15 novembro 2020

VONTADE DE NÃO CONTINUAR

  

Vontade de Não Continuar

 

E a vontade de não continuar,

um cansaço que transcende o corpo.

Não é preguiça, não é desistência covarde,

é a exaustão da alma, o esgotamento da fé

em cada novo passo, em cada amanhecer.

 

Os dias se arrastam, pesados,

e a perspectiva de mais um "virá"

é um fardo insuportável.

É o desejo de que o tempo pare,

que o fio se rompa de vez,

que o silêncio se instale sem eco.

 

É a promessa do vazio, que de repente

parece menos ameaçadora que a plenitude da dor.

A ânsia de sumir, de dissolver-se

em um nada que finalmente traga a paz,

o fim da luta, o descanso sem sonhos.

 

 

 

 

 

20 outubro 2020

AREIA NA VARANDA

 

Areia na Varanda

 

Sinto em mim uma saudade,

dessas que gruda.

Igual areia na varanda

depois de um dia de vento.

 

Não é só lembrança,

é grão no chão,

entre os dedos,

insistente.

 

Passa o rodo,

varre e varre,

ela volta.

Um pedacinho de onde fui,

na soleira de onde estou.

 

Essa saudade é assim:

Pequena, infinita,

um deserto particular

no centro da sala.

AREIA NA VARANDA

 Areia na Varanda

 

Sinto em mim uma saudade,

dessas que gruda.

Igual areia na varanda

depois de um dia de vento.

 

Não é só lembrança,

é grão no chão,

entre os dedos,

insistente.

 

Passa o rodo,

varre e varre,

ela volta.

Um pedacinho de onde fui,

na soleira de onde estou.

 

Essa saudade é assim:

Pequena, infinita,

um deserto particular

no centro da sala.


15 setembro 2020

ILHA INEXISTENTE

 

Ilha Inexistente

 

Eu sou uma ilha que não está no mapa,

nem na lenda de pescador antigo.

Nenhum farol me aponta,

nenhum barco se arrisca em meus arredores.

 

Sou feita de água e de ar,

de brisa que não move bandeira,

e de rocha que ninguém pisou.

Minha flora é de pensamento,

minha fauna, de um silêncio raro.

 

Não sou naufrágio,

nem porto.

Sou o avesso do achado,

o vazio onde a bússola enlouquece.

 

Uma ilha que só existe

no meu próprio mar particular.

E mesmo assim,

às vezes sinto a maré alta

arrastando o que nunca houve.

 

01 junho 2020

DESCOBERTA CRUA

 Descoberta Crua

Eu estava ali, parado na soleira da porta, ou talvez fosse a beira de um precipício interno que eu só então percebia. O sol da tarde, um sol indiferente, pintava a poeira que dançava no ar. A voz de um vizinho, lá fora, repetia o nome de um cachorro. Era tudo tão... comum. E foi nessa normalidade quase ofensiva que a revelação veio, não como um grito, mas como um sussurro que se fez carne em mim.

 

Eu, que sempre me vi como uma fortaleza de raciocínios, uma máquina de certezas, o dono de um "eu" que se acreditava sólido e inquebrável, comecei a sentir as rachaduras. Não as rachaduras do concreto, mas as da alma. Uma pontada de estranha vulnerabilidade subia da sola dos meus pés, percorria minhas pernas, instalava-se no meu peito. Era um incômodo, sim, mas um incômodo que me chamava.

 

Foi quando me olhei no espelho, ou talvez no reflexo opaco da janela suja. E ali não estava o homem que eu planejava ser, o homem de gestos controlados e respostas prontas. Ali estava um rosto que não me pertencia por completo, mas que me habitava. E vi, na linha dos olhos, na curva dos lábios que não sorriam, a marca de algo que eu sempre renegara: a fragilidade.

 

Eu me sentia subitamente desprotegido, exposto. Minha lógica, antes tão afiada, parecia agora uma faca cega. As grandes questões que eu formulava com tanta precisão se esvaziavam diante da simples batida do meu próprio coração, que agora eu ouvia com uma clareza absurda. O corpo, essa prisão de carne, não era mais um mero recipiente, mas um universo de sensações que se impunham, exigindo a minha atenção, a minha completa, e até então ignorada, rendição.

 

E a epifania se deu na entrega: não era o "terreno" que me fazia humano, mas o "sentir". Não o "conhecer", mas o "ser atingido". E toda a minha construção de virilidade, de força, de inabalável razão, escorria pelos meus dedos como areia fina. E me deixava nu. E naquele momento, nu e desarmado, eu me descobri. Mais do que homem, mais do que qualquer definição. Eu me descobri, enfim, mais humano. E o sabor disso era estranho, um misto de pavor e uma doçura que jamais imaginei possuir.



