutil e silencioso: o convívio começou a esmorecer, como uma vela que vai apagando sozinha. E então nos separamos.

Cada um seguiu para um lado da vida. Ela voltou para um amor antigo. Eu encontrei outra pessoa. Casamo-nos. Tivemos vidas boas o suficiente. E por muitos anos, fomos apenas memórias um do outro. Vivíamos na mesma cidade, quase sem nos ver, como duas linhas paralelas que já se tocaram um dia e depois esqueceram como era.

O tempo passou. E com ele veio a era das redes sociais — esse espelho virtual onde os rostos antigos voltam a aparecer. Foi ali que nos reencontramos. Começamos com conversas banais, como quem pisa devagar numa terra queimada. Evitávamos o passado, até que, enfim, ele veio. E quando veio, foi como um silêncio que grita.

Falamos do que fomos. E, com a maturidade que antes não tínhamos, dissemos um ao outro o que nunca dissemos: que fizemos uma grande besteira. Que deixamos o amor partir. Que não entendíamos a vida como ela realmente era.

E que agora, mesmo sabendo disso, não podemos fazer nada. Porque acreditamos. Porque professamos uma fé. Porque sabemos que trair nossos compromissos seria trair a Deus, a nós mesmos, à paz dos que hoje caminham ao nosso lado.

Não há espaço para retorno. Não há chance de reparo. Há apenas esse reconhecimento amargo e, de certa forma, sereno: fomos idiotas. Mas idiotas que amaram de verdade. E isso não é pouca coisa.

Hoje, não somos felizes de forma plena. Tampouco infelizes o tempo todo. Vivemos, cada um no seu canto, com a companhia constante de uma ausência que não desaparece. Um amor que não morreu — mas também não pode mais viver.

E isso, talvez, seja o destino de alguns: amar na hora errada. Sentir o que era para durar, mas sem saber como guardar. E então seguir. Com fé. Com arrependimento. Com ternura. E com a certeza de que algumas perdas são para sempre.

Mesmo que o amor permaneça intacto, no fundo de uma memória que ainda pulsa.

19 janeiro 2022

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

 

RECOMEÇO EM TRÂNSITO

fiquei ali
entre o motor desligado
e a vontade de desaparecer

a cidade não me esperava
as pessoas
atravessavam a rua como se soubessem
pra onde iam

eu, não.

havia uma pausa em mim
um semáforo interno piscando amarelo
há dias
me pedindo cautela
me impedindo o passo

pensei em você
e no tempo que pediu
como quem pede troco
e vai embora antes de receber

quis voltar pra casa
mas onde é isso
se a casa era você?

meus olhos seguiram a pressa dos outros
mas meus ombros afundaram no banco
como quem sabe
que certas dores
só aliviam quando
alguém volta.

e você não voltou.

01 janeiro 2022

VERÍDICO

 

VERÍDICO

 Ruínas Íntimas

 

Pontes desabam sob meus pés,

como cadafalsos da alma.

A travessia interrompida,

o abismo escancarado,

onde a esperança se espatifa

em destroços e silêncio.

 

Cada passo tentado,

uma nova ruína a surgir.

Os pilares da fé, corroídos,

cedem ao peso invisível

da angústia e da incerteza.

 

O corpo cambaleia na borda,

o olhar perdido no vão.

As promessas de outrora,

agora fantasmas pálidos,

pairam sobre a cratera.

 

E no lugar da passagem segura,

apenas a memória da travessia,

um eco distante de um tempo

em que os caminhos se abriam

sem a ameaça constante da queda,

sem a fria constatação

de que o chão pode sumir

sob o peso dos próprios passos.