11 janeiro 2016

OITENTA E QUATRO

 Oitenta e Quatro 

Ainda ontem era ontem,

com cheiro de hoje,

com futuro de amanhã.

Ainda ontem era oitenta e três.

Parece-me que ontem

ainda era oitenta e dois e tantos anos assim.

O tempo era um novelo que eu desenrolava sem pressa,

achando que o fio não teria fim.

Tinham ainda ontem alguns luares.

Estrelas gritavam

espremidas nesse cosmos

tão estreito e achatado.

Eu não me dava conta

que o oitenta e quatro batia-me à janela envidraçada.

Seu punho era de vidro, mas o som era de ferro.

Fazia uma meia-noite de faz-de-conta

ainda ontem.

E nos esquecíamos do dia

que teve o meio-dia

lá pelo meio do dia.

Esbarrando na tarde.

Esperávamos com ânsias.

Meia-noite.

Pelo luar percebe-se

que o dia que virá,

virá carregado de luz.

Declamam estrelas alguns versos desencontrados.

As mais experientes gritam sonetos

na mais louca quietude do vácuo.

(O céu é um palco mudo de tragédias e festas).

(Esse verão promete)

O Sol anda bocejando vento solar.

Os ventos bocejados são expedientes

de um prenúncio de dias melhores,

mais quentes.

Um calor que não queima a pele, mas incendeia o peito.

Ao longe tocam canções.

São fogos aos céus subindo.

Súbitos.

Explosivos.

Nos arredores: saudade.

Crepitam as saudades

em consultiva fogueira interior.

O estalo da brasa é o único relógio que aceito.

Revisitei minhas esperanças.

Farei dessa visita minha rotina.

Pois quem sobreviveu ao ontem,

tem pressa de inaugurar o agora.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