24 maio 2020

ESCOLHI A PALAVRA COMO DEFESA PESSOAL

 

Escolhi a palavra como defesa pessoal

Escolhi a palavra
como quem escolhe um abrigo no meio da rua,
sem chave, sem teto,
mas com um nome.

Escolhi a palavra
como quem aponta um lápis contra o medo,
sem ponta,
mas com coragem.

Escolhi a palavra
não para ferir,
mas para sobreviver às manhãs lentas,
às conversas suspensas,
às ausências longas.

A palavra me defende
quando me perguntam o que sinto —
e eu não sei.
Mas escrevo.

Quando me acusam de silêncio,
eu rabisco.
Quando me esquecem,
eu invento lembranças.

E se me caem promessas vencidas,
eu as refaço em poema,
com um ponto final bem posicionado.

Escolhi a palavra
porque o corpo, às vezes, falha.
Porque a voz, às vezes, treme.
Mas a palavra, não:
ela se recompõe sozinha,
mesmo ferida,
mesmo lida por engano.

A palavra é minha espada sem lâmina,
minha reza sem igreja,
minha linha de frente
num mundo que não escuta.

Escolhi a palavra
como defesa pessoal.
E, com ela,
vivo.

12 maio 2020

DOM PEDRO I - O LIBERTADOR

 Dom Pedro I - O Libertador

(Pequena Biografia)

Dom Pedro I, também conhecido como Pedro IV de Portugal, foi o primeiro imperador do Brasil e rei de Portugal. Ele nasceu em 12 de outubro de 1798, em Lisboa, Portugal, e faleceu em 24 de setembro de 1834, em Queluz, Portugal.

 Dom Pedro I foi o quarto filho do rei Dom João VI de Portugal e de sua esposa, a rainha Dona Carlota Joaquina. Ele recebeu uma educação tradicional da nobreza portuguesa e foi preparado para assumir responsabilidades políticas desde cedo.

 Em 1822, Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil e foi coroado imperador, tornando-se o líder do recém-criado Império do Brasil. Durante seu reinado, ele enfrentou desafios significativos, incluindo a resistência de grupos que se opunham à independência e a necessidade de consolidar a autoridade imperial.

 Dom Pedro I é lembrado por seu papel fundamental na independência do Brasil e por sua contribuição para a formação da identidade nacional brasileira. No entanto, seu reinado também foi marcado por controvérsias e desafios, incluindo a repressão de movimentos separatistas e a crise econômica.

 Em 1831, Dom Pedro I abdicou do trono brasileiro em favor de seu filho, Dom Pedro II, e retornou a Portugal para lutar pela causa liberal e defender os direitos de sua filha, Dona Maria II, ao trono português. Ele faleceu em 1834, aos 35 anos, devido a uma tuberculose.

 Dom Pedro I é considerado uma figura histórica importante tanto no Brasil quanto em Portugal, e seu legado continua a ser estudado e debatido por historiadores e especialistas.

 

O Libertador

 

Dom Pedro I, um nome que ecoa,

Na história do Brasil, um legado que fica.

Um imperador, um líder, um homem de ação,

Que proclamou a independência, com coragem e paixão.

 

Em 1822, um ano que marcou,

A história do Brasil, um novo caminho traçou.

Dom Pedro I, com sua determinação,

Rompeu as correntes, da opressão.

 

Com o grito do Ipiranga, ele libertou,

O Brasil, de Portugal, se separou.

Um novo império, nasceu naquele dia,

Com Dom Pedro I, como seu líder, guia.

 

Mas seu reinado, não foi sem desafios,

A resistência, a crise, os obstáculos.

Ele enfrentou, com coragem e força,

E consolidou, a autoridade imperial, com mão firme.

 

Abdicação, um ato de amor,

Pelo filho, Dom Pedro II, o trono entregou.

Retornou a Portugal, para lutar,

Pela causa liberal, e defender a filha, Dona Maria II.

 

Um homem de ação, um líder visionário,

Dom Pedro I, um legado que permanece.

Na história do Brasil, seu nome é lembrado,

Como o libertador, que a independência proclamou.

 

Sua vida, um exemplo, de coragem e determinação,

Um legado que inspira, gerações futuras.

Dom Pedro I, um nome que ecoa,

Na história do Brasil, um libertador, que não se apaga.

09 maio 2020

DESPEDIDA

 Despedida

a imagem pareceu-me em movimento,
mas estava lá,
estacionada em minha memória
mais ancestral,
ladeada por impenetráveis diagramas.

quis ser aquele livro aberto
que ousara não folhear,
ou lançar-me rumo ao sol
sem os efeitos desastrosos
de Ícaro.

sorri, então, todas as mentiras
que me juravam verdades inventadas,
e me percebi
verso e bandeira.

e a imagem continuava lá,
como no primeiro instante,
impregnando minhas retinas
com a sua ausência.

21 abril 2020

MEU DESERTO PARTICULAR

 

Meu Deserto Particular

Tem um deserto em mim

que ninguém pisa.

Nem nuvem cruza.

Só areia e o tempo

que não passa.

 

É onde a sede é silêncio

e a miragem, real.

Aqui, a rosa dos ventos

aponta só pra dentro,

pra uma solidão que espalha.

 

Não é tristeza,

nem falta.

É um lugar vasto,

onde as palavras se perdem

antes de virar eco.

 

Meu deserto particular:

o avesso do oásis,

o começo de tudo

que me faz ser eu.

26 março 2020

DIAS DE SILÊNCIO

 

Dias de Silêncio

 

Há dias que a voz se recolhe,

vira concha.

O mundo fala, grita,

e a gente só escuta,

ou nem isso.

 

São dias de poeira nos cantos,

e a alma se aquietando,

um passo de cada vez,

no piso frio do próprio ser.

 

A tela acende, o telefone vibra,

mas a resposta mora longe,

numa ilha que só existe

quando as palavras

tiram férias.

 

Nesses dias,

o silêncio é uma língua

que a gente esquece de falar,

mas entende perfeitamente.

É a gramática da pausa,

o respiro entre uma frase

e a próxima vida.

 

20 março 2020

ECO DO SENTIMENTO

 

Eco do Sentimento

O peso no peito, a sombra que insiste,

Uma voz interna que acusa, que persiste.

Você revive a cena, o "se eu tivesse",

O nó na garganta, a culpa que te veste.

 

É um fardo invisível, pesado,

Por erros que foram, ou apenas imaginados.

Mas veja bem, essa emoção que te abraça

É apenas um eco, um resquício que passa.

 

Não é uma falha intrínseca, um desvio.

É a mente tentando entender o vazio,

Ou o excesso, o que não cabe, o que transborda.

A culpa é um sentir, não uma sentença que acorda.

 

Permita-se a ela, sem julgamento severo.

Observe-a, como uma nuvem no céu sereno.

Ela vem, ela vai, não é sua essência, seu ser.

Apenas mais uma cor no vasto acontecer.

 

Deixe que o perdão, o seu próprio, floresça.

Pelo que foi, pelo que é, pela sua presteza

Em sentir, em crescer, em simplesmente existir.

Não se culpe por sentir culpa, é apenas um fluir.

11 março 2020

À MARGEM DO TEMPO

 

À Margem do Tempo

(Explorando a ideia de felicidade adormecida na poeira do tempo e no não pertencimento)

 

Há uma casa no fim do agora, onde a poeira não se assenta de todo, apenas flutua, preguiçosa, nos feixes tênues de uma luz que não chega.

Foi lá que a felicidade dobrou seus lençóis de riso, arrumou a cama com cuidado, e se deitou para um sono sem pressa, sem despertador, sem sol na janela.

É um lugar de ninguém, sem nome no mapa dos sentimentos, sem placa indicando a direção. Um interstício entre o que foi e o que não é mais, uma terra de fronteira onde as pegadas não deixam rastro.

E ela dorme, embalada não pelo ritmo do coração que pulsa forte ou do passo que caminha firme, mas por uma cadência suave de não pertencimento. Um balanço lento, como um barco à deriva em águas calmas, sem porto de chegada, sem âncora para fincar.

A poeira do tempo a cobre como um véu, sutil, quase invisível. Ela respira devagar, um sopro que não move o ar estagnado. E lá fica a felicidade, adormecida, no silêncio particular do lugar de ninguém, esperando um chamado que talvez nunca venha, enquanto o ritmo do não pertencimento ecoa na vastidão vazia.




02 fevereiro 2020

LEMBRANÇAS EM VIDRO

 

Lembranças em Vidro

quebraram-se memórias
em cacos de silêncio
fragmentos brilhantes
que cortam a pele da alma

cada pedaço reflete
um instante congelado
um sorriso, uma lágrima
um tempo que não volta

mas mesmo partidos
os vidros guardam luz
e na delicadeza do risco
há beleza escondida

carrego em mãos trêmulas
esse vidro partido
como quem abraça
a própria história

e aprendo que lembrar
é também reconstruir
com os fragmentos
que restaram

19 janeiro 2020

SEDE EM SILÊNCIO

 

Sede em Silêncio

 

Tem um lugar em mim

onde a sede é silêncio.

Não grita, não pede,

só respira fundo

o ar rarefeito.

 

É a espera que não verbaliza,

o desejo que virou sussurro,

quase nada.

Um copo d'água invisível

à beira de um lábio seco.

 

Ali, o deserto é tão vasto

que não cabem palavras.

Apenas o sentir

da garganta em brasa,

e o saber que o alívio

não se diz, só se bebe.